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A Levada - XV

                                                                    





A Levada – XV

As  convulsões sísmico-vulcânicas do Verão de 1563 e as enxurradas do Inverno do Inverno seguinte de 63/64, meteram de rastos a Ribeira Grande. Dessas catástrofes naturais, resultou a perda dos moinhos do Capitão. Havendo sido erguidos na margem da ribeira Grande ainda no século XV, talvez a partir do último quartel daquela centúria, ou por terem sido arrasados ou por estarem grandemente danificados, deixaram pura e simplesmente de moer. Um mês depois, a propósito da cheia de 1667, Frei Agostinho de Monte Alverne diria que ‘(…) no fim da vila, junto ao mar, descobriu umas casas, que naquele tempo tinha a ribeira, com sua represa, metidas todas debaixo da terra.[1]Seriam vestígios de alguns dos moinhos destruídos um século atrás? É muito possível que. Frei Agostinho, sendo contemporâneo do evento e conterrâneo da Ribeira Grande, não o tivesse só ouvido isso da boca de alguém mas também visto com os seus próprios olhos o que nos transmite. 

É um facto irrefutável, segundo nos conta Gaspar Frutuoso, que no Verão de 63/64, os moinhos haviam sido então forçados a parar por mais de um mês, no entanto, ao fim deste curto espaço de tempo, haviam sido capazes de os voltar a pôr de novo a trabalhar. Porém, desta vez a destruição era total. Exigia uma solução radical. Enquanto, não era encontrada a solução, onde iria a Ribeira Grande moer as suas moendas? À Ribeirinha?[2] Era possível. Em 1508, dentro da herdade de António Rodrigues da Câmara havia um moinho de pastel. Seria possível converter rapidamente este tipo de moinho a um de cereais? Com algum trabalho, sim. Além disso, além daquele moinho, não haveria de haver um moinho próprio de moer cereais naquela vasta e riquíssima herdade? É bem provável que houvesse. Na ribeira do Salto, a outra ribeira daqueles lados da Ribeirinha, por ocasião da peste de 1526/7, havia-se construído rapidamente um moinho de cereais. E, nessa mesma altura, construíra-se outro na ribeira Seca ainda outro. Isso para evitar que fossem moer aos da ribeira Grande, pois, a Vila estava ‘fechada.’ Diga-se, ainda segundo Frutuoso, que iam ‘às escondidas lá moer.’ Acerca de haver moinhos localizados fora do centro da Vila, uma acta da vereação de 1621, sem indicar o local exacto, é bem clara a esse respeito: havia-os.[3] Onde estariam? Na Ribeirinha, em 1664, havia o moinho do Porto.[4] Disse-nos Frei Agostinho de Monte Alverne. Entre 1810 e 1815, Francisco Peixoto de Bettencourt, no prédio do Fidalgo Cabrinha de Lisboa, na ribeira pública, construíra três moinhos (três casas de moinhos ou três moegas?).[5] Em 1818, o Conde (através do seu Procurador Bastante na Ilha), movia uma ‘acção de força’ contra António Lopes Pereira, que na Ribeirinha construíra um moinho.[6] Dado a natureza específica da rede hidrográfica do Concelho em 1563/4, há a considerar duas (talvez três) hipóteses possíveis: Ribeirinha (nas ribeiras do Salto e da Ribeirinha) e na Ribeira Seca.[7] Como já foi referido. E, o que ainda não indicamos, na segunda ribeira que desagua na praia dos Moinhos.[8]

Estariam as ribeiras Seca e ribeirinha em 1563/64 em condições de pode ter moinhos a funcionar? Sabe-se, sempre por Frutuoso, que nessa altura a ribeira Seca foi severamente castigada. Teria ficado a tal ponto danificada a ponto de não poder ter moinhos? E a ribeirinha e a ribeira do Salto? Foram mais poupadas pelas catástrofes? Segundo se pode inferir ainda e mais uma vez por Frutuoso, é possível que essas duas últimas tivessem sido menos castigadas. Fosse como fosse, fosse onde fosse, ir moer fora do poderoso centro, com mais força de água e mais perto do coração da terra, seria sempre um recurso não uma solução permanente. Era solucionar uma emergência. As águas da Ribeirinha e da ribeira do Salto não chegavam aos calcanhares das da ribeira Grande. Era (pois) muito urgente encontrar uma solução duradoura para abastecer a Vila da Ribeira Grande e a Cidade de Ponta Delgada de moendas. Ponta Delgada era (atestam-no documentos e cronistas) o destino mais cobiçado das moendas dos moinhos do Capitão.[9] Os que lhe rendiam mais. Na realidade, o alcance era bem maior. Não era só em Ponta Delgada e na Ribeira Grande mas ‘em outras partes.’ Como nos esclarece uma acta de 1578.[10] Quais outras partes? Não diz. Em 1620, ia farinha dos moinhos da Ribeira Grande para o Brasil.[11] Não seria ainda para o Brasil. Seria para Angra? Para as praças portuguesas do Norte de África?

Ficassem onde ficassem essas outras partes, era preciso encontrar no imediato uma solução permanente. À altura do problema. Vou tentar imaginar possíveis passos na resolução do caso. Em 1565, chega à Ilha o Capitão, o dono dos moinhos arrasados (ou muito danificados) da ribeira Grande.[12] Isso é um facto. Confrontado com uma alteração tão radical da ribeira (e margens dela), D. Manuel da Câmara (assim se chamava o Capitão do Donatário), certamente, imagino, após sopesar as diversas alternativas possíveis de solução do problema, terá dado luz verde à construção de uma levada fora do alcance da frequente fúria da ribeira Grande.[13] Custar-me-ia muito a crer que o traçado da nova levada tivesse saído apenas da mente do Capitão. Ou do seu Procurador, que à altura já seria Lopo Dias Homem.[14] Dependia também e muito da vontade da Câmara e de João Rodrigues da Lomba, que por morte, substituíra, em 1555, Pedro Teixeira, era o organizador do espaço da Vila e seu Termo.Competia-lhe traçar as ruas e os caminhos, licenciar as casas e conferir as extremas dos terrenos de cultivo (…).’[15]

Decidida e aceite aquela opção, como construir a levada? Levada com uma mão única. Pergunto-me, curioso, se os moinhos junto às margem da ribeira destruídos em 63/4 teriam tido uma levada com mão única? Voltando à nova levada. Terá sido a levada construída de raiz ou terá aproveitado regos de água que já existiam por ali? Dos que regavam as quintas circundantes? É provável. Como é provável que a levada tenha começado por ser um troço suficiente para servir os primeiros quatro ou cinco moinhos. Número de moinhos (com duas mós cada) capazes de dar vencimento ao volume de moendas até 156/64. Ligação mais em linha recta do Moinho da Rua ao Moinho da Praia, até ao século XVIII a foz da levada. E ao moinho do Vale. Talvez ao do Outeiro. Talvez ainda ao da Palha. Ficaria a levada e esses moinhos nos locais dos moinhos actuais com aqueles nomes? Não há maneira de o saber com rigor. Onde se situaria a mão desses moinhos iniciais? Descontando as modificações provocadas pelo impacto das grandes enxurradas posteriores à de 1563/64, cujo efeito apenas supomos, tais como, 1667, século XVIII, 1848, a mão desses quatro ou cinco moinhos iniciais não estaria forçosamente na Longaia, onde hoje a vemos. Estaria, isso é palpite meu, algures próximo do Poço da Mãe.

Onde foram buscar a ideia e a técnica para construir tal levada? Era técnica e ideia em uso corrente. Não inovaram, copiaram o que já se fazia. Após o Verão de 1563, as toneladas e toneladas de ‘cinzeiro e de pedra-pomes’ que cobriram telhados, ruas, terras e ribeiras da Ribeira Grande - e as da Ilha inteira -, (leia-se Gaspar Frutuoso) foram (em grande parte) empurradas (lavadas) graças à água desviada das ribeiras e das levadas. O capitão Manuel da Câmara pediu isso (para terras suas) em várias ocasiões ao seu amigo Manuel Vieira. Ora, Vieira foi um dos que mais recorreu a essa técnica de limpeza dos solos.[16] Técnica (diga-se) a que já se recorrera (com tremendo êxito) quatro décadas antes ao abrir-se o caminho de acesso ao porto de Santa Iria.[17]A ideia (inicial) desse tipo de levada, suponho, virá, muito provavelmente, das levadas madeirenses. A origem madeirense do capitão Manuel da Câmara (a partir de 1473/4 chegaram à Ribeira Grande vindos da Ilha da Madeira, Rui Gonçalves – o novo capitão da Ilha, os seus irmãos Pedro e António, acompanhados por familiares e criadagem) sustenta (e reforça) essa suspeita.[18]A escolha do local adequado para rasgar a levada, construída a uma distância (tida como) segura da ribeira, de modo a protegê-la e aos moinhos das cheias cíclicas, terá obedecido (estou em crer) aos critérios que lanço (sempre) como hipótese: a banda oriental da Ribeira Grande era ainda a menos desenvolvida (menos povoada), o terreno por onde iria passar, constituído por terra arável, areias, tufos e pouca ou nenhuma pedra, seria mais fácil de rasgar. Talvez até o terreno (ou parte dele) pertencesse ao próprio capitão. Ou não sendo, iria beneficiar as quintas e terras vizinhas. A solução foi acertada, bastante prudente, como se tem verificado ao longo de mais de quatro séculos de vida. Apesar de rompimentos, alguns bem graves, como o de 1919, no geral, tem evitado a destruição dos moinhos construídos ao longo daquela levada.[19] Excepto os dois primeiros e o último das segundas casas (Pimentel/Mãe de Água, Félix e Areia II). Os dois primeiros sob a acção da ribeira, o último pela acção do mar.[20] Ainda assim, sofrendo um impacto menor.

Quando se terá começado a construir a levada? Quase de imediato. Estou em crer. Dada a urgência da sua construção, talvez isso tenha acontecido ainda em 1564.[21] O capitão, compreensivelmente, ansioso por estancar as perdas à sua fazenda, mal tomou conhecimento da desgraça, mesmo antes de chegar à Ilha, pode ter mandado instruções nesse sentido. Ou (dado o carácter radical da sua localização) teria sido começada no ano seguinte, já com o capitão na Ilha a orientar (ou simplesmente a seguir) a sua construção. Assim, entre 1564/65 e 1573, – ano em que o capitão regressa a Lisboa, poderia já havia (de certeza) moinhos. Talvez até os seis primeiros. Já na nova levada.[22] A primeira prova dura (inequívoca) disso é de 1578. Sabemo-lo claramente pelas actas de 1578. Uma acta da Câmara, em concreto, uma de Setembro de 1578, ao tratar do problema da levada do Moinho Novo, prova-o. Mais ainda. O facto de já haver em 1578 um Moinho Novo, permite-nos igualmente deduzir que esses moinhos não foram todos construídos ao mesmo tempo. Mas onde estavam os moinhos? Junto a uma levada, no interior da terra? Ou junto às margens da ribeira Grande? Frutuoso dá-nos uma resposta dúbia: ‘leva dentro de si, seis moinhos.’ Dentro de si, refere tanto a levada como a ribeira. Voltemos à acta já referida. A acta de Setembro de 1578, ao tratar do problema da levada do Moinho Novo, lança luz na descrição de Frutuoso: junto do Moinho Novo estavam as calhas e arco de maneira que as águas caíam na rua e faziam muito dano a quem por ali passavam quando passava o Santo Sacramento (…).’ Não sei se concordarão comigo, mas, para mim, a interpretação que faço dessa passagem da acta é de que esse moinho ficava numa rua, no caso, rua do Arco, a actual rua Dr. Eduíno Rocha, não na margem da ribeira Grande.[23] Daí a levada estar dentro de terra.

Restam ainda dúvidas? Neste mesmo ano de 1578 e nessa mesma vereação, temos nova prova a favor da tese da existência de moinhos ao longo de uma levada no interior da terra: onde poderia estar o Moinho da Rua senão numa rua, no caso a rua Direita (hoje, El-rei D. Carlos I).[24] Aliás, a água desse Moinho da Rua seguia para o Moinho Novo e desse Moinho Novo seguia para o da Praia. Onde ficaria esse último moinho? Ficaria (por certo) no final da levada, ainda em 1578, a Vereação chamou Lopo Dias [procurador do capitão] ‘por ser necessário corrigir-se uma ponte de pau abaixo do moinho da Praia [pela zona da praia havia terrenos aforados pela Câmara que o capitão doara à autarquia] [por onde] passem as pessoas bem pela dita ponte que (…) Lopo Dias pagaria logo.[25] Pequena ponte sobre a levada dos moinhos. Não na foz caudalosa da ribeira Grande. Subsistem ainda dúvidas acerca da existência de uma levada construída fora das margens da ribeira? Onde estavam os moinhos do Capitão? Se, sim, em 1604, por certo, a dúvida não resiste à prova seguinte. Existia uma levada em 1604, rasgada dentro da terra, certamente aquela levada da Condessa: ‘(…) os donos e rendeiros, que tem terra por onde vem a levada de trás dos picos até ao mar (…).’[26] Acho que provei isso sem forçar as provas. Que acham?

Uma pitada mais de História da levada para não asneirar (assim tanto) no futuro? O livro de actas de Vereações de 1578, o primeiro sobrevivente depois do de 1555, o mais antigo dos Açores, segundo uma primeira interpretação, parece identificar seis no máximo sete moinhos: (1) Moinho da Praia; (2) moinho Novo; (3) moinho de Cima; (4) moinho da Rua; (5) moinho d Francisco Ferreira; (6) moinho de Miguel Fernandes e (7) moinho de Simão Gonçalves. Seis ou sete? Frutuoso, pároco da Estrela, sem lhes atribuir nomes, muito provavelmente na década seguinte, confirma seis: leva dentro de si seis moinhos.’ Eram ‘cada um de duas pedras,’ e os ‘melhores e que melhor moem que todos os da ilha e Portugal (…).’[27] Dois deles, são identificados pelo topónimo do local onde foram construídos: ‘Praia e rua do Alegrete.’[28] O primeiro (moinho da Praia), aponta para a nova levada. Porque o digo? É conhecida até hoje a localização de um moinho com esse nome no final da levada, junto ao Monte Verde. Dois, identificam-se em relação aos primeiros dois: ‘Novo e o de Cima.’[29] Portanto, também na levada. Os nomes são reveladores. Novo, por ser o mais recente. De Cima, por se situar a montante dos demais. Os três últimos, associados aos nomes (de rendeiros ou moleiros), só não dão esses nomes: ‘Francisco Ferreira, Miguel Fernandes e Simão Gonçalves.[30]

A levada, cuja extensão actualmente ronda os 2.500 metros de comprimento por cerca de 2 metros de largura,[31] deu de comer a 15 moinhos, não é gralha, terão chegado a ser 15 moinhos, a dúvida reside em saber se eram dois numa casa única ou em duas autónomas, a uma fábrica setecentista de ‘panos de lã e (…) de meias de tear,’[32] a uma fábrica de fibra de espadana (já no século XX), a uma fábrica de licores, a dúzias de quintas e de pomares das redondezas. Havia um agueiro que percorria regularmente as suas margens (servidões) – hoje (em parte) usurpadas pelas casas (e empresas) que a confrontam. Limpava o que pudesse ‘entupir’ os cubos e os caboucos dos moinhos, ainda não se ligava à matéria microbiológica e distribuía a água pelas quintas (fonte de rendimento). Antes, em 1604, pelo menos, quem tivesse propriedade que confinasse a levada, deveria abrir ‘as suas testadas sob pena de incorrerem nas penas (…) e posturas desta câmara e lhe deram os mais deles em resposta que lhes mandarão abrir suas levadas e torna-la levada a por no estado em que dantes estava bem aberta (…).’[33] A limpeza da levada cabia ao capitão. Havia um Juiz nomeado pela Câmara que fiscalizava a chamada ‘ribeira dos moleiros.’[34] O Procurador do Concelho e o dos Mesteres andavam sempre em cima dos moinhos, da levada e dos moleiros. Era a Câmara quem examinava os moleiros. O Capitão começou por administrou directamente os seus moinhos através do seu procurador. Até que, ainda no século XVI, arrendou os moinhos. Em ambas as situações, a Câmara tomou a seu cargo a defesa dos povos. Afrontando, não raras vezes, o capitão (já Conde e mais tarde Marquês) ou os seus rendeiros. Terão sido todos os novos moinhos construídos na nova levada? Teria o capitão recuperado logo após 1563/64 ou mais tarde o moinho mais tarde conhecido por moinho do Açougue, na margem da ribeira?[35] Seria o oitavo moinho do Conde que pagava foro em 1840? Ou seria outro, talvez um dos do Vale ou do Outeiro?[36] O que se sabe até agora é que, a primeira identificação concreta a um moinho do Açougue vem de 1854/55. Aparece nos arrolamentos para fins tributários da década. Aí vemos um moinho com apenas um casal de mós. Uma visita do Marquês da Ribeira Grande na década de sessenta do século dezanove, liga-o aos seus antepassados. Aliás, foi visitá-lo com este propósito. E os que o adquiriram pagavam foro ao Marquês. Até novas provas, só podemos ficar por aqui.

Onde era a foz da nova levada? Pela orografia da costa (baixa em contraste com as barrocas do lado Nascente), pela proximidade à foz da ribeira e (não menos importante) por ficar a caminho dos importantes Lugares a Poente e a Sul da Ilha, o meu palpite (posso estar enganado, claro) é que ficaria (mais ou menos) diante do Moinho da Praia. Isso até ao século XVIII. Com o moinho da Areia (construído depois de 1720’s e antes de 1768) a foz passou a situar-se sensivelmente a 100 metros a poente da anterior foz. E a ‘mão’ (represa) desses (6 ou 7) moinhos quinhentistas? Em 1645/6, a descrição do florentino Frei Diogo das Chagas, que andou pela Ribeira Grande, remete-nos para um local vago: ‘Pelo meio da outra parte da Vila que fica para a parte Poente corre a levada dos moinhos que se toma ao alto e princípio do cerro, que vai para o sertão da mesma ribeira e outras águas, que trazido por seus vales por terras e cerrados entra na vila por esta parte, e fendendo pelo meio se vai meter ao mar, na qual estão seis moinhos.’[37]

Seis moinhos.[38] O mesmo número de moinhos de Frutuoso em 1580’s. Para Frei Agostinho de Monte Alverne (‘fuseiro’ que, por aquela mesma altura, andaria por ali) a levada ficaria (muito naturalmente) por ali ‘onde hoje se vêem [os moinhos].’[39] Era tão natural ali estar, que em 1699 serviu (como ainda hoje serve) de divisória entre as freguesias de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora da Estrela: ‘(…) partindo da levada dos moinhos para a parte do poente (…).[40] Mas onde, onde mesmo? Em 1835, já estaria para os lados onde hoje a vemos.[41] Foi sempre ali que esteve a levada? Talvez, não. Até 1769, o moinho mais a montante era ainda o da Palha. Algures por ali, recorrendo à água da levada, o Conde construíra em inícios do século XVII (1717) uma fábrica de panos que deixara de trabalhar entre 1740-48.[42]

Tentando ter em conta (na medida do que se conhece) as várias alterações sofridas (algumas bem drásticas) no leito e margens da ribeira (conforme nos autorizam os relatos das cheias de 1563/4, 1667, último terço do século XVIII, 1848, 1895 e 1919), é muito possível que uma primeira ‘mão da água’ (ou uma das primeiras) tivesse sido construída noutro local.[43] Pois não precisaria de ir tão longe. Haveria altura (e declive) para os cubos do moinho da Palha mais abaixo. Onde? Talvez num espaço à volta do poço da Mãe (até pela origem possível do nome) ou ainda em local na sua proximidade. Em 1769 o último moinho era o da Palha, pelo que em princípio não precisaria de ter uma mão tão a montante.[44] Em local abaixo da Mão e do Anel actuais, na Longaia.[45] Aliás, ainda em meados do século XIX, pelo menos, a Longaia principiava (a Sul) pouco acima do actual moinho do Pimentel e terminava (a Norte) algures à volta do Poço da Mãe.[46]

Ou tendo em linha de conta as obras que entretanto foram sendo feitas. Em inícios do século XVIII, o conde constrói (com água da levada) a sua fábrica de panos, que ficava acima do moinho da Palha. Terá essa construção e a de novos moinhos a montante do da Palha obrigado a reajustes na levada e na mão que a alimentava? Muito ou pouco, terá obrigado a reajustes. Atente-se no traçado da vala velha (das sete primeiras casas) e da nova (das sete segundas casas) ao longo daquela levada. Sendo a vala velha que conduz a água ao moinho da Palha (o último ainda em 1769) mais baixa entre 1 a 2 metros do que a nova, pode assumir-se que a mão dos moinhos da Condessa pudesse ter ficado mais abaixo da actual localização. Terá as consequências da cheia do terço do século XVIII obrigado a uma nova localização da mão da levada da Condessa? Mais. No que toca a moinhos, a Carta Régia de 15 Setembro de 1766, dirigida a D. Antão de Almada (Capitão e General das Ilhas) iria (começar a) abalar a posição dominante do (já) Conde. Iria doravante permitir aos donos de ‘águas particulares’ – em querendo -, que as usassem para levantarem (construírem) ‘moinhos.’[47] Será que essa oportunidade legal foi aproveitada? Até agora, não encontramos prova disso. O que se sabe é que, em 1769, uma acta da vereação da Ribeira Grande identifica (como moinhos da Vila, acho que se refere aos da levada) não os seis que Diogo Chagas indicara (sem os identificar) mas sete (cremos ser ainda todos do Conde).[48]

O Conde vai ter de defender, com tudo ao seu dispor e alcance, a levada. É um controle essencial. Ainda antes de 1821, antes de Abril de 1819, houve quem se atrevesse a ignorar os direitos do Conde, como foi o caso (entre outros mais) do Tenente Manuel da Silva, na Lomba da Maia. O conde reage. Intenta uma ‘acção de libelo’ contra o Tenente Silva.[49] E não é só contra o tenente Silva. Ainda em Abril de 1819, há mais processos a decorrer (desde quando decorriam?) contra infractores da Ribeirinha (na Ribeira Grande) a Vila Franca ‘por haverem construído Moinhos nas Ribeiras públicas desta Ilha dos quais o Excelentíssimo Suplicante tem Mercê Régia para só edificar com a exclusão de toda e qualquer pessoa.[50] Em 1819, decorria ‘uma acção de força contra António Lopes Pereira’ por haver construído um moinho na Ribeirinha (certamente de ribeira).[51]A situação pioraria, pois, sendo a mercê que lhe dava esse direito extinta com a morte do Conde ocorrida em Janeiro de 1820, o novo conde – uma criança de apenas dois anos -, em Outubro de 1820 ainda aguardava a renovação dessa mercê. Do que resultava ‘então cada um podia ter os seus moinhos visto não haver nova mercê.’[52] O seu representante na Ilha, talvez por circularem boatos nesse sentido, receava mudanças: ‘Queira Deis com este novo Governo [Revolução Liberal do Porto. O levante militar começou na cidade do Porto, em 24 de Agosto de 1820] não haja alguma implicância com esta casa de Sua Excelência.’[53] O que veio a acontecer em 1821. Nesse preciso ano, devido à enorme pressão de quem queria fazer moinhos, são abolidos os Direitos Banais: mais um rombo no monopólio multissecular (da vala) do Conde, outrora Capitão.[54] Três séculos e meio após os moinhos terem (por prudência) sido mudados das margens da ribeira para uma levada no interior da terra, talvez ainda nessa mesma década de vinte do século XIX, são construídos novos moinhos nas margens da ribeira Grande.[55] O Conde dispunha ainda de uma cartada importante: dele dependia ir mais ou menos água para a ribeira. Daí as muitas guerras do anel (bitola de água à entrada da levada) que se seguirão.

Fora da jurisdição e do controle do Conde, ainda na década de vinte, particulares constroem na Longaia dois moinhos acima da mão da levada do Conde. A 23 Novembro de 1822, uma ‘Escritura de Contrato de Sociedade e Companhia nos interesses de um Moinho em partes iguais em que são sócios e companheiros António da Silva, Manuel Cabral de Melo, António Lopes Cabral e o Capitão José Duarte Pacheco da Silva. ‘(...) da propriedade de quatro alqueires de pomar plantado de laranjeiras e castanheiros sitos na Longaia, Distrito desta Vila, que confrontam pelo Norte com caminho que vai para a Ribeira Grande, Sul com herdeiros do tenente José Inácio Machado, Nascente com terra de Matias de Almeida e Poente com a mesma Ribeira Grande (...) a construir um Moinho (...).’[56] A 4 de Dezembro, é assinada outra escritura:Escritura de Sociedade e Companhia nos interesses de um Moinho em que são sócios e companheiros Francisco Vieira Carneiro, Manuel Cabral de Melo e António Lopes Cabral. Em ‘(...) sete alqueires e meio de terra e baldios em que se acha situada uma casa térrea, palhoça, sita na Longaia desta dita Vila que confronta pelo Norte com António Raposo, Sul com António Francisco Alves Cabral, Nascente com caminho do Concelho e Poente com Ribeira Grande (...).[57] A Longaia foi habitada. ‘O lugarejo da Longaia’ hoje totalmente desaparecido, distava ‘1/3 de légua da Vila da Ribeira Grande.’ Entre a primeira e segunda década do século XIX, teria uma população de ‘36 almas’ vivendo ‘em 9 fogos.’[58]

Não desistindo, na tentativa (que provaria vã e inglória) de impedir o aparecimento de novos moinhos, para reafirmar a posse sobre a água da levada, o Conde continuaria a recorrer a expedientes legais e a outros menos legais. Mexer na bitola de entrada da água (no anel) de modo a ir menos água para a ribeira, foi um expediente que não resultou. A Câmara, pressionada deu razão a quem se queixava de tal prática.[59] Já em 1822, há intenção de construir um moinho na própria levada do Conde. A 5 de Dezembro de 1822Escritura de Contrato de um Moinho em que são sócios José Caetano Dias e Manuel Botelho de Bulhões para ‘fazerem um Moinho em um quintal fazendo o primeiro contratante a despesa do mesmo Moinho e o segundo dando somente o terreno que for preciso para ele (...).’ ‘Manuel Botelho de Bulhões, solteiro, de maior de idade, oficial de alfaiate, morador nesta Vila que era dono da propriedade de três quartas de terra lavradia sita na Canada do Moinho da Palha desta Vila que confronta pelo Norte com José Amaral, Sul e Poente com Caetano Oliveira de Lima e Nascente com Levada dos Moinhos (...).’[60] Será o moinho do Alfinete? Para construir moinhos na mesma levada do Conde, a 29 de Outubro de 1833, é criada uma sociedade. Era o primeiro passo para o moinho do Félix.[61] Não foram só estes dois moinhos, houve outros (sobre os quais temos menos provas). Era preciso fazer entrar mais água na levada do Conde, já não só para os sete moinhos do Conde, mas para os dos particulares que lá haviam construído. Com isso, os donos dos moinhos das margens da ribeira queixavam-se à Câmara e a Câmara actuava.[62]

Já com moinhos na levada do Conde que não eram do Conde, em 1841, os proprietários dos moinhos da ribeira e as lavadeiras que usam a água da ribeira, queixam-se da ‘falta de água (…) por ocasião da usurpação que dela fazem os rendeiros dos moinhos do Conde.’ A Câmara manda ‘construir um ladrilho por debaixo do anel estabelecido na levada do referido Conde (…).’[63] É a guerra sem quartel pelo controle do Anel (pedra que controla a bitola de água que entra na levada da Condessa). O Conde reage de pronto, o Juiz de Direito, dando-lhe razão, manda repor a bitola do anel. A Câmara contra-ataca (sempre).[64] A guerra continua ainda em finais de 1903. O que se passou em concreto? A acta da vereação de 10 de Setembro de 1903, é clara: chegue pouca água aos moinhos de ribeira. Assim, José Leonardo Tavares, Luís António Moniz e Manuel Andrade de Almeida, proprietários dos moinhos de ribeira, e Cristiano da Silva Canário, Francisco Borges Giesta, António Bernardo Pacheco e Manuel Rodrigues Couvinha, rendeiros dos moinhos da ribeira, declaram à Câmara que ‘haviam [os moinhos da levada da Condessa] alterado o registo das águas da ribeira Grande que vão para os moinhos do Conde da Ribeira Grande, de sorte que prejudica o volume das águas que servem de motor aos ditos moinhos de ribeira.’[65] Desconheço a decisão, o que conheço é que a decisão da Câmara não agradou. Os moinhos da Condessa reagiram legalmente. A 27 de Fevereiro de 1904, o jornal O Trabalho, informa os leitores de que decorre acção ‘judicial dos moinhos da Condessa contra a Câmara.’[66]Terça e sexta-feira desta semana estiveram nesta Vila os advogados Sr. Dr. Aristides da Mota Pereira Ataíde, inquirindo testemunhas na acção que contra a Câmara movem os proprietários dos moinhos da Condessa.’[67] Quem ganhou a acção? Algumas disputas, sabemo-lo pela tradição oral sobretudo, envolveram as sete primeiras e as sete segundas casas (moinhos) da levada da Condessa. E de todos os moinhos, de ribeira ou da levada da Condessa, contra a construção da barragem das Caldeiras. E, já construída, da retenção da água que lhes fazia muita falta.

Voltando ao Conde (titulo atribuído ao capitão por Filipe I de Portugal em 1583). Já Marquês (título atribuído ao Conde da Ribeira Grande por D. Pedro V em 1855). Uma outra forma de adaptação aos novos tempos, e de concorrer em pé de igualdade ou mesmo com vantagem com os moinhos da ribeira, foi o de tentar aproveitar ao máximo um moinho na ribeira (recuperado após 1563/4?). O moinho do Açougue (com os seus soberbos cubos e situado junto ao coração da terra) acabou por ser o melhor moinho da ribeira. Logo em 1841, publicita o seu arrendamento e dos sete da levada da condessa.[68] Obviamente, pretendia melhorar a renda. O número de casais de pedras passa das duas do século XVIII para as três pedras. Apesar disso, o Conde perderia finalmente a guerra com a Lei de 22 de Fevereiro de 1846. Que declarava (mais uma vez) abolidos todos os Direitos Banais.[69] A década de cinquenta acentua a perda do controle (monopólio) do Conde sobre a levada. O livro de registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da Ribeira Grande para o ano 1854-1854, regista vinte e um os moinhos da água da ribeira da Ribeira Grande, tanto a que entrava na levada da Condessa como a da ribeira, que pagavam contribuição. Sem conseguir uma identificação exacta, ainda assim, confirmam-se dois moinhos na Longaia, portanto, localizados antes da entrada da água na levada da Condessa, cinco na Mãe de Água, entre estes, dois (ou um?) na levada da Condessa (os primeiros dois a montante).[70] Uns atrás dos outros são construídos moinhos na própria levada do Conde. Em 1852, na Mãe de Água, Manuel Pedro de Melo e Silva vai construir uma ponte junto ao aqueduto das Freiras para servir os moinhos que anda a construir. [71] Provavelmente, entre 1871 e a década de 1880, José Joaquim de Melo Teixeira (que já dispunha de um na Longaia) constrói outro no princípio da levada da Condessa (com ponte de acesso). Em 1854, na levada, já havia o da rua do Outeiro dos Lagos e o da Praça (segundas casas ou das sete segundas).[72] Em 1855, a 19 de Março, ‘Jacinto Inácio Ferreira – Matriz – Pedindo licença para edificar 3 moinhos de água na casa que possui na rua do Vale desta vila – Diferido.’[73] Que já existia em 1854. Em Maio de 1855, ‘Manuel da Silva Peixoto e António Pacheco Alfinete – Conceição – pedindo licença para moerem seus moinhos – Diferido.’[74] Outro na levada da Condessa (segundas casas). Os particulares, para explorar moinhos, formam sociedades. Fazem-no não só na ribeira Grande e na levada da Condessa como na levada da ribeirinha e na ribeira da Ribeirinha. Essa estratégia é bem patente por parte de vários elementos da família Cabido. Ou da família de Manuel Duarte Silva. Manuel Duarte, além de moinhos nas Gramas, tem o do Félix. Olímpio da Silva Melo teve moinhos (3 mós) em seu nome, algures na Mãe de Água. O pai, José Duarte Silva, em parceria, logo na década de 1820, constrói um na Longaia. E mais tarde, o irmão José, casado com uma senhora Velho Cabral, ainda em parceria, com o cunhado, constrói o moinho da Praça (talvez na década de trinta). Era um bom investimento investir em moinhos.

O número de moinhos na vala da Condessa e ao longo da ribeira (e de mós) foi variando muito ao longo dos anos.[75] Dos seis de 1563/64 até à segunda metade do século XVIII, apenas moinhos da Condessa, aos 20 a 23 da década de cinquenta (ou da de trinta) à de oitenta,  incluindo já os de ribeira, o número de moinhos foi variando entre os 20 e os 23.[76] Até uma data anterior à década de cinquenta do século XIX, o número de casais de mós por moinho era de dois casais. A partir de então, passam a três. Na década de trinta do século XX, os moinhos da levada têm quatro casais de mós e os de ribeira três: ‘Cada casa dos Moinhos, chamada da Condessa, tem quatro pedras que podem trabalhar ao mesmo tempo no Inverno, havendo no Verão, água bastante para mover três pedras. As casas dos moinhos da Câmara [os de ribeira] têm três pedras que trabalham em conjunto no Inverno, trabalhando duas no Verão.’[77]

 A levada da Condessa alimenta, então, entre treze a 15 moinhos, fixando-se por fim em 14.[78] As sete primeiras e as segundas casas da levada da Condessa.[79] Por essa altura o Conde (no caso a Marquesa) desembaraça-se dos últimos que possui na levada e na ribeira.[80] Porém, resultado directo (ou indirecto) da cheia de 1919, cinco moinhos de ribeira terminam a actividade.[81] Em finais de 1923, é inaugurada a Moagem Micaelense, apesar disso e apesar da construção de duas centrais hidroeléctricas na ribeira Grande, além de moinhos de vento e de moagens eléctricas, os moinhos da ribeira Grande aguentam-se. Assim, em 1939 ainda existem vinte e dois moinhos: catorze na levada da Condessa e oito na ribeira.[82] Porém, de finais da década de cinquenta a inícios da de setenta, entra em declínio. A emigração em massa, a sangria da guerra do ultramar, causam aumentos salariais. A entrada de cereais mais baratos, vai acabar com o cultivo de cereais na terra. Fecham moinhos atrás uns dos outros. Ainda assim, em 1986, ainda resistiam nove, todos da levada da Condessa. Em 1997, só cinco. Em 2012, só dois ainda trabalham. Em 2014, morre um dos mais inovadores moleiros: Carlos Silva (conhecido por Carlinhos Correia). O seu moinho do Outeiro, no entanto, não deixou de moer. Armindo Silva, Jantarinho, aparentado com Carlos Silva, ainda lá mói (um ou dois dias por semana). Armindo Vitória, tal como os Silva, descendente de uma antiga estirpe de moleiros, tendo deixado de moer em 2018 no moinho da Praia, tem moído desde 2017 no moinho do Vale (entretanto, transformado em espaço museológico).[83]

Como se vê, a levada (e os moinhos) teimam em não morrer. Ou a morrer de pé? Abandonada, continua a ser uma das causas da poluição que apoquenta o Monte Verde (e a Cidade). Faz 38 anos em Novembro (de 2025) que percorri a levada do Anel ao Monte Verde, então testemunhei uma verdadeira catástrofe ambiental.[84] E hoje? Mesmo sem voltar a calçar botas de cano, quero crer que a situação (ainda que não – como se sabe -, erradicada) esteja algo distante da de 1986. De quem é a levada? Dos moinhos. E de quem depende a levada? Em 1986, Óscar Vitória (pai do Armindo), disse-me que ‘Antes desse Governo Regional de agora, era a Junta Geral. Hoje não se sabe quem manda na levada, se a Direcção dos Serviços Hidráulicos da S. R. E. S, se a Câmara Municipal.’ E antes? ‘Até há pouco tempo (cerca de 20 anos, talvez menos), era a Câmara que ‘arranjava’ um homem que tomava conta das valas da Condessa – o Ti Baganha foi o último -, cobrava renda da água da rega e aferia pesos e medidas.[85]Nem todos concordam com o Sr. Óscar: ‘Que me lembre do que o meu pai dizia, a levada era responsabilidade de cada moinho. Contratavam um agueiro que fazia a limpeza.’[86]

Que fazer hoje com a levada? Para uns, a solução ideal, porventura a final, o fim de uma longa dor de cabeça, seria acabar com ela: ‘tapar o anel na Longaia.’[87] Ou mesmo ‘desviar a sua água para a ribeira.’ Pergunto se isso não seria piorar ainda mais os graves e gravosos problemas da ribeira Grande?[88] Outros que ‘a água da levada deve ser tratada antes de chegar ao mar no Monte Verde.’ A meu ver, isso já seria outra música. Mais afinada. Outros: deveria obrigar-se algumas (poucas, felizmente) casas (renitentes) a se ligarem à rede pública de saneamento básico (ou a melhorarem as suas fossas sépticas). Acima de tudo, trate-se com a dignidade que merece aquela levada com mais de quatro séculos e meio de História partilhada entre a Ribeira Grande e Ponta Delgada. E a Ilha. Lanço um repto: essas duas cidades, mais as duas freguesias centrais da Cidade da Ribeira Grande que a partilham, deviam exigir (à autarquia e ao governo) a sua vigilância, integridade, limpeza e restauro.[89] Se na década de sessenta (do século passado) a Câmara atribuiu o nome dos Condes à antiga canada do Moinho da Palha, por que não a classificar de Bem de Interesse Municipal (pelo menos)?

Miradouro de Santa Pachorra (com vista para a levada) – Cidade da Ribeira Grande (continua)

Nota (17 de Março de 2026): Além dos moinhos de cereais do Capitão e do Moinho de Pastel na Herdade de António Rodrigues da Câmara na Ribeirinha, há notícia de outros engenhos movidos à força de água. Houve uma serra de água, diz-nos Frutuoso. Frutuoso também fala de dois engenhos de pastel (construídos na Ribeira Grande após os dois que se haviam construído na costa Sul):se fizeram dois engenhos na vila da Ribeira Grande, um de Diogo de Morim e de Fernão Correia, que foi o primeiro, e outro de Jorge Gonçalves Cavaleiro e de outros companheiros (…).[90] Onde? A esse propósito, em 2006, por mero acaso, uma máquina escavadora, a trabalhar no flanco da margem direita da ribeira Grande, a uns poucos metros abaixo da ponte dos Oito Arcos, pôs a descoberto uma mó (muito provavelmente) de moinho de pastel. Encontra-se hoje à guarda do Museu Municipal da Ribeira Grande. Estariam esses moinhos de pastel implantados na margem direita da ribeira? Ou na da esquerda?



[1] Agostinho de Monte Alverne, Crónicas da Província (…) liv. 2, p.334

[2] Nota de hoje, dia 4 de Setembro de 2024: O Capitão tinha o monopólio deles. Frutuoso não os menciona.

[3] AMRG, Acórdãos de 1617 a 1622, Vereação de 12 de Setembro de 1621, fl. 199 v. Nota de 16 de Março de 2026.

[4] Monte Alverne, Frei Agostinho, Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores, ICPD, Ponta Delgada, 1961, p. 304: ‘Em 8 de Junho de 1664, em Domingo da Trindade veio aportar em uma caravela nova, em sua primeira viagem, mestre Miguel Gomes Falcato, defronte do moinho do porto, com 24 dias de viagem, acossada de temporal, o que sabendo o padre comissário Frei António de São José, que, então, era dos Terceiros, o que não pôde fazer, por ser já tarde e ventar muito para a desembarcar, o que no dia seguinte fez, acompanhado dos capitães Rodrigo da Câmara, Manuel Bicudo, Rui Tavares e o padre Francisco Nunes, e tanto que esteve em terra o caixão do Santo Cristo, logo que o vento se mudou ao norte a caravela se fez ao porto da cidade, onde ancorou terça-feira, desembarcando o Senhor no porto de Santa Iria.

[5] Nota de 7 de Abril de 2026: BPARPD/FAM/RG/12/491, Relação dos moinhos movidos pelas águas públicas e particulares que têm mandado construir várias pessoas desta Ilha de São Miguel desde 1810 a 1815; 1810-1815: ‘(fl.2) Ribeirinha, 3 moinhos (moegas? Casas de Moinhos?) (Na Ribeira Pública). Francisco Peixoto de Bettencourt. Prédio do Fidalgo Cabrinha de Lisboa. Ribeira Pública.’

[6] Nota de 7 de Abril de 2026: BPARPD/FAM/RG/12/30/30.22, Requerimento do Conde da Ribeira Grande para certidão dos réus acusados de terem construído moinhos nas ribeiras públicas (de que tem o monopólio), 1819-04-30.

[7] Nessa data, o Concelho, a Nascente, chegava à segunda ribeira da Ladeira da Velha, e Poente, a Rabo de Peixe. Já incluído talvez o espaço actual (ou parte dele) do Pico da Pedra e das Calhetas.

[8] Só mais tarde (já levantei essa questão noutro trabalho) é que houve troca e acerto entre as Freguesias da Matriz e do Porto Formoso, que a partir de 1820 integrara o Concelho da Ribeira Grande.

[9] Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural, liv.4, vol.3, 1987, pp.55, 109. Era de facto urgente, pois, o capitão – que tinha o monopólio dos moinhos -, anos antes ordenara que se quebrassem as atafonas de Ponta Delgada.

[10] Pereira, António dos Santos, Ribeira Grande (S. Miguel – Açores) no século XVI. Vereações (1555) – 1578), 2006, p. 309; AMRG, Vereação de 9 de Agosto de 1578, fl. 110 v.

[11] AMRG, Acórdãos de 1617 a 1622, Vereação de 8 de Agosto de 1620, fl. 163 v: 1620 (8 de Agosto): ‘Outrossim que nenhum moleiro desta Vila moa trigo velho do de Francisco Tavares para farinhas do Brasil sem licença desta Câmara sob pena de serem suspensos e vinte dias de cadeia (…).’

[12]A cheia de 1667 iria pôr a descoberto alicerces dos moinhos junto à foz da ribeira Grande.Agostinho de Monte Alverne, Crónicas da Província de São João Evangelista e Ilhas dos Açores, ICPDL, 1961, Livro. 2, p.334: ‘(…) E quando em 9 de Setembro de 1667, (…) no fim da vila, junto ao mar, descobriu umas casas, que naquele tempo tinha a ribeira, com sua represa, metidas todas debaixo da terra.’ Em 2006/7, nos trabalhos de consolidação das margens da ribeira próximas da ponte dos Oito Arcos, na margem direita, uma máquina pôs a descoberto uma mó (que poderá ter pertencido a um moinho de pastel ou mesmo de moer cereais). Foi levada por mim e exposta no Museu Municipal da Ribeira Grande.

[13] Já abordei a levada nos dois livros que publiquei sobre moinhos bem como no artigo que publiquei no Açoriano Oriental e mais tarde reunido (com outros) num livro intitulado Património perto de Si: entre o passado e presente, 2018, no entanto, neste (com outros dados e com outra interpretação) proponho ir um pouco mais além.

[14] Pereira, António dos Santos, Ribeira Grande (S. Miguel – Açores) no século XVI. Vereações (1555) – 1578), 2006, p. 231; AMRG, Vereação de 11 de Fevereiro de 1578, fl. 31 v: ‘Item na dita vereação assentaram eles oficiais com Lopo Dias Homem, procurador do Senhor Capitão que do trigo das maquias dos moinhos (fl. 31) desta Vila que ele Lopo Dias lhe aprouve de dar em cada uma semana nos ditos moinhos um moio de trigo para se repartir por pessoas pobres e padeiras (…).’

[15] Pereira, António dos Santos, Ribeira Grande (S. Miguel – Açores) no século XVI. Vereações (1555) – 1578), 2006, p. 24.

[16] Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Livro IV, 1998, pp. 362-364.

[17]Já haveria porto de Santa Iria antes de 20 de Maio de 1525, altura em que a Câmara contrata a obra de melhorar o acesso àquele porto: ‘foi acordado de se fazer o caminho deste porto de Santa Eiria, cortando o pico da fajã de cima direito ao dito porto e varadouro dos batéis, para se poder carregar trigo e outras coisas nele, pois não se sofria a descida pela rocha e caminho de pé.’Cf. Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Livro Quarto, IV Volume, Ponta Delgada, 1998, p. 186: ‘ (…) para se fazer se ajuntou a ribeira do salto com a ribeirinha e elas juntas levaram a terra ao mar, que os homens iam cavando, com que se abriu um alto pico pelo meio e se fez o caminho de carro que agora tem, obra que parece de Romanos.’

[18]Hartmut WITTENBERG, Christiane RHODE, Levadas e moinhos de água na ilha da Madeira – Utilização da água com fins múltiplos - gestão histórica, Revista Recursos Hídricos, Vol. 43, N.º 1, 9-21, Março de 2022. Nota acrescentada em 15 de Outubro de 2024: recomendo que vejam os dois episódios de ‘Água Vai, pedra leva,’ da autoria de Sofia Leite, na RTP 2, dias 13 e 14 de Julho de 2015 (pode ser visto na RTP Play).

[19] Em 1919, enquanto destruiu vários moinhos de ribeira (apesar de demolir uns 200 metros da levada)apenas areou os moinhos da levada.

[20] Nota de 20 de Março de 2026.

[21] Não se deve excluir a possibilidade de já existirem valas antes da dos moinhos? Sim. Como regar as quintas de fruta (de que fala Gaspar Frutuoso) e as demais culturas de regadio que abundavam (conforme ainda Frutuoso)? Não seria caso para existir já uma vala e regos? Ainda pude levantar essa rede de regos que tinha origem na vala (veja-se livro). As levadas madeirenses serviam também estes fins.

[22] À medida que as cheias iam alterando as margens e o leito da ribeira, e que novos moinhos e novos empreendimentos iam sendo construídos, a levada terá adquirido novas feições: ter-se-á (estou em crer) estendido mais para montante. Com os novos moinhos de particulares, a partir do século XIX, altura em que o Conde perde em definitivo o monopólio, à levada velha é acrescentada uma vala nova. Acompanhando (em grande parte) a mudança de estatuto do Capitão, começou por ser conhecido por levada do Capitão, depois por levada do Conde e por fim, por levada da Condessa (como ainda hoje é conhecido). Agostinho de Monte Alverne, Crónicas da Província de São João Evangelista e Ilhas dos Açores, ICPDL, 1961, Livro. 2, p.334: ‘(…) [1563]; até levou os moinhos que naquele tempo estavam, e por esta razão os mudaram para onde hoje se veem.’

E tanto assim foi que só na primeira década de oitocentos é que se voltou a construir moinhos junto à ribeira. Atenção, além dos moinhos de moer cereais, havia (ou houve) por ali dois moinhos de pastel e uma serra de água. Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Livro IV, Volume 1, 1977, p. 344: ‘(…) veio morar abaixo à Vila [João Gonçalves Ferreira] em umas boas casas que comprou sobre a ribeira, junto da ponte, onde mandou fazer um engenho de serra de água, como os da Ilha da Madeira, com seus escravos e um João Lourenço, seu criado, que era mestre do dito engenho.’ Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Livro IV: ‘(…) Naquele mesmo tempo se fez outro engenho do Capitão Manuel da Câmara, abaixo da vila de Água do Pau, o qual também moeu, mas também cessou e se desfez por causa do bicho das canas. Depois destes, se fizeram dois engenhos na vila da Ribeira Grande, um de Diogo de Morim e de Fernão Correia, que foi o primeiro, e outro de Jorge Gonçalves Cavaleiro e de outros companheiros, que também pela mesma causa se desfizeram.’

[23] António dos Santos Pereira, O Concelho da Ribeira Grande (S. Miguel): (S. Miguel – Açores) no século XVI Vereações (1555-1578), CMRG, 2006, p. 329; AMRG, Vereações, Vereação de 27 de Setembro de 1578, fl. 129. A Câmara, para resolver o incómodo, chamou à sua presença Lopo Dias Homem, ‘Procurador do Senhor Capitão que tinha cargo das ditas levadas que lhe mandasse corrigir a dita levada.’ Apesar de o Procurador ter prometido corrigi-lo com brevidade, a brevidade traduziu-se em quase quatrocentos anos. Em 1895, continuava no mesmo lugar: O Norte, 20 de Junho de 1895, p. 2 ‘Agora que a Câmara está procedendo a melhoramentos de viação, lembramos a necessidade de acabar com um arco que serve de aqueduto para os moinhos Novos da rua do Saco [Eduino Rocha até ao canto a patrtir daí António Augusto da Mota Moniz]. É injustificável aquele arco muito parecido a um grande camelo (?). Tal melhoramento além de fácil é pouco dispendioso.

[24] António dos Santos Pereira, O Concelho da Ribeira Grande (S. Miguel): (S. Miguel – Açores) no século XVI Vereações (1555-1578), CMRG, 2006, p. 335; AMRG, Vereações, Vereação de 4 de Outubro de 1578, fl. 136.

[25] António dos Santos Pereira, O Concelho da Ribeira Grande (S. Miguel): (S. Miguel – Açores) no século XVI Vereações (1555-1578), CMRG, 2006, p. 329; AMRG, Vereações, Vereação de 27 de Setembro de 1578, fl. 129.

[26] AMRG, Acórdãos de 1604 a 1605, Vereação de 20 de Novembro de 1604.

[27] Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, liv. 4, vol. 2, p. 108

[28] Pelo que, um estaria não longe da foz da ribeira, o outro, por seu lado, ficaria numa rua que mais tarde seria conhecida por rua do Saco. Esses só podem ter água de uma levada construída fora das margens da ribeira. Estavam em dois pontos estratégicos: a dois passos do centro da Vila e a caminho da ligação com a banda poente da Vila e com o Sul da Ilha (destino de grande parte da farinha dos moinhos).

[29] A denominação de Novo apontará para o facto de ter sido (certamente) construído depois dos dois primeiros. António dos Santos Pereira, O Concelho da Ribeira Grande (S. Miguel): Aspectos económicos e sociais no século XVI, Boletim Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, v. 45, 1987, 1130.

[30] António dos Santos Pereira, O Concelho da Ribeira Grande (S. Miguel): Aspectos económicos e sociais no século XVI, Boletim Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, v. 45, 1987, 1130.

[31] Mário Moura, Moinhos de rodízio da ribeira Grande I, Do Moinho da Mãe de Água ao Moinho da Areia, Distâncias entre si e do anel à foz, Informação: Carta do Instituto Geográfico e Cadastral de 1975. Seguindo a levada cartografada é medido paralelamente à costa (por isso existe alguma discrepância sobretudo nos dois primeiros moinhos) 29/09/1986 [Este foi o meu primeiro trabalho sobre os moinhos. Apesar de estar pronta, não está publicado.] Reconfirmado no SIG – dia 28 de Agosto de 2024 – com o apoio do colega Manuel António Ferreira.

[32] Melo, Francisco Afonso de Chaves e., A Margarita Animata, 1994, p. 68

[33] AMRG, Acórdãos de 1604 a 1605, Vereação de 20 de Novembro de 1604.

[34] AMRG, Acórdãos de 1604 a 1605, Vereação de 12 de Fevereiro de 1605.

[35] Nota de 1 de Março de 2026: essa hipótese ainda não me abandonou. Nem a confirmei nem a neguei ainda. Até 1855/6, dispunha apenas de um casal de mós.

[36] Nota de 7 de Abril de 2026: BPARPD/FAM/RG/91/91.2/91.2.32, Nota sobre foros de 8 moinhos na Ribeira Grande: 1841de Jacob Cristiano Hintze: ‘1840 - ‘(Conde da Ribeira Grande) 8 Moinhos na Ribeira Grande (Quais 8? Açougue reactivado? Outeiro/Vale?). Recibo dos rendeiros António Ferreira Sousa (?), Manuel José de Almeida e Vitorino José Machado que deixaram de moer 18 dias no ano de 1840 – Réis 56$520.’

[37] Chagas, Frei Diogo das, Espelho Cristalino em Jardim de várias flores, 1989, p. 169.

[38] Chagas, Frei Diogo das, Espelho Cristalino em Jardim de várias flores, 1989, p. 169. E a imagem do seu poderio fica bem vincada: ‘que moem cada 24 horas, 24 moios de trigo, por testemunho dos moleiros e rendeiros deles. Rende cada ano as maquias destes moinhos ao Capitão da Ilha forros para ele 340 moios de pão limpo, e joeirado, e ganham seus rendeiros conforme dizem, e se tem visto por experiência, em alguns, que com eles adquirem pão (e há necessidade de mais).’ No século XVII, previdente e atenta, a Câmara obrigava não só a manter limpas as margens da levada como a plantar árvores. Aliás, a Câmara fiscalizava a qualidade do produto dos moinhos e o estado dos moinhos. Opondo-se sem temor ao Conde. Na altura era ainda Conde de Vila Franca, passaria em 1662 a Conde da Ribeira Grande.

[39] Agostinho de Monte Alverne, Crónicas da Província de São João Evangelista e Ilhas dos Açores, ICPDL, 1961, Livro. 2, p.334

[40] Moura, Mário, Nascimento de uma paróquia na Ribeira Grande: Nossa Senhora da Conceição (século XVII), 2009, p.48: ‘São ainda os termos de abertura dos livros de casamentos, óbitos e baptizados que nos dão os limites da nova paróquia (…).’

[41]BPAPD, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho, 14-11-1834/ 13-10-1835, L 146, M 24, fls. 115v-117v. 18 Agosto de 1835: ‘Permuta realizada entre Cândido José de Oliveira e sua mulher Teresa de Jesus, que vive de sua agencia e Manuel Duarte Silva, todos desta vila, solteiro que vive de seus bens. Baldio com cerca de 3 quartas de terreno, plantado com vinha e árvores frutíferas situado à Mãe d’ Água desta vila no lugar que vulgarmente chamarão a Bajana que confronta Norte com pomar dos herdeiros de Jerónimo Botelho de São Paio Arruda, Sul com Ribeira da Pernada, Nascente Ribeira Grande e Poente Rocha e levada dos Moinhos do Conde da mesma Ribeira.

[42] Chaves e Melo, Francisco Afonso de, A Margarita Animada, ICPD, 2.ª edição, 1994, p. 68. Mas, apesar de ter casas em Lisboa e em Ponta Delgada, além dos moinhos de água que a família possuía junto à ribeira, montou uma fábrica na Ribeira Grande. Trouxe de França, onde esteve, mestres e maquinaria. Ainda hoje há descendentes destes franceses. Supico diz assim: ‘D. José Rodrigues Teles da Câmara, embaixador em Paris, mandou em 1717 para a Ilha de S. Miguel 53 fabricantes.’  [Sousa, João Soares de Albergaria de], Corographia Açorica ou descripção dos Açores, Lisboa, 1822, p. 69: D. José Supico, Francisco MariaEscavações (vol. III), Ponta Delgada (Açores), Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1995. N º 38, p. 1307, jornal A Persuasão n.º 2457, 3 Março 1909 O fecho terá ocorrido entre 1740 e 1748.

[43] Nota de 26 de Fevereiro de 2026: A alusão ao último terço do século XVIII, vem na Revista Micaelense, Novembro de 1919, p. 569. Ainda não consegui uma descrição dela nem tão pouco confirmá-lo. Nota de 2 de Março de 2026: aconselha-se nesse ponto a leitura dos trabalhos seguintes: Águas da Ribeirinha e a Queda do Paraíso. Será útil para se perceber a dimensão das alterações causadas pela fúria das cheias.

[44]AMRG, Livro primeiro da Receita e Despesa, Livro de Acórdãos, de 1761-1771, Vereação de 9 de Dezembro de 1769, fl. 119: Areia (Manuel da Ponte, moleiro); Praia (António de Arruda, moleiro); Novo; Rua; Vale (Eusébio da Rocha, moleiro; Outeiro (Manuel de Oliveira, moleiro); Palha (António Pacheco Alfinete).

[45] Sondagens arqueológicas (juntando geólogos) (ou recorrendo a outras leituras dos locais) em pontos dos moinhos e das valas actuais poderiam trazer muita luz acerca disso. Dialogando, na sexta seguinte à publicação de um primeiro texto no Correio dos Açores, dia 30 de Agosto de 2024, com Francisco Xavier Araújo Rodrigues, geólogo aposentado e filho do último dono do moinho da Palha, fiquei a saber que: ‘há anos quando pretendi construir uma fossa e sumidouro, como a minha casa ficasse inundada pela água da levada, decidiu-se abrir isso mais para poente – para um terreno adjacente. Para minha surpresa, ali a uma profundidade de mais de metro e meio, surgiu uma levada antiga. Com pedra e nos lados e no fundo. A levada actual subira mais um metro e meio. Para construir novo casal de mós? Não havia moinho naquela altura? Depois, já para o lado nascente, com areia, areão e pedra solta, apareceu aquilo que pode ter sido um braço da ribeira ou de uma outra levada. Não vi cinza vulcânica. Foi limpa? Seria anterior a 1563/4?’ Testemunho de Francisco Xavier Araújo Rodrigues, 30 de Agosto de 2024; Outra prova: tendo existido dois moinhos, um de uma pedra e o outro de duas, o moinho do Outeiro nasceu pela sua junção.

[46] Nota de 7 de Abril de 2026.

[47]Carta Régia para o mesmo Dom Antão de Almada, Palácio da Ajuda, 15 de Setembro de 1766, in O Códice 529 - Açores. Introdução e fixação do texto por José Guilherme Reis Leite. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1988, p.177

[48]Creio (no entanto) que a lista é omissa (pelo menos) quanto aos moinhos da Rua e Novo (portanto serão sete e não cinco). Arquivo Municipal da Ribeira Grande, Livro de Acórdãos de 1761 a 1771, Vereação de Sábado 9 de Dezembro de 1769 [folha 119]: Estão (os da acta) colocados de montante a jusante: moinho da Palha (com o moleiro António Pacheco Alfinete, alguém com este apelido iria construir mais tarde um moinho naquela levada); moinho do Outeiro (moleiro: Manuel de Oliveira); moinho do Vale (moleiro no Eusébio da Rocha); moinho da Praia (moleiro António de Arruda); moinho da Areia (moleiro Manuel da Ponte).

[49] BPARPD/FAM/RG/12/30730.22, Requerimento do Conde da Ribeira para certidão dos réus acusados de terem construído nas ribeiras públicas (de que tem o monopólio) Grande, Ponta Delgada, 30 de Abril de 1819.

[50] Nota acrescentada hoje dia 9 de Outubro de 2024: BPARPD/FAM/RG/12/30730.22, Requerimento do Conde da Ribeira para certidão dos réus acusados de terem construído nas ribeiras públicas (de que tem o monopólio) Grande, Ponta Delgada, 30 de Abril de 1819.

[51] Nota acrescentada hoje dia 9 de Outubro de 2024: BPARPD/FAM/RG/12/30730.22, Requerimento do Conde da Ribeira para certidão dos réus acusados de terem construído nas ribeiras públicas (de que tem o monopólio) Grande, Ponta Delgada, 30 de Abril de 1819.

[52]BPARPD/FAM/RG/12/001-002-004, Carta de José Joaquim Lopes de Oliveira, 18 de Outubro de 1820, 110.3.

[53] Idem

[54] Joel Serrão, Dicionário de História de Portugal, Livraria Figueirinhas, Porto, 1985. v. 2, p.320;Açoriano Oriental, 29 de Maio de 1841: Anúncios. Moinhos. Hão-de ser arrematados por quem der mais, de aforamento perpétuo, os oito (8) moinhos da mesma Vila (Ribeira Grande).’; João Adriano Ribeiro, Moinhos nos Açores: elementos para o seu estudo, Islenha, Funchal, n.º 20, Janeiro - Junho de 1997 p.40: ‘Os privilégios dos donatários terminaram com a lei dos Direitos banais em 1821 [Decreto de 20 de Março de 1821 que suprimiu muitos deles e a lei de 22 de Fevereiro de 1846 que os declarou abolidos]. Foi a partir de então que qualquer proprietário pôde construir o seu próprio moinho e deixar de se submeter às arbitrariedades do donatário, depositadas nas mãos do rendeiro.’

[55]A 19 Abril de 1834, mas remetendo para trás, autorizando-nos a recuar à década anterior, já havia (pois) moinhos além dos do Conde. AMRG, 19 de Abril de 1834. Leia-se com atenção: ‘Pelo Procurador Fiscal foi requerido em nome do bem público se devia pôr cobro à grande porção de água que o rendeiro dos moinhos do Conde introduzia no rego ao ponto de inundar as ruas públicas e ficando muitos dos moinhos de diversos particulares sem exercício algum para servir o público porque toda a água ia para os moinhos da Condessa. Deliberou-se efectuar quanto antes uma vistoria.’ A 19 Abril de 1834, mas remetendo para trás, autorizando-nos a recuar à década anterior, já havia (pois) moinhos além dos do Conde.

[56] BPAPD, Tablionato Ribeira Grande, António José da Ponte, Lv. 131, M 21, fls. 42v-43v.

[57] BPAPD, Tablionato Ribeira Grande, António José da Ponte, L 131, M 21, fls. 48-49.

[58] Silva, Francisco Borges da, Notas e estatísticas da Ilha de São Miguel pelo engenheiro Francisco Borges da Silva nos princípios do século XIX, Vila da Ribeira Grande, 2.º Lugar da Ilha, in Revista Micaelense, Ano 2, N.º 5, Novembro de 1919, p. 485.

[59] AMRG, 14 de Maio de 1834: Que fosse remetido ao Provedor deste Concelho o auto de Vistoria a que se procedeu no anel posto por esta Câmara há anos na levada dos moinhos da Condessa para se servir em vista do mesmo auto mandar pôr o mesmo anel no seu antigo estado (…).’ AMRG, Água dos Moinhos da Condessa – 1836-1856: Autora do libelo: Condessa da Ribeira Grande; Réu: CMRG. Sentença da Câmara com a Condessa das águas das marcas isto pertence às sete casas.

[60]BPAPD, Tablionato Ribeira Grande, António José da Ponte, L 131, M 21, fls. 49-50.

[61] BPARPD, Escritura de contrato de sociedade entre Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus e Manuel Duarte Silva, sobre uns moinhos ou engenhos que pretendem edificar, 29 de Outubro de 1833, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho, 30-04-1833/ 14-10-1834, L 145, M 24, fls. 29-30 v

[62] AMRG, Vereação de 19 de Abril de 1834, fl. 187 v ‘(Presidente: José Maria da Câmara Vasconcelos) Nesta Vereação pelo Procurador Fiscal foi requerido que a bem da ordem do público se devia dar as providências sobre a grande porção de água que o rendeiro dos moinhos do Conde introduz no rego a ponto de inundar as ruas públicas, e bem assim ficando outros muitos moinhos de diversos particulares sem exercício algum para servir o público por toda a água ser dirigida para os ditos moinhos do Conde, sendo com excesso e abundância coligindo-se ser motivado este dano pelo rendeiro

[63] AMRG, Vereação de 30 de Outubro de 1841.

[64]Afim de evitar ali escavações que lhes possam aumentar as águas que lhes são devidas’ AMRG, Vereação de 27 de Janeiro de 1842: A Câmara acusa o Juiz de Direito da Comarca de haver cometido um atentado de ter ido pessoalmente derrubar a nova obra mandada construir pela autarquia no anel e registo de água que segue para o aqueducto dos engenhos do Conde da Ribeira, em virtude da representação que havia sido feita à mesma autarquia por vários proprietários e lavadeiras por que não deixavam correr pinga de água nem para os engenhos particulares nem para as lavadeiras (…);’ AMRG, Vereação de 27 de Janeiro de 1842: A Câmara acusa o Juiz de Direito da Comarca de haver cometido um atentado de ter ido pessoalmente derrubar a nova obra mandada construir pela autarquia no anel e registo de água que segue para o aqueducto dos engenhos do Conde da Ribeira, em virtude da representação que havia sido feita à mesma autarquia por vários proprietários e lavadeiras por que não deixavam correr pinga de água nem para os engenhos particulares nem para as lavadeiras (…).’ AMRG, Vereação de 1de Fevereiro de 1842: Relativo às águas que abastecem ou alimentam os moinhos denominados da Condessa. O Juiz quer que a Câmara destrua o que construiu no anel!!:’ AMRG, Vereação de 12 de Agosto de 1847: ‘Os abaixo-assinados proprietários dos moinhos da água da ribeira Grande que dá o nome a esta Vila, que havendo apresentado a este Nobre Senado achar-se alterado em prejuízo dos representantes o registo que por deliberação deste mesmo Nobre Senado havia sido colocado em 1842 no aqueducto do Excelentíssimo Sr. Condda Ribeira, não só em benefício dos representantes, como de uma parte dos habitantes desta Vila, que vivem do ofício de lavagem, e a necessidade de reforma do dito aqueducto foram Vossas Senhorias servidas pelo Acórdão de 20 de Maio do presente ano

[65] AMRG, Actas da Vereação, 10 de Setembro de 1903.

[66]; O Trabalho, 27 de Fevereiro de 1904, fl. 2.

[67] Idem.

[68] Açoriano Oriental, 29 de Maio de 1841: ‘Anúncios. Moinhos. Hão-de ser arrematados por quem der mais, de aforamento perpétuo, os oito (8) moinhos da mesma Vila (Ribeira Grande).’ Segundo uma notícia de 1867, vinda no jornal Fórum, ‘O (já) Marquês da Ribeira Grande (…) quis ver uma das azenhas (moinhos de rodízio) pertencentes aos seus ascendentes, e entrou no moinho do Açougue.’ Segundo as Matrizes Predias da Matriz da Ribeira Grande, só em 1916 é que D. Luísa da Cunha Menezes, Marqueza da Ribeira Grande vende esse moinho do Açougue a Tomás Ferreira de Viveiros que, por sua vez, o vende em 1930, a Luís António Moniz.

[69] Já antes de 1840 (em que ano antes?) passara a obrigação de manter e consertar os seus oito moinhos aos seus rendeiros. Em Outubro de 1820, José Joaquim Lopes de Oliveira queixava-se: ‘as despesas são infalíveis com as casas dos moinhos e ribeiras que têm cobrado várias vezes este ano pelas grandes cheias que tem aqui havido.’ A solução encontrada foi (em ano depois de 1820 e antes de 1840) arrendar os oito moinhos: ‘no ano económico de mil oitocentos e quarenta a mil oitocentos a quarenta e um, o qual é do teor seguinte. Número mil e quinze. O Conde da Ribeira Grande por oito moinhos arrendados [os 7 da Levada da Condessa mais o moinho de ribeira do Açougue?],’ BPARPD/FAM/RG/13/329, Requerimento em nome do Conde da Ribeira Grande de certidão do primeiro lançamento da décima sobre os moinhos – Luís Francisco Serpa da Vil Ada Ribeira Grande, Pública forma do Tabelião António Borges da Silva, Ponta Delgada, 28 de Outubro de 1844.

[70]AMRG, Livro de Registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da Ribeira Grande, 1854-1857, volume 66, 1854-1855.

[71] 1857:Livro de Posturas - 14 de Abril de 1796: 18 Abril de 1852 - Registo de Alvarás: Manuel Pedro de Melo e Silva está a construir uns moinhos no sítio da Mãe de Água da Vila [da Cova e o do Félix? Ambos ou um apenas?] e pede autorização a José Maria da Câmara Vasconcelos para junto ao aqueduto que foi das freiras fazer uma ponte.’

[72] AMRG, Livro de Licenças para moinhos 1880-1886 [Moinho Correia] José Joaquim de Melo Teixeira - Mãe de Água (tem outro na Longaia); 3 pedras

[73] AMRG, Requerimentos de 1854-1857, Vereação de 19 de Março de 1955.

[74] AMRG, Requerimentos de 1854-1857, 10 Maio de 1855 [moinho do Alfinete].

[75]Em 1880, terão existido nove moinhos de ribeira; em 1919, atingem o número (mais ou menos) de treze, caem em 1937 para sete. Em 1986 já não havia nenhum a funcionar. Sei que em 1960’s, trabalhavam ainda o do Açougue e o da Cova do Milho, o do Barracão (talvez) e o da Ponte Nove.

[76] Margarida Tomásia, século XVIII, a única Condessa da Ribeira Grande. Não sei por que razão a levada é assim conhecida. Na verdade, aparece também como ribeira dos moleiros, dos moinhos.

[77] Correspondente da Ribeira Grande, Irrigação, A Ilha, 26 de Junho de 1939, pp. 1-2.

[78] Há dois do Outeiro que se reúnem.

[79] Arquivo da Repartição de Finanças Ribeira Grande, Matriz Predial Urbana – Matriz Ribeira Grande, de 30 de Junho de 1918 – 1935. [Consulta permitida em 19 de Dezembro de 1988]

[80] Em 1917, a Marquesa da Ribeira Grande, D. Luísa da Cunha Menezes vende o domínio da água do moinho do Açougue.

[81] Três da Longaia, um na Mãe de Água (Cova I) e um na Cova do Milho (Tio Arrenegado).

[82] Correspondente da Ribeira Grande, Irrigação, A Ilha, 26 de Junho de 1939, pp. 1-2: ‘(…) Como nota final, não deve esquecer-se que as águas da Ribeira Grande são aproveitadas por duas centrais eléctricas, uma da Empresa Gás e Electricidade que fornece energia para iluminar a Vila, Rabo de Peixe e Pico da Pedra e para serviços industriais de Ponta Delgada e outra que pertence à Câmara de Ponta Delgada e vai alimentar a rede de distribuição na cidade e seus arredores.’

[83] Testemunho de Armindo Vitória, 26 de Agosto de 2024. Diga-se que orientou tecnicamente a conversão dos moinhos do Vale e da Praça em espaços de museu. E um da Lomba da Maia.

[84] Mário Moura, Moinhos de rodízio da ribeira Grande I, Do Moinho da Mãe de Água ao Moinho da Areia, Observações na Vala de 28 de Novembro a 4 de Dezembro de 1986 [Este foi o meu primeiro trabalho sobre os moinhos. Apesar de estar pronta, não está publicado.]: A água da levada é usada (além de fazer mover os moinhos): ‘Pesca de enguias. Lavar roupa – pedras de lavara roupa no fim de quintais ou junto à saída dos caboucos. Muito frequente nos Foros e na rua do Saco. Tomar banho. Curtir tremoços: o que é vendido ao público é curtido nos caboucos e levada dos moinhos (com ratos à mistura). Água para o gado – através de canalizações. Ou para regar quintais, quintas e pastos. Deparei com o espectáculo insólito de vacas dentro da levada. Rede de escoamento de esgotos – ao longo de toda a vala. Acentuando-se a partir do Moinho do Vale e atingindo proporções inacreditáveis à medida que se aproxima do Monte Verde (quartos de banho, ou melhor urinóis nos próprios moinhos e em casas). Caixote de lixo privado e público: as residências vizinhas, salva poucas excepções, fazem da levada o local de escoamento para tudo, até mesmo animais mortos. É esgoto do Matadouro Municipal.’

[85] Mário Moura, Moinhos de rodízio da ribeira Grande, Testemunho de Óscar Vitória,30/09/86 - 1/10/86, [Este foi o meu primeiro trabalho sobre os moinhos. Apesar de estar pronta, não está publicado.] Tanto assim foi que, em 1997, com a mãe danificada, fartos das promessas da Câmara e da Secretaria, os moleiros avançaram. CF. Ana Paula Fonseca, Moleiros revoltados na Ribeira Grande, Açoriano Oriental, 29 de Outubro de 1997, fl 1, 6; João Alberto Medeiros, Chuvas torrenciais causam morte e prejuízos, Açoriano Oriental, 11 de Setembro de 1997, p.1.

[86] Testemunho de Francisco Xavier Araújo Rodrigues, 30 de Agosto de 2024

[87] A esses pergunto: sabiam que ainda há moleiros?

[88] A questão – nota do dia 1 de Abril de 2016, ficou resolvida com a aprovação por unanimidade na Assembleia Municipal e publicação em Jornal Oficial (com data de hoje, dia 1 de Abril de 2026) do Plano de Salvaguarda da Zona Histórica, aprovado por unanimidade na Assembleia Municipal? Refere a Levada da Condessa e alguns dos moinhos alimentados por aquela vala: Outeiro, à venda, Rua, completamente desmantelado,   Novo, uma ruína a ser publicitada como espaço de construção,  Praça, musealizado. Jornal Oficial, 1 de Abril de 2026. Deixou de fora o da Praia e o da Areia. Além do do Vale (musealizado). Porquê?

[89] Tornar possível visitá-la: na Longaia, na Mãe de Água, na rua dos Condes ou já no Monte Verde.

[90] Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, liv. 4, vol. 2, p. 210.

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