Águas da Ribeirinha - XVI
Ribeirinha
‘com nome diminutivo por ser mais pequena
que a ribeira Grande, sua vizinha.’[1] É uma
única ribeira, mas na Ribeirinha tratam-na por ribeira Velha, o que pressupõe
que haja uma nova, que pode ser o outro nome dado à levada da rua dos Moinhos; e
nas Gramas - Lugar
da Ribeirinha -,
conhecem-na por ribeira das Gramas.[2] De
água permanente, é a terceira ribeira da Cidade. Nasce nas Lombadas, atravessa as
Gramas de Cima e de Baixo, passa pelo centro da freguesia e cai no mar na
Regueira. Com as ribeiras do Salto e do Rosário, que também nascem nas Lombadas,
mas que se juntam a meio do percurso, forma uma segunda sub-bacia hidrográfica
da Bacia Hidrográfica da Ribeira Grande. Esta última ribeira, termina nas
Prainhas, secret spot de surfistas
que (mercê de um excelente fundo rochoso) ali encontram ondas super boas. Águas que alimentavam uma levada
semelhante à da Condessa. No entanto, enquanto a da Condessa atingiu 2500
metros de extensão, a da Ribeirinha atingiu 900 metros; enquanto a primeira
chegou a ter catorze (quinze) moinhos, a segunda, apenas três.[3] Eram (porém)
os três melhores da Ribeirinha. Águas que abasteciam (também) as levadas de
muito menor dimensão (e individuais) dos moinhos de ribeira das Gramas à Rocha.
E forneciam a água (de Maio - Junho a Setembro - Outubro) a quatro (extensos) canais
de onde brotavam os regos que molhavam campos e quintas até à margem nascente
da ribeira Grande.[4]
Nos seus tempos áureos, vistos do alto, estes quatro canais e regos, teriam o
aspecto de uma gigantesca teia. Ao seu nível, essa fabulosa rede não ficará
atrás de outras mais obras criadas pela mão do Homem, entre outras, a janela
manuelina, a fachada barroca da ermida do Espírito Santo, o fontenário
quinhentista abraçado (mas – caso raro -, não destruído) pela lava em 1563. Ou
de obras criadas pela acção da natureza, entre outras, o Pico Arde e Vermelho
(maravilhas da natureza a serem sistematicamente aniquiladas). Essa rede de
canais, de regos e de levadas (graças à condição única geomorfológica do Graben
da Ribeira Grande) constituiu caso único nesta Ilha e nas restantes oito dos
Açores. Pode até dizer-se que sem ela, a Ribeira Grande não teria sido o que
foi. Essa raríssima jóia deve merecer a nossa (incondicional) gratidão. E reconhecimento.[5]
A
Ribeirinha surge associada à Ribeira Grande já nos primórdios do povoamento do
ainda Lugar da Ribeira Grande.[6] Foi
sempre (e ainda é) uma das jóias mais preciosas e úteis da (então Vila e hoje
cidade da) Ribeira Grande: dela vinha a água da rega (para a banda nascente) e
por ela a Vila se ligava ao exterior (através do porto de Santa Iria,
hoje arruinado e abandonado pela Região).[7]
Nos seus tempos de maior
glória, a água daquelas ribeiras - Velha e das Gramas -, incluindo a que corre
na levada dos três moinhos, moveu (das Gramas à Regueira) uns onze a doze moinhos.
Hoje, não há moinhos.[8] Quero aqui (apenas) tentar perceber a
Historia possível desses moinhos.[9]
Vamos ao início (que importa a esta narrativa) da
Ribeirinha? Já havia povoadores naquela área antes de 1474, porém, o grande empurrão
no desenvolvimento (dali e de toda a Ilha) é posterior a 1474. Ficou a dever-se
à acção do capitão do donatário Rui Gonçalves da Câmara (que adquiriu o cargo justamente
em 1474). No que se refere à Ribeirinha, importa seguir os passos do filho António
Rodrigues da Câmara (que se veio juntar ao pai e a outros dois irmãos). Na área
da Ribeirinha, António Câmara possuiu
uma vastíssima propriedade.[10] Partia
‘da parte do Norte com barrocas do Mar, e
da parte do Noroeste, com a Ribeirinha, e da parte do Levante com os Herdeiros
de Rui Vaz do Trato [outro dos primeiros povoadores da Ribeira Grande. Que
chega aos Jácome Correia e aos Hintze] (…),
e da parte do Sul com as cumeeiras da Serra do Bulcão [Lagoa do Fogo em
1508 antes da erupção de 1563].’[11]
Com esse valioso património (sobretudo) fundiário, mas não só, António da Câmara instituiu em Abril de 1508 um morgadio e a Capela dos Santos Reis Magos na igreja de Nossa Senhora da Estrela (que ainda hoje lá está).[12] De que dispunha essa propriedade? ‘(…) casas, terras, pomares, vinha, (…) engenhos, ribeira, casa e chãos, com todas suas entradas e saídas, direitos, pertenças, logradouros, servidões (…).’[13] E, para o caso que nos interessa: ‘uma água que se chama Ribeirinha com que mói o seu engenho de pastel.’[14] Um esclarecimento: serão os engenhos aqui referidos (de forma genérica) moinhos de cereais? Não.[15] Quanto aos moinhos de cereais (que é o que aqui me interessa), só o capitão ou quem ele assim entendesse poderia tê-los. Pois, o pai de António Rodrigues da Câmara (e depois o seu irmão como novo capitão por morte do pai) gozava do monopólio dos moinhos de cereais: ‘haja para si todos os moinhos que houver em a dita Ilha de que lhe assim dou carrego e que ninguém não faça aí moinhos senão ele,’ mas (caso o desejasse) poderia haver excepções ‘ou a quem a ele prouver.’[16] Será que o pai - ou depois os irmãos -, lhe permitiram construir um moinho de cereal na Ribeirinha? Pode ter acontecido. Aconteceu numa situação dramática. Deveras excepcional. Como foi o caso da peste de 1526/7. Nessa altura, na ribeira do Salto, diz-nos Frutuoso, foi construído um moinho de cereais.[17] O Capitão Rui Gonçalves, neto do primeiro Rui Gonçalves, na altura a residir no Cabouco, permitiu-o. Ou ele próprio o construiu? Em 1664, sabe-se pelo cronista Agostinho do Monte Alverne, havia na Ribeirinha (e na sua ribeira da Ribeirinha, supomos) o moinho do porto.[18] Havia apenas esse? De quem era esse moinho? Não se sabe ao certo, porém, é provável que houvesse mais do que um. Mais no centro do Lugar. E que pertencessem ao próprio capitão. Ao século XX, chegou a tradição de pelo menos um moinho da Marquesa. Qual? A de Jácome Correia? Ou a descendente do Capitão? Interrogações à parte, porque só o Conde podia legalmente construir (ou deixar construir) moinhos nas ribeiras, em 1819, estava a decorrer ‘uma acção de força contra António Lopes Pereira’ por haver construído um moinho na Ribeirinha (certamente de ribeira).[19]
Quando terão (então) sido construídos
os primeiros moinhos na Ribeirinha fora da alçada do Conde?[20] A hipótese mais segura (por ora)
é de terem surgido (algures) em data posterior a 1766. Porquê então? Porque a partir daquela data permitia-se aos
donos de ‘águas particulares,’ que
era o caso dos morgados sucessores de António Câmara, em querendo -, que as usassem para levantarem (construírem) ‘moinhos.’[21] Será que aproveitaram aquela lei? Tinham
nascentes dentro dos seus terrenos. Não o terão feito porque dariam moinhos
fracos? Fizeram-no. Entre 1810 e 1815, Francisco
Peixoto de Bettencourt, no prédio do Fidalgo Cabrinha [Conde
da Silvã] de Lisboa, na ribeira
pública, construiu três moinhos (três casas de moinhos ou três moegas?).[22] Não houve reclamações do
Conde da Ribeira Grande. Porquê? Porque o antepassado do Conde da Silvã era
António Rodrigues da Câmara. E esse tinha um moinho na sua herdade da
Ribeirinha? Muito provavelmente. Outros, porém, em lugares disputados,
arriscavam a construir moinhos. A recompensa era grande. Em 1818, o Conde da
Ribeira Grande (através do seu Procurador Bastante na Ilha), movia uma ‘acção de força’ contra António Lopes
Pereira, que na Ribeirinha construíra um moinho.[23] Apesar
dessa acção, fruto dos novos ventos liberais que sopravam favoráveis, terá
(provavelmente) continuado a existir.[24] Onde
teria construído aquele moinho? Junto à ribeira ou na levada que vai à rua dos
Moinhos? Não sei. Seja qual for a resposta, pela primeira em 1825/6 os róis
quaresmais dão conta de uma rua dos Moinhos.[25] Por
várias razões (mais indícios), suspeito que naquele ano já ali existissem dois
ou três moinhos. Primeiro: diz-se rua dos moinhos e não rua do moinho. Segundo,
aquela rua conduz aos actuais moinhos alimentados pela levada dos três moinhos
em causa. Terceiro (e isso vem ao que me interessa): os terrenos por onde a
levada passa pertenciam (quase de certeza) ao Morgadio instituído por António
da Câmara em 1508 (antepassado do Conde da Silvã).[26] Por
isso, admito a possibilidade de que já ali existissem dois ou três em 1826. Em
1848, são mencionados (sem os identificar) três moinhos (aqui classificados
como azenhas).[27]
Serão os três da levada? Se esses três ainda pertenciam ao sistema da levada da
rua dos Moinhos, então quando surgem os primeiros
moinhos alimentados directamente pela ribeira? Se por qualquer razão (sobretudo
legal?) não existissem ainda moinhos de ribeira antes de 1846, quaisquer (possíveis)
obstáculos legais seriam removidos pela Lei de 22 de Fevereiro daquele ano. É (precisamente)
por essa altura que são construídos novos moinhos na levada da Condessa e na
ribeira Grande. Livrando-se à guerrilha legal da bitola do anel da Levada da
Condessa na ribeira Grande, na ribeira Velha e na das Gramas (na Ribeirinha e
Gramas) constroem-se então cinco moinhos. Quatro destes cinco, pertencem à família
Cabido e a Manuel Duarte Silva (este último construiu na década de trinta na
levada da Condessa na Mãe de Água, moinho do Félix. Ambos residem no centro da
Ribeira Grande. Já então se verifica a dependência dos moinhos da ribeirinha aos
da ribeira Grande. O que se explicará por várias razões: enquanto os moinhos da
ribeira Grande chegaram (no seu auge) a dispor de quatro casais de mós (os da
Levada da Condessa) e os da ribeira (três), os da ribeirinha/gramas apenas dois
casais. Na ribeirinha, os dois melhores moinhos eram os da levada da rua dos
Moinhos, sendo o mais potente o de Cima com seis metros de altura de cubo e o do
Meio (o segundo) com cinco.[28] Na
ribeira Grande, o moinho do Açougue (de ribeira) tem mais de sete metros de
cubo. Se os moinhos da
ribeirinha, escaparam à guerra do anel, no entanto, não escaparam à
obrigatoriedade de fornecer água à rega. A partir de Maio/Junho prolongando-se
até Setembro (mais ou menos), a água da ribeirinha (e afins) era desviada para
a rega. Não havia outro remédio senão os moleiros da ribeirinha irem moer aos moinhos
da ribeira Grande.
Em 1854, recuando
a um, dois ou três ou mais anos, não sei ao certo, o Livro de Registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da
Ribeira Grande para 1854 - 1855, regista já oito moinhos na Ribeirinha. Dos
quais, três, nas Gramas.[29] No ano seguinte, são sete (menos
um). Acontecem (porém) mudanças significativas: Jacinto Fernandes Gil (futuro
Visconde do Porto Formoso) tem um moinho (ou seriam 2?) com quatro casais. Que podem
ser os da levada da rua dos Moinhos.[30] Jacinto
Fernandes Gil (n. 1821-3? – f. 1892 – Ponta Delgada) em 1869 foi eleito pelo Círculo
Eleitoral da Ribeira Grande (leram bem) deputado nacional pelo Partido
Regenerador. E em 1871 foi feito Visconde.[31]
Voltando aos moinhos, em 1856, passam de sete para doze. E confirmam-se (para
além de quaisquer dúvidas) quais eram os moinhos de Fernandes Gil: os três da
levada da rua dos moinhos.[32] Um
salto de vinte e quatro anos para o ‘Livro
de licenças para moinhos 1880-1886.’ Que diferenças se podem aí encontrar?
Em 1880 são sete moinhos. De 1880 a 1886, oscilam entre sete (1881 e 1885) e nove
(1881-82-1884). Em 1880, o nome de Jacinto Fernandes Gil deixa de figurar e em
seu lugar aparece o do Conde da Silvã.[33] Quem
é o conde da Silvã (n. 10.2.1800 – f. 22.9.1883)? É ‘D. João de Melo Manuel da
Câmara, 13.º e último senhor do morgado da Ribeirinha, primeiro Conde da Silvã.’
Havia recebido o título ‘por decreto de 3.11.1852.’[34]
Em 1881, o Conde é proprietário
de três moinhos (dos tais).[35]
O rol de 1885, identifica-os como sendo os três da levada da rua dos moinhos: moinho
de Cima, do Meio e de Baixo. Em 1886, pelo menos dois daqueles três (D. João falecera
em 1880) estão no nome (como proprietário? Ou rendeiro?) de ‘Jacinto Cabral Botelho e José Pimentel Frade.[36]
Por volta do ano de 1916, as Matrizes Prediais da Estrela (onde se incluía a
Ribeirinha) registam onze moinhos.[37]
Sete décadas depois, enquanto a memória oral ainda ‘lembrava’ onze, apenas dois
moíam.[38]
Em 1993, a situação ainda se mantinha.[39]
Em Março de 1968, visitando Ribeirinha,
Daniel de Sá rendeu-se ao aspecto da ‘praça ao pé da
igreja.’ ‘O que lá mais nos prende a atenção é o leito da ribeira. Antes, era
de ruim aspecto como todos que servem de
estrumeira…agora, é um verdadeiro jardim (…).’[40] E agora?
A Junta de Freguesia dignificando (e bem) a memória daqueles moinhos abriu em
2009/2010 – no moinho da rua Direita -, o Museu do Moinho.[41] E a ribeira a montante e a jusante desse
pequeno oásis? Infelizmente, padece do mesmo mal da ribeira Grande, da Seca
e da Levada da Condessa: efluentes domésticos, vacarias, etc.[42] E
exige cura idêntica. Como disse recentemente o filósofo José Gil, ‘a qualidade de vida é agora.’[43]
PS: A lindérrima
vereda marginal à ribeira trilhada diariamente pelos operários da antiga Fábrica
de tecelagem, hoje intransitável, pede que a devolvam às pessoas.[44]
Pedra da
Lembrança: e a obra prometida do Porto de Santa Iria? - Cidade da Ribeira
Grande (continua)
[1] Frutuoso,
Gaspar, Saudades da Terra, Livro IV
[2] Testemunho de
José Romão, 2 de Setembro de 2024: ‘Da
fabrica das chitas para cima, é a ribeira das Gramas, para baixo da fábrica das
chitas para baixo é a ribeira Velha da Ribeirinha.’
[3] Houve um terceiro moinho ao fundo da avenida – ao lado do do Sr. Fulgêncio. O seu arco de cabouco ainda é visível. Mas não terá feito parte destes três.
[4] A construção em
meados do século XIX e a de inícios do século XXI, alteraram percursos. Um dos
quatro que chegou até nós, vinha do engenho velho no Lameiro e irrigava as suas
terras até ao porto de Santa Iria. Outro, colhendo água da Água Férrea e da
ribeira, dirigia-se ao caminho novo das Caldeiras e irrigava as terras até à
canada Nova (já no centro da Matriz); um terceiro, saía do moinho da rua na
Ribeirinha e passando pela rua da Afrizada,
à entrada da Ribeirinha, subdividia-se, um ramo para norte até às barrocas do
mar, outro, Rosário abaixo, irrigava os terrenos até ao Rosário (na Matriz).
Outro rego partia diante do moinho da rua e dirigia-se às Covas.
[5] Continua a tentar encontrar o paradeiro de uma carta dos
regos que existiu ou ainda existe no IROA. O seu responsável prometeu-me fazer
uma pesquisa.
[6] Antes de continuar a escrever mais uma linha, relembro que até 3 de Agosto de 1948, a Ribeirinha (onde se inclui o Lugar das Gramas) foi Lugar da Freguesia Matriz de Nossa Senhora da Estrela.[6] Apesar de ter sido elevada a Curato em 1674, a paróquia do Santíssimo Salvador do Mundo, independente da paróquia mãe de Nossa Senhora da Estrela, só seria erigida a 25 de Maio de 1956. O seu primeiro templo, já dedicado ao Santíssimo Salvador do Mundo, situado no local onde hoje resta um pequeno adro na subida para o Lameiro, foi mandado construir junto às suas casas por António Gonçalves da Câmara. Tendo ali permanecido até à inauguração em 1826 do templo actual (Curato ainda). E que, a partir de 1981, passou a ser uma das cinco freguesias da cidade da Ribeira Grande.
[7] Dele veio peixe, por lá exportou-se
laranja, apanhou-se cachalote. Chegou a ter Alfândega. Pelo movimento
e importância, foi um dos três (no máximo quatro) principais portos da Ilha.
[8] Água férrea); a Matriz
é abastecida pela nascente dos Pachões (recebe igualmente o excedente da
Ribeirinha). Hoje, as duas freguesias
citadinas a nascente (Ribeirinha e Matriz) são abastecidas por nascentes
que nascem no Monte Gordo: Pachões e Água Férrea (nas Gramas de Cima).
[9]
No dia 26
de Setembro, dias depois da publicação deste texto no Correio dos Açores,
encontrei um trabalho que me cita e reproduz imagens por mim colhidas entre
1984 e 1986: Almeida, Filipe Silva, Património
molinológico: proposta para a preservação e reutilização de um moinho,
Universidade Fernando Pessoa, Porto, 2015. Não traz nada diferente: ‘(p.38) Na freguesia da Ribeirinha, o número de
moegas varia entre 1 e 2 (…); ‘(p.49) [dá 6 mais dois moinhos?] Na freguesia da Ribeirinha sustentados por
água proveniente da ribeira das Gramas, totalizou-se 6 unidades, encontrando-se
3 delas em levadas independentes e as restantes 3, distribuídas ao longo de uma
levada.’
[10] BPARPDL,
Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada. Auto de prestação de contas de
vínculos e legados pios, Instituição do Morgado de Antão Rodrigues da Câmara,
Santarém, 17 de Abril de 1508, N.º 0095: ‘por
títulos de arrematação de compras como por cartas de dadas de seu padre capitão
da dita Ilha e de seu irmão Pedro Rodrigues lhe foram dadas de sesmaria.’
[11] BPARPDL,
Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada. Auto de prestação de contas de
vínculos e legados pios, Instituição do Morgado de Antão Rodrigues da Câmara,
Santarém, 17 de Abril de 1508, N.º 0095.
Encostado às propriedades
de António, havia as do seu irmão Pedro Rodrigues da Câmara.Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra, Livro
IV, ICPD, Ponta Delgada, 1998, p. 104. Frutuoso, Gaspar, Saudades da Terra,
Livro IV, ICPD, Ponta Delgada, 1998, p. 104: ‘Para poente das de António,
atente-se na extensão da propriedade, comparável à de António: ‘cuja largura começava donde está a casa do
Espírito Santo [Frutuoso refere-se a ermida do Espírito Santo? Que diz que
está junto à praça? Ou a outra casa?],
indo para cima até às casas de Henrique de Betencor [Hoje Largo das
Freiras. Henrique era filho de Pedro Rodrigues da Câmara], endireitando à Ribeira Grande, e daí, indo pelos chãos de Lopo Dias
Homem, correndo por junto do pé do Monte de Trigo [Pico das Freiras], e chegava ao assento de Rui Gago da
Câmara, onde vivia Manuel Vaz [Já na Ribeirinha?], e daí descia para o mar e ia ter ao assento de Pero Dias, da Achada,
pelo que eram muitos moios de terra (…).
[12] BPARPDL,
Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada. Auto de prestação de contas de
vínculos e legados pios, Instituição do Morgado de Antão Rodrigues da Câmara, Santarém, 17 de Abril de
1508, N.º 0095.
[13] BPARPDL,
Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada. Auto de prestação de contas de
vínculos e legados pios, Instituição do Morgado de Antão Rodrigues da Câmara, Santarém, 17 de Abril de
1508, N.º 0095: ‘‘(…) Uma quintã com suas terras de pão, matos,
pastos, águas, com suas casas, granéis, seleiros, engenhos, vinhas, pomares,
com todas outras pertenças.’
[14] BPARPDL,
Provedoria dos Resíduos de Ponta Delgada. Auto de prestação de contas de
vínculos e legados pios, Instituição do Morgado de Antão Rodrigues da Câmara,
Santarém, 17 de Abril de 1508, N.º 0095.
[15]Carta da Infanta D. Beatriz de doação (e
confirmações) da Capitania da Ilha de São Miguel a Rui Gonçalves da Câmara e da
sua compra a João Soares, em 10 de Março de 1474, Manuel Monteiro
Velho Arruda, Colecção de Documentos
relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores, Instituto Cultural de
Ponta Delgada, 1977, p. 170. Os textos parecem distinguir o moinho de cereais
das demais máquinas. Leia-se a Carta de 1474 da Infanta D. Beatriz ao capitão:
‘(...) e assim o façam seus herdeiros e
das serras de água e outros quaisquer engenhos haverá o direito que têm os
capitães da Ilha da Madeira (…).’ Frutuoso, por seu turno, no século
seguinte, distingue perfeitamente engenho de moinho. Apesar de o termo engenho
se referir também a moinhos de cereal, era mais vulgar designar assim os
engenhos de pastel ou as serras de água.
[16]Carta da Infanta D. Beatriz de doação (e
confirmações) da Capitania da Ilha de São Miguel a Rui Gonçalves da Câmara e da
sua compra a João Soares, em 10 de Março de 1474, Manuel Monteiro
Velho Arruda, Colecção de Documentos
relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores, Instituto Cultural de
Ponta Delgada, 1977, p. 169.
Ficavam
(apenas) de fora: ‘mó de braço que a faça
quem quiser não moendo outrem em ela e não façam atafonas.’
[17] Apesar de o
cronista não aludir a moinhos na ribeirinha ou na do Salto na crise de 1563/64,
seria imprudente excluir essa hipótese. Um desenrasque apenas. Em 1525, as
águas da ribeirinha e da ribeira do Salto haviam ajudado a rasgar o caminho
para o porto da Vila da Ribeira Grande: porto de Santa Iria.
[18] Monte Alverne, Frei Agostinho, Crónicas da Província de São João Evangelista das Ilhas dos Açores, ICPD, Ponta Delgada, 1961, p. 304: ‘‘Em 8 de Junho de 1664, em Domingo da Trindade veio aportar em uma caravela nova, em sua primeira viagem, mestre Miguel Gomes Falcato, defronte do moinho do porto, com 24 dias de viagem, acossada de temporal, o que sabendo o padre comissário Frei António de São José, que, então, era dos Terceiros, o que não pôde fazer, por ser já tarde e ventar muito para a desembarcar, o que no dia seguinte fez, acompanhado dos capitães Rodrigo da Câmara, Manuel Bicudo, Rui Tavares e o padre Francisco Nunes, e tanto que esteve em terra o caixão do Santo Cristo, logo que o vento se mudou ao norte a caravela se fez ao porto da cidade, onde ancorou terça-feira, desembarcando o Senhor no porto de Santa Iria.’
[19] Nota
acrescentada hoje dia 9 de Outubro de 2024: BPARPD/FAM/RG/12/30730.22, Requerimento do Conde da Ribeira para
certidão dos réus acusados de terem construído nas ribeiras públicas (de que
tem o monopólio) Grande, Ponta Delgada, 30 de Abril de 1819.
[20] Nota de 1 de
Março de 2026.
[21] Carta Régia para o
mesmo Dom Antão de Almada, Palácio da Ajuda, 15 de Setembro de 1766, in O
Códice 529 - Açores. Introdução e fixação do texto por José Guilherme Reis
Leite. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1988,
p.177: ‘1766: ‘A liberdade, em que ficavam
os mesmos moradores de usarem dos seus fornos, engenhos de bestas nas suas
casas, e fazendas, e de se servirem das suas águas particulares para os moinhos
que com elas lhes parecesse levantar, dando-lhes aquelas aplicações, que lhe
pudessem ser mais úteis, e proveitosas.
[22] Nota de 7 de Abril de 2026: BPARPD/FAM/RG/12/491, Relação dos moinhos movidos pelas águas públicas e particulares que têm mandado construir várias pessoas desta Ilha de São Miguel desde 1810 a 1815; 1810-1815: ‘(fl.2) Ribeirinha, 3 moinhos (moegas? Casas de Moinhos?) (Na Ribeira Pública). Francisco Peixoto de Bettencourt. Prédio do Fidalgo Cabrinha de Lisboa. Ribeira Pública.’
[23]
Nota de 7 de Abril de 2026: BPARPD/FAM/RG/12/30/30.22,
Requerimento do Conde da Ribeira Grande para certidão dos réus acusados de
terem construído moinhos nas ribeiras públicas (de que tem o monopólio),
1819-04-30.
[24] Se
entre 1766 e 1821, não fora construída aquela levada, a partir de 1821, com os
Direitos Banais abolidos, já haveria ali moinhos. Joel Serrão, Dicionário de História de Portugal, Livraria
Figueirinhas, Porto, 1985. v. 2, p.320; Açoriano
Oriental, 29 de Maio de 1841: ‘Anúncios.
Moinhos. Hão-de ser arrematados por quem der mais, de aforamento perpétuo, os
oito (8) moinhos da mesma Vila (Ribeira Grande).’; João Adriano Ribeiro,
Moinhos nos Açores: elementos para o seu estudo, Islenha, Funchal, n.º 20,
Janeiro - Junho de 1997 p.40: ‘Os privilégios dos donatários terminaram com a
lei dos Direitos banais em 1821 [Decreto de 20 de Março de 1821 que suprimiu muitos deles
e a lei de 22 de Fevereiro de 1846 que os declarou abolidos]. Foi a partir de então que qualquer
proprietário pôde construir o seu próprio moinho e deixar de se submeter às
arbitrariedades do donatário, depositadas nas mãos do rendeiro.’
[25] Já havendo, no
entanto, moradores (que antes eram identificados como residentes da rua de São
Salvador) em 1825, presume-se que já houvesse moinhos antes de 1826. Q.uanto
tempo antes?
[26] A levada em causa tem actualmente cerca de 900 metros. Capta a água na ribeira das Gramas.
[27] Teófilo de
Braga, Percurso pedestre à Ribeirinha, Amigos dos Açores, 1993: ‘Curiosamente,
de Janeiro a Maio de 1848, três azenhas desta localidade moeram cerca de 65
moios de milho e 23 moios de trigo.’
[28] Testemunho de
Romão Barbosa, 7 de Setembro de 2024.
[29] AMRG, Livro de
Registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da Ribeira Grande,
1854-1857, volume 66, 1854-1855: ‘Três localizados nas Gramas: ‘Manuel Duarte Silva, Gramas – 1 casal,’
que morava na rua da Ponte Nova e havia construído em 1852 um moinho na levada
da Condessa, na Mãe de Água; José António Ferreira Cabido, com 2 casais e o
irmão Augusto César Ferreira Cabido, da rua Detrás da Matriz, também com 2
casais. Na ribeira Velha, ou da Ribeirinha, José António Ferreira Cabido.
Dispunha de outro, também com 2 casais. Seria da levada? Manuel de Sousa,
ribeira da Ribeirinha, 2 casais. Esse corresponderá ao moinho da rua. Bento
José de Paiva Lopes, Ribeirinha, Ribeirinha, 2 casais. António Moniz Afonso,
Ribeirinha, 4 casais. E Maria de Jesus Praça, Ribeirinha, ribeira da
Ribeirinha, 2 casais.
[30]AMRG, Livro de
Registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da Ribeira Grande,
1854-1857, volume 66, 1855-1856.
[31] Leite, José Reis, Gil, Jacinto Fernandes (1.o visconde de Porto Formoso), Enciclopédia Açoriana, Centro do
Conhecimento dos Açores: Sendo um comerciante de sucesso, ao contrário da
generalidade dos actuais, foi ‘um grande benemérito apoiando financeiramente diversas instituições de solidariedade da ilha
de São Miguel, às quais entregou sempre os seus rendimentos de deputado.’
[32] AMRG, Livro de
Registo de contribuições pagas pelos moinhos ao Município da Ribeira Grande,
1854-1857, volume 66, 1856-57. As famílias Cabido e Duarte Silva – residentes
no centro da Ribeira Grande -, insista-se: destacam-se desde o princípio como
proprietários de moinhos na área.
[33] Fernandes Gil
Fernandes (talvez apenas rendeiro) estava a viver em Lisboa e terá preferido
passar os moinhos.
[34] Rodrigo
Rodrigues, Genealogias de São Miguel e de Santa Maria. Viveu repartido entre Lisboa, Ribeirinha e Ponta Delgada.
[35]Cada um com dois casais de mós.
[36] AMRG, Livro de licenças para moinhos 1880-1886, Livro 3,
Volume 115: ‘residem na Ribeirinha,
moinho na rua dos Moinhos, dois casais de mós; e de novo José Cabral Botelho,
reside na Ribeirinha, situado na rua dos Moinhos, identificado como moinho do
meio, 2 casais de mós.’
[37] AMRG, Matrizes Prediais, Estrela (inclui Ribeirinha),
[1916: data mais próxima] pesquisa 5 de Setembro de 2024.
[38] Entrevista de Mário Moura a António Vieira, 92 anos,
1986. Informação corroborada em 1988, cf. Trabalhos elaborados por alunos,
Ribeirinha, Coordenação Concelhia de Educação Permanente da Ribeira Grande, Feijó,
Álvaro, Ribeirinha: Uma Viagem no tempo, 2017, p. 106.
[39] Teófilo de Braga, Percurso pedestre à Ribeirinha, Amigos
dos Açores, 1993.
[40] Daniel de Sá, Ribeirinha,
Açores, 24 de Março de 1968, pp. 1, 7: ‘Em
grande parte destes benefícios há a destacar a acção do Senhor José Moniz Furtado,
actual Presidente da Junta de Freguesia, bem como o Senhor Alfredo Cabral
Botelho, secretário da mesma.’
[41] Testemunho de
José Carlos Garcia, 12 de Setembro de 2024: A Junta de Freguesia da Ribeirinha
– no mandato do Presidente Eugénio Salvador -, recebeu do Lameiro em 1998 a
posse do Moinho que fora explorado pela Sr.ª Conceição Barbosa (Moleira).[41] A ideia
da sua transformação em museu, porém, já vinha do mandato de Álvaro Feijó.
Porém, tal só veio a se concretizar em 2009/2010, no mandato de José Carlos
Garcia. Testemunho de António Cymbron, 14 de Setembro de 2024: Na década de
quarenta, a minha sogra – a pedido da Conceição Moleira -, comprou-lhe o
moinho. A partir daí o Lameiro dava água ao moinho. A minha esposa, Ana Hintze
Cymbron, facilitou (cedendo a sua parte) a passagem dele para a Junta na
condição de fazerem ali um museu. Segundo neta do proprietário (17 de Setembro
de 2024) temporariamente indisponível, a levada carece de limpeza, o moinho de
cima abre as suas portas a quem o queira visitar.
[42] Sofrem outro
tanto com as enxurradas: em 1919, na década de 1990 e recentemente a do dia 3
de Junho de 2024. Além disso, a freguesia citadina da Ribeirinha está só parcialmente
coberta pela rede doméstica municipal de saneamento. Que as correntes arrastam
(por vezes) até às Poças e ao Monte Verde? E a das Prainhas? Idem.
[43] Joaquim Paulo Nogueira, À conversa com José Gil, Tempo Livre, Inatel, Setembro - Outubro de 2024, p.7.
[44] É uma selva
amazónica de esgotos domésticos (alguns disfarçados). Animais deambulam pela
ribeira, outro pastam próximo. Isso a montante e a jusante. Quase a chegar à
foz, uma unidade industrial de areia. Para além de vacarias. A levada é também
usada para outros fins.

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