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COVA DO MILHO







Cova do Milho

Nem o Paraíso pós catástrofe de 1563/64 passou a Cova de Milho de um dia para o outro. Nem a Cova de Milho foi sempre um ghetto social.[1] De onde virá esse nome? [2] E por que razão o deram? Nem as actas da Câmara, as mais antigas são de 1555 e de 1578, nem Frutuoso, que deixa de escrever quando morre em 1591, dizem o que quer que seja a esse respeito.[3] Nem poderiam dizê-lo, pois, o ‘milho americano’ não era ainda aqui cultivado. E se, porventura, fosse já cultivado, teria pouca ou nenhuma expressão.[4] Os cronistas que se seguiram a Frutuoso, seguem pelo mesmo caminho. Falo de Agostinho de Monte Alverne, um rapaz da terra. Falo de Frei Diogo das Chagas, florentino que por aqui andou. Do Padre António Cordeiro, que também andou por aqui. De Francisco Afonso de Chaves e Melo, que casou na Ribeira Grande. Textos posteriores, já do primeiro quartel do século XIX, ainda que já confirmem a importância do milho na Ribeira Grande, nada dizem acerca da Cova de Milho. Falo do Engenheiro Francisco Borges da Silva (1813). De Briant Barrett (1812-14). De João Soares de Albergaria (1822). Aliás, que se saiba, a primeira referência ao topónimo Cova de Milho data de 1839.[5] Nesse ano, o rol Quaresmal identifica aí dezassete moradas e quarenta e nove moradores. Onde teriam estado essas casas e esses moradores no ano anterior? Na rua do Saco. E em anos anteriores? Na rua do Saco. Desde quando? Não consegui ver.[6] Para já, o que já posso dizer é que, a partir de determinado ano (que desconheço) e até 1838, para a Igreja, a Cova do Milho fazia parte da rua do Saco. Para já, posso ainda admitir que, ainda antes de ser adoptado pelo mundo da escrita, o nome Cova do Milho já fizesse parte do mundo falado. Desde quando?[7] Não se sabe, o que se sabe já é que o cultivo e o consumo do milho estão já muito presentes no primeiro quartel do século XVII. Pode ter vindo a partir daí o uso do topónimo Cova do Milho? É provável. Ora, seis anos depois do rol de 1839, por comparação a esse mesmo ano de 1839, o de 1845, confirma que o bairro havia crescido. Já lá havia vinte e seis moradias e sessenta e quatro moradores. Como explicar essa quase duplicação de habitantes e de habitações? Será porque se construíram novas casas? Será porque juntaram novas casas da rua do Saco? Ou da Cova do Açougue? No Rol de 1861, duas décadas depois, o bairro atinge um máximo de crescimento: vinte e seis moradas e sessenta e oito moradores. Morava então no bairro uma Dona. O que revela alguma importância social. Resquício de importância passada?[8]  

Porquê o nome de Cova do Milho? E quando isso aconteceu? Isso nunca poderia ter acontecido antes da introdução do milho (americano) na Ribeira Grande. Antes disso, havia um milho de grão pequeno: milho europeu. Não será desse que falamos, mas do milho americano. E quanto a esse, a história é outra. Os que se dedicam a estudá-lo, afirmam à cautela, que a sua cultura só ganhou expressão a partir de meados do século XVII. Apesar de já ser cultivado desde a segunda metade do século XVI. Seja quais forem as respostas certas às perguntas anteriores, em meados do século XVIII, o milho já era o cereal de pobres e de remediados.[9] E na Ribeira Grande? O consumo de milho (americano) na Ribeira Grande recua comprovadamente a inícios do século XVII. Podendo vir ainda mais de trás. Como assim? Confirmei-o hoje, dia 16 de Março de 2026, meses após a publicação inicial deste trabalho no Correio dos Açores e das frequentes actualizações que vou mantendo no Blogue do Mário e no Recanto das Letras. Durante as minhas caminhadas à beira-mar pelo Monte Verde, maná de ideias, lembrei-me de ir espreitar as notas que há mais de três décadas fiz das actas seis e setecentistas da Câmara da Ribeira Grande. Em cheio! Bingo! Uma acta datada de 19 de Fevereiro de 1605, prova-o. Sem a sua licença, a Câmara não permitia a saída do Concelho de ‘(…) trigo, farinha, cevada, milho, favas, linho, pano de linho e tudo o mais que (…) de comerciar mercadorias (…).’[10] Em 1620, repete-se a proibição. Sem a aprovação da Câmara: ‘Não levem nem mandem levar trigo, farinha, cevada, (…) milho, favas, tremoço (…) nem linhaça (...).’[11] Já na primeira década de setecentos, em 1711, provando à saciedade que o consumo do milho estava enraizado no consumo local, a Câmara proibia a saída de milho do Concelho para o Porto Formoso. Colocando guardas para o prevenir.[12] Em 1728, através de outra proibição, confirma-se que o milho já faz parte do quotidiano alimentar da Ribeira Grande: ‘que todos o(s) moleiro[s] não deixem misturar trigo nem milho (…).’[13] Na terceira década desse mesmo século, a 7 de Março de 1731, a Câmara sai novamente em defesa do povo: ‘Pelo excesso dos preços dos milhos acordaram que fossem notificados os rendeiros dos moinhos e os dizimeiros das miúnças desta Vila que não vendessem milho por mais de oito vinténs sob pena de procederem contra eles (...).’[14] A reforçar ainda mais que o milho fazia parte integrante da dieta local, o rol Quaresmal de 1767, o mais antigo que se conhece, mostra que aquele cereal integrava a toponímia local. Exemplos? Rua das Espigas.[15] Rua do Saco, onde ficava o canto da maquia. Repare-se que a rua do Saco e a das Espigas rematam, pelo Nascente e pelo Poente, a Cova do Milho. O próprio moinho do Açougue, já lá estando ou não tardando a lá estar, remete igualmente para os cereais.[16] Se lá já existisse um moinho, diga-se que em 1854/55 só tinha um casal de mós. Quando os moinhos da Levada da Condessa tinham três. Se dúvidas subsistissem acerca dessa profunda relação, uma acta de 1769 tiraria as que restassem. E o impacto mortífero da crise alimentar de 1781 é a prova mais cruel dessa dependência. [17]

Por que razão o nome Cova de Milho terá entrado na toponímia da Ribeira Grande? Terá sido pelo facto (hipotético mas plausível) de terem lá experimentado o cultivo do milho? Terá sido por guardarem aí milho? Terá sido por ambas as razões? Ou por nenhuma delas? Procurando respostas, fui falar com o etnólogo (e amigo) Rui Martins. Na tua opinião, o que é que aquilo ali pode ter sido? ‘Depressão onde se cultiva cereais. Não necessariamente, onde se armazenam cereais. Há covas de trigo, porém, não conheço em São Miguel quaisquer covas de milho.’ Antes de nos despedirmos, até nova conversa, recomendou-me: ‘Mas fala com alguém da terra. Vê o Carreiro da Costa e o Veiga de Oliveira.’[18] Fiz isso, mas, antes ainda de o fazer, lembrei-me de espreitar um texto de 2009 de Ezequiel Moreira da Silva, filho, onde ele afasta a possibilidade de ter ali havido cultivo de milho. Porquê? Descrê que ‘(…) as escassas terras ocupadas por este antigo ghetto da Ribeira Grande tenham sido alguma vez boas terras de pão.’ Além do mais, o sítio era fustigado por cheias. Ezequiel sabia o que dizia, fora engenheiro agrónomo.[19] No entanto, pergunto: Será que a necessidade (ou a ignorância), apesar de tudo, não levou aquela gente a atrevimentos temerários? Ainda na segunda metade do século vinte, os quintais das casas da rua do Saco que davam para a Cova do Milho, além de alguma vinha, faziam ali algum milho.[20] E cova onde se guardava milho? Pensei em J. A. C., é alguém que conhece bem as culturas daqui e das redondezas: ‘Cova do Milho? Era onde guardavam o milho da Ribeira Grande. Antes das tulhas e dos cafuões.’ Onde foste buscar isso? ‘Diziam os antigos.[21] Em covas e granéis? ‘Sim.’ Mesmo assim, fico com um pé atrás. Confesso. Será que essa é a versão que circula na memória oral daqui ou é antes a interpretação que JAC faz do que lhe parece ter acontecido? À cautela, mantenho a versão. Entretanto, espero. Por novas versões. Pela arqueologia. Por novos dados de arquivo. Parece razoável?

O que dizia Carreiro da Costa de covas de milho?[22] Zero. E Ernesto Veiga de Oliveira? Zero. E de granéis? Isso, sim. Muito.[23] Já Frutuoso e Frei Agostinho falavam deles. E agora? Antes de dar descanso às hipóteses, atiro uma: que o milho fosse ali guardado em granéis. E outra: que o nome fosse dado para desqualificar socialmente os habitantes da Cova. Ainda outra: porque se moía milho no moinho ou moinhos daquela Cova.[24] Por isso mesmo, a cova passou a ser conhecida por Cova do Milho? Sem provas, deixo o assunto a marinar. Que fique, entretanto, a pairar a possibilidade de ter existido covas de milho na Cova do Milho. E de moinhos que se dedicavam à moagem do milho.[25]   

 

Como se organizava o casario e como se chegava e circulava no interior do bairro da Cova do Milho? Para tentar perceber isso, vou cruzar a informação que puder sacar a duas fotografias (postais) datáveis de um ano próximo de 1895, a uma planta datável de 1906/7, a uma fotografia de 1919 e à Matriz Predial Urbana de Nossa Senhora da Estrela.[26] O que se pode ver do Bairro da Cova do Milho no postal (próximo de 1895) com a legenda ‘Ponte sobre a ribeira’?[27] Que há a nítida intenção de divulgar a nova ponte dos Oito Arcos. Orgulho da Ribeira Grande. O Bairro aparece de forma foi acidental. Em primeiro plano: o outeiro da Fonte Grande, que ligava o largo da Fonte Grande ao Bairro da Cova de Milho. Que continuava pelo outeiro da rua do Saco. Já dentro no bairro, no final desse outeiro da Fonte Grande, do lado Norte, duas casas. Ou serão três? Uma delas encosta à ponte pequena. O outeiro que sobe à rua do Saco só tem casas do lado Nascente. No cimo do outeiro, ainda que não se distinga claramente, parte a vereda que termina no moinho da Cova do Milho (junto à ponte dos Oito Arcos). Uma ou outra casa do bairro dispõe de quintal. Pequeno. A Nascente do outeiro que dá para a rua do Saco, uma ruela com casas de ambos os lados. As casas voltadas para Nascente, mostram quintais. Pequenos. Voltados para a ribeira. As casas são de pedra solta não rebocada. Três, no máximo quatro, tanto quanto identifico, são cobertas de palha. Com uma inclinação mais acentuada do que os de telha. A maior parte das casas (ao que parece) é coberta por telha. Só uma parece ter chaminé.[28] E o postal com a legenda ‘Ribeira Grande, St. Michael’s, Azores’? Que diz? Que o autor quis registar o ângulo oposto ao da imagem anterior.[29] No primeiro plano, uma levada e uma calha de água que termina na levada.[30] A levada, em pedra, corre, a uma cota mais baixa, por detrás dos quintais da rua do Bairro (voltados a Nascente). A meio da margem direita da ribeira, uma casa de dois pisos e um arco de cabouco. Será o que alguns identificam como moinho do Tio Arrenegado?[31] Há quem, pelo contrário, o lembre como tendo sido também outra coisa. Uma serragem de madeira?[32] Nas Matrizes Prediais uma nota diz-nos que ali ‘havia uma outra casa que servia outrora de fábrica de destilação que não funcionava e que tinha sido adquirida pela Câmara Municipal.[33] Porém, confirma-se a existência ali de um moinho com dois casais de mós, cujo último proprietário foi Gervásio de Araújo Lima, bem como a sua localização: Norte – Travessa da rua das Espigas [hoje inexistente]; Sul e Nascente – CMRG; Poente – ribeira Grande. Foi adquirido (e a outra casa?) em 1925 pela Câmara Municipal, talvez por ter sido danificado pela cheia de 1919.[34] Aliás, em 1916, a autarquia já adquirira umas casas no lado Norte do seu edifício sede. A intenção era fazer o que hoje se vê: acabar com a travessa e construir um paredão. Aquele moinho ou o da Cova de Milho, terá sido construído em 1867: ‘Furtado e Irmão, que há tempos haviam construído uma fábrica de destilação, pretendiam utilizar a água de sobra dos moinhos do açougue para um novo moinho.[35] Na margem esquerda da ribeira, a casa do Bairro com chaminé junto à ponte pequena. Lá em cima, no Largo da Fonte Grande, entrevêem-se os diversos patamares de acesso ao outeiro da Fonte Grande. Fonte que ainda estava de pé.  

E a planta datável de 1906/7?[36] Antes de mais, as Matrizes Prediais confirmam e tornam mais nítida a informação da planta.[37] A planta desenha um bairro em forma de um P maiúsculo (irregular). Mostra os três acessos principais ao bairro. Um que descia da Praça do Município. Um outro que descia da rua do Saco. E ainda outro que descia da Fonte Grande. Mostra a divisão do Bairro em quatro ruelas paralelas entre si. Duas paralelas à linha da ribeira. Duas, mais pequenas, perpendiculares à ribeira. Uma dessas últimas, logo à direita de quem saí da pequena ponte (também conhecida por ponte da Cova do Milho e - menos conhecida -, por ponte de Vila Franca).[38] A outra desce do outeiro da rua do Saco ao moinho da Cova do Milho (junto à ponte dos Oito Arcos). E a Matriz Predial Urbana?[39] Apesar de poder ir além dessas datas, recua a 1895 e vai até 1914, confirma e esclarece a planta e as fotografias. Aí, das vinte e duas casas baixas, dezasseis eram telhadas e seis ‘palhoças.’ As confrontações dessas casas, dão a imagem perfeita das ruas e das veredas.

Que nos diz a fotografia de 14 de Agosto de 1919? Foi tirada do tabuleiro da ponte dos Oito Arcos.[40] Podem ver-se os quintais (divididos em curraletas) das casas da rua do Saco. Com vinha? Leguminosas? Milho? Um muro de uma casa de um quintal ‘esborralhados.’ Há mais casas com fachadas rebocadas. E mais chaminés. Não consigo identificar casas cobertas de palha. Na margem direita, a violência da água alargou consideravelmente o leito da ribeira (para Nascente). Terá soterrado o cabouco do moinho do Tio Arrenegado.[41] Demoliu os parapeitos da ponte pequena. Entrevêem-se quatro edifícios (tendas de ferreiro e casas) do lado esquerdo de quem desce o caminho que vai ao moinho do Açougue e à ponte pequena. Junto a este moinho, ainda que se distinga mal, distingue-se uma vereda que levaria ao tal moinho do Tio Arrenegado. No Largo da Fonte Grande, já não se vê a Fonte Grande.[42]

E os róis quaresmais? E as Matrizes Prediais? Que dizem? Da análise das Matrizes, destaca-se uma hipótese: talvez a decadência do Paraíso após 1563/4 não tenha sido tão completa e radical. Nem criado logo e já um ghetto social.[43] Seis décadas depois do primeiro rol de 1839 que refere abertamente a Cova de Milho, parte substancial da propriedade dali ainda se encontrava nas mãos de gente que vivia fora do bairro. Onde? Em ruas respeitáveis da Ribeira Grande ou fora da Ribeira Grande (Ponta Delgada e Povoação).[44] Outra hipótese (confrontando a Matriz com róis posteriores): a partir daí, década inicial do século XX, acentuar-se-ia a tendência para a propriedade passar para as mãos de residentes do bairro. O rol de 1910, é deveras elucidativo. O bairro atinge então um número máximo de moradias e de moradores: trinta e uma moradias e noventa e seis moradores.[45] O bairro era bastante diversificado do ponto de vista profissional. Havia um marceneiro e um entalhador (Araújo Lima). Com fama que ia além da terra. Um adelo. Um bolieiro. Um arrieiro. Três peixeiros. Dois pescadores. Três agueiros, um dos quais chefe. E sete camponeses. Desse ponto de vista, a Cova do Milho era, então, digo-o à confiança porque conheço razoavelmente a história da terra, um lugar igual a tantos outros da Ribeira Grande. Porém, azar seu, ao contrário daqueles, dava muito nas vistas por estar à vista do poder da Vila. Havia planos a avançar para o Largo da antiga Fonte Grande (retirada em 1913). A construção do Teatro já era mais do que uma intenção. À luz do urbanismo de então, o Bairro da Cova do Milho tinha os dias contados. Era um espinho cravado no prestígio da Vila com pretensões a Cidade. Em 1914, sai no Correio do Norte a sua sentença de morte.[46] Aos poucos, ao longo de quatro décadas, as sucessivas vereações, compram ou trocam casas dali, até que em 1963 ‘o bairro infecto da Cova de Milho’ ‘[se] transformou num Parque Infantil. (…)?’[47] Não, não foi em 1963, entre outras mais inaugurações na Vila e no Concelho, a inauguração do Parque Infantil, na presença do Governador Civil José Jacinto Vasconcelos Raposo e de ‘pessoas de maior representação deste Concelho e de Ponta Delgada,’ teve lugar no dia 28 de Junho de 1964.[48] Então por que será que Ventura Rodrigues Pereira, num artigo publicado mais de uma ano antes da inauguração, concretamente a 7 de Março de 1963, dá a entender que fora já inaugurado?[49] Uma coisa é certa, estava quase, mas faltava ainda o quase e adquirir ou permutar uma última casa. Ventura estava de partida para o Brasil, não era natural da Ribeira Grande, casara na Ribeira Grande, fora vereador, chegara a vice-Presidente, ocupara mesmo interinamente a Presidência. António Augusto, sabendo do seu pendor para a História, havia-lhe pedido a História da Cova do Milho. Ou ele mesmo tomou a iniciativa. De facto, esse artigo que publicou em Março de 1963 é a sua História da Cova do Milho. Em 1965, Eduardo de Arantes e Oliveira, Ministro das Obras Públicas de Salazar, foi o padrinho. António Augusto Mota Moniz, um grande Presidente, homem de visão, hoje totalmente esquecido, como é de bom-tom e costume na Ribeira Grande, era o Presidente da Câmara.

Cova do Açougue (ex.), Cidade da Ribeira Grande



[1] O topónimo ribeiragrandense Cova do Milho veio até aos nossos dias.’ Disse Francisco Carreiro da Costa. SDUAÇ., Fundo Carreiro da Costa, Texto de uma palestra radiofónica, Carreiro da Costa, De covas, covões e coveiros, p.2.

[2] Talvez houvesse diferença entre o de e o do, mas por aqui quer-se dizer o mesmo de uma ou de outra maneira. Será que não havia?

[3] Pereira, António dos Santos, Ribeira Grande (S. Miguel – Açores) no século XVI, Vereações (1555-1578), CMRG, 2006. Tocam ao de leve no ano de 1579. E 1556.

[4] Abro um parêntesis: desde sempre houve outro tipo de milho: o europeu.

[5] No Rol Quaresmal da Matriz de Nossa Senhora da Estrela daquele ano.

[6] Seria possível com uma pesquisa minuciosa rol a rol.

[7] Na realidade, a cova abaixo da ponte do Paraíso, eram duas: a do Açougue, na margem direita e a do Milho, na margem esquerda.[7] A do Açougue deve andar ligada à construção ali do Açougue Municipal.

[8] A casa seria a última da rua do Saco ou a primeira da Cova do Milho?

[9] Rego, Margarida Vaz do, O milho nos finais de setecentos na Ilha de São Miguel, p. 176. Sem ela, não se podia libertar o trigo para exportação. Isso é o que nos diz, colocando sempre reticências, a investigadora de História Margarida Vaz do Rego.

[10] AMRG, Acórdãos de 1604 a 1605, Vereação de 19 de Fevereiro de 1605.

[11] AMRG, Acórdãos de 1617 a 1622, Vereação de 26 de Setembro de 1620, fl. 167.

[12] AMRG, Acórdãos de 1705 a 1714, Vereação de 17 de Janeiro de 1711, fl. 88.: 1711 (17 de Janeiro) (…) se elegeram por guardas na Ribeirinha para não ir trigo nem milho para o lugar do Porto Formoso – a Manuel de Brito, mancebo, e Pedro Rodrigues (...).

[13] AMRG, Acórdãos de 1728 a 1733, Vereação de 15 de Dezembro de 1728, fl. 6 v.

[14] AMRG, Acórdãos de 1728 a 1733, Vereação de 7 de Março de 1731, fl. 31 v.

[15] Albergaria, João Soares de, Corografia Açórica ou descrição (…), 1822: ‘(os) seus habitantes (…) têm grandes lavouras de milho, e trigo, frutas, fava e feijão; e alguma vinhaça; muitos gados; cultivam os melhores linhos; são abastados de todas as produções da ilha. É possível que fosse de milho. Aliás, já em 1822, o milho figurava entre as principais produções da Ribeira Grande. A União, Ribeira Grande, 26 de Março de 1857. Temia-se que, por um erro de cálculo, pudesse advir uma crise frumentária. E, três décadas depois, em 1857, o milho era mesmo considerado a base da ‘alimentação das populações.

[16] Onde ficava a mãe de água dele? Junto ao quebradouro do moinho do Açougue próximo dos cubos? E o do moinho junto à ponte dos Oito Arcos? Foi construído depois do do tio Arrenegado ter sido desactivado?

[17] AMRG, Acórdão 1767-1779, 7 de Outubro de 1769, fl. 61-62 v. Cf. Rego, Margarida Vaz do, O milho nos finais de setecentos na Ilha de São Miguel, p. 176. ‘O Conde da Ribeira Grande ‘deixa livremente toda a sua renda de milho na terra.’ Moura, Mário, A Mortalidade nas paróquias de Nossa Senhora da Estrela e Nossa Senhora da Conceição da Ribeira Grande nos anos de 1779 a 1782 (subsídio para o estudo da demografia histórica), Ribeira Grande, Trabalho para o Doutoramento em História do Atlântico. 20 de Dezembro de 2012. Porque haviam comido todo o milho que escapara ao temporal de Agosto de 1779 assim como a semente reservada à sementeira do ano agrícola, muitos, sobretudo os mais pobres, morreram à fome. Não importa de milho ou de trigo.

[18] Testemunho de Rui Martins, 13 de Novembro de 2025.

[19] Silva, Ezequiel Moreira da, Coisas da Ribeira Grande, A Cova do Milho, Correio dos Açores, 5 de Abril de 2009, p. 27: Para dar o golpe mortal a argumentos em contrário, remata: ‘Ainda mais cientes de que elas devem ter sido, por mais do que uma vez, presa fácil para as enxurradas que a ribeira que as ladeia por vezes trazia.

[20] E há ainda mais uma possibilidade de ter havido ali milho. Quem nos diz que as primeiras casas dali fossem construídas antes do cultivo do milho entrar em força? Portanto, haveria assim a possibilidade de haver um pouco mais de espaço.

[21] Testemunho de José Afonso ‘Casinha,’ 14 de Novembro de 2025: E as Covas da Ribeirinha? Aquilo tudo pertencia ao Marquês da Praia e Monforte. O caminho das Covas era assim por causa da água. Estreita e difícil de transitar. Cultivava-se milho? Milho, trigo toda a novidade. Aquilo ali é uma cova, uma depressão no terreno? É, vai de uma ponta à outra da entrada para Santa Iria à Chã das Gatas nas barrocas do Mar.

[22] Carreiro da Costa, Francisco, Tradições, costumes e Turismo, Da guarda do Milho, p. 2. ‘Então [antes de 1840’s] esgalhava-se o milho e quase que se debulhava logo depois para arrumar o grão nas arcas e nos sacos, nos arquibancos e nas caixas. Agora – e mais uma vez – o milho é amarrado e dependurado nas toldas e nos cafuões, ainda encamisado, aí se conservando ao ar livre.

[23] Oliveira, Ernesto Veiga de, Benjamim Pereira e Fernando Galhano, Tecnologia Tradicional dos Açores, 1987, pp. 71-85; Monte Alverne, Agostinho de, Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores, Volume II, 1961, p.334. Para um período anterior a 1840. Para graneis, na Ribera Grande, há provas. A propósito da enchente de 1667, Frei Agostinho de Monte Alverne relata: ‘Levou da rua da Praça treze casas e um granel quase todo (…).’ Já Frutuoso dera igualmente conta deles. De um granel do Concelho.

[24] Hipótese que me foi sugerida pelo Engenheiro Albano Moniz Furtado após ter lido o texto do jornal. Isso a 17 de Dezembro, dia em que saiu.

[25] Mesmo que, até ao momento, não se tenha encontrado nenhuma.

[26] As primeiras duas fotografias foram reproduzidas em postal. Passariam a ser imagens icónicas da Ribeira Grande. Nas duas primeiras imagens, o bairro aparece porque a máquina não o pôde evitar. O autor pretende registar a nova ponte. A planta topográfica acompanha um projecto de captação de água potável. A terceira imagem, foca o bairro, pois, pretende registar os estragos da cheia de 9 de Agosto de 1919.

[27] O que me leva a arriscar essa data? Tanto quanto me é dado perceber, a fotografia não mostra colunas de iluminação. Essas, são anunciadas por um jornal em Fevereiro de 1896: vão ser colocadas na ponte colunas de iluminação. Cf. A Vara da Justiça, Ponta Delgada, 15 de Fevereiro de 1896, fl. 3: ‘Noticia um colega que na nova ponte da Ribeira Grande vão ser colocadas colunas para a iluminação.’ Em finais de Maio de 1895 a muralha norte da ponte estava quase concluída. Cf. Diário dos Açores, Ponta Delgada, 21 de Maio de 1895, p. 1: ‘Está quase concluída a muralha do lado norte da ponte nova da Ribeira Grande.’ E perto de 1895 também porque no canto inferior esquerdo (do observador) esta o nome do gravador P.M.gr. Ora esse gravador, em 1895, fez um trabalho para o jornal O Norte. Cf. O Norte, Ribeira Grande, n.º 31, 14 de Dezembro de 1895, fl. 1: Em finais do ano de 1895, o jornal O Norte, do Padre Cristiano, publica na primeira página uma fotografia de perfil do Padre Sena Freitas. No seu canto inferior direito vem assinada: ‘P. Marinho gr (?).’ Portanto depois de 1894, quando a ponte está já aberta ao trânsito. Talvez tenha sido essa e a seguinte tirada pelo fotógrafo ambulante: António Correio Mendonça. Cf. A Ribeira Grande, Ribeira Grande, II Série, N.º 20, 5 de Dezembro de 1894, fl. 2: ‘O hábil fotógrafo sr. António Correia de Mendonça está a sair dos Fenais da Ajuda para a Vila da Povoação. Depois de se demorar ali quinze dias voltará à Ribeira Grande, onde se demorará algum tempo. É aproveitar da oportunidade que pode ser se não repita.’ Na pior das hipóteses antes da remição em 1913 da Bica (Fonte Grande). Que a imagem foi captada de um ponto junto à Fonte Grande: de Sul para Norte.

[28] A ribeira corre livremente entre pedras. Na margem direita, entreve-se o telhado da casa que poderá corresponder ao moinho do Tio Arrenegado. Atribuição através da recolha oral. Em 1986, um velhote de mais de noventa anos, assim o disse.

[29] Porque digo que terá sido o mesmo autor e na mesma altura? O mesmo estilo. A mesma intenção de cobrir todo aquele espaço. Analisando a ribeira e as casas daquele ângulo, completa o ângulo anterior. Que a imagem foi tirada do meio da própria ribeira, num local muito próximo da ponte dos Oito Arcos.

[30] Uma calha em madeira que conduz a sobra da água do moinho do Açougue (na margem direita) que atravessava para a margem esquerda junto à ponte pequena. Juntando a sua água à do Moinho da ponte dos Oito Arcos. Onde ficava a mãe de água do moinho do Arrenegado? Era comum à do Açougue? Os três moinhos dali de baixo pertenceriam ao mesmo proprietário?

[31] Informação de Domingos Oliveira. Em 1993, ou próximo dessa data, quando falei com ele, passava dos 90 anos de idade.

[32] Conforme conversa que Pedro Pascoal me transmitiu da mãe, uma senhora de 91 anos, 14 de Dezembro de 2025.

[33] AMRG, Matrizes Prediais da Matriz de Nossa Senhora da Estrela.

[34] Nota de 22 de Fevereiro de 2026: foi moinho. Arquivo da Repartição de Finanças Ribeira Grande, Matriz Predial Urbana – Matriz Ribeira Grande, de 30 de Junho de 1918 – 1935. [Consulta permitida em 19 de Dezembro de 1988]: ‘N.º 140 [Moinho do Ti Ernigato – Tradição oral] Último proprietário Gervásio de Araújo Lima. Adquirido pela CMRG em 1925. Tinha duas pedras. Localização: Norte – Travessa da rua das Espigas [hoje inexistente]; Sul e Nascente – CMRG; Poente – ribeira Grande. Não funcionava, hoje desaparecido. Testemunho de Mestre António Alves, 1996. As tias moravam na esquina da rua das Espigas com a tal travessa que dava para o moinho: ‘Meu avó, Manuel Pacheco Alves, que morreu com 94 anos em 1976 – mais ou menos -, dizia que havia um moinho ao pé do Germano da Costa (Restaurante Paradise, hoje GAM, Departamento da CMRG). Ao lado das escadas lá em baixo. Isto aqui era um outeiro a descer até à ribeira. Ia ao moinho.’ Testemunho de Domingos Oliveira, 93 anos, Agosto de 1996. O senhor morava na rua. O quintal da casa voltado para a ribeira. Confirmou-me.

[35] Persuasão, Quarta-feira, 31 de Julho de 1867, p. 3.

[36] Planta da Vila da Ribeira Grande. Projecto para a captação da água potável, [Faz parte de um projecto, cuja pasta é datada de 1906/1907. Copiado por Luís Maria Xavier;

[37] AMRG, Freguesia Matriz, Matriz Rústica, Artigos 1 a 1255, Vol. N.º 31

[38] Frei Agostinho chama-a de ponte de Vila Franca. Parece-me que se lhe refere. Não tenho a certeza, porém.

[39] AMRG, Freguesia Matriz, Matriz Rústica, Artigos 1 a 1255, Vol. N.º 31, 714-717.

[40] [Ezequiel Moreira da Silva?], A catástrofe de sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, p. 1: ‘Estiveram também aqui, na quinta-feira [14 de Agosto], os senhores Jacinto Óscar Dias Rego [genro de Toste] e José Pacheco Toste, que vieram tirar fotografias dos diversos lugares onde são maiores os estragos.’ Os seus autores foram seguramente José Pacheco Toste e o seu genro Jacinto Óscar Dias Rego.

[41] Já não se vê o arco do cabouco, que me pareceu ver na de 1895. Mas há um caminho que passa em frente vindo talvez de dois lados. Do caminho do Açougue. E da rua que vinha do largo (agora) na parte posterior do edifício da Câmara. Ezequiel não fala nesse moinho.

[42] A crónica de Ezequiel Moreira da Silva no seu Ecos do Norte conta-nos os estragos com mais detalhes. A[Ezequiel Moreira da Silva?], A catástrofe de sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, p. 1. Água ‘na sua passagem (levou) uns casebres existentes na antiga cova do Açougue e inundando o moinho do sr. António Moniz. A ponte que da Cova do Milho dava passagem para esse moinho, ficou sem parapeitos e com parte do pavimento destruído. (…).Por um triz, o bairro não foi arrasado: ‘(…) muita água seguiu pela ladeira, abrindo covas de cerca de dois metros de altura e alodando as casas.’ Houve danos: ‘(…) pelo lado da ribeira, foram arrebatadas três casas (…) ficando ainda outras seriamente danificadas (e) alguns quintais plantados de vinha. O moinho junto da ponte Grande, ficou quase soterrado sob a inundação das águas e outros destroços.’

[43] AMRG, Freguesia Matriz, Matriz Rústica, Artigos 1 a 1255, Vol. N.º 31

[44] Dois proprietários moravam na muito respeitável e poderosa rua de João do Outeiro, em 1899, havia um Padre, na Matriz, na Conceição, na rua da Ponte Nova, na rua detrás da Matriz. Gente que morava no Bairro, mas era natural de Ponta Delgada. Sílio Peixoto, filho de João Albino Peixoto, era proprietário. Manuel Raposo Marques.

[45] Róis de Confessados, Matriz, 1910.

[46] Correio do Norte, Ribeira Grande, N.º 15, 12 de Setembro de 1914, p. 2. ‘Cova do Milho/ Um alvitre: ‘Aquilo precisa ser suprimido mais tarde ou mais cedo. Bem sabemos que a edilidade tem mais em que pensar e sobretudo em que despender o dinheiro do cofre municipal, mas o melhoramento é urgente em defesa do bom gosto, da estética e até mesmo da higiene. Antegozamos já o aspecto da nossa linda vila, porque é sem lisonjas ou patriotismos exagerados, logo que fosse possível remover dali aquele amontoado de casas gretadas, negras, que barram o lindo quadro e a paisagem cheia de bem combinadas tintas que se desfruta da ponte a que vulgarmente chamamos do Paraíso, como ao local em questão ‘Cova do Milho.’

[47] Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3.

[48] Vereação de 24 de Junho de 1964, fls. 126 v. – 127.

[49] Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3. Uma ou duas horas depois de enviar este texto para o CA, prosseguindo a pesquisa para o último da série Paraíso/Cova do Milho/Paraíso, confirmei a data correcta da inauguração.

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