Os moinhos da Mãe de Água de
Manuel Duarte Silva
Essa História tem duas Histórias.[1] Ou
três? A História do moinho de Manuel Duarte Silva (MDS I), um dos dois da Mãe
de Água das Sete Segundas Casas da
levada da Condessa. A História do segundo moinho de Manuel Duarte Silva (MDS
II), um dos quatro de ribeira da Mãe de Água.[2] A História
do moinho de Manuel Duarte Silva (I), começa no dia 29 de Outubro de 1833,
quando o tabelião Francisco Machado Coutinho vai a casa de Manuel Duarte Silva lavrar
uma ‘escritura de contrato de sociedade
entre Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus e Manuel Duarte Silva,
sobre uns moinhos ou engenhos que pretendem edificar.’[3]
Onde seria isso? Num ‘baldio sito à
Mãe de Água, onde vulgarmente se chama a Bajana desta dita Vila.’[4] Da
História do Moinho de Manuel Duarte Silva (II), tratarei mais adiante. Da
História da suspeita lançada por António Bernardo Costa Cabral (futuro 1.º
Conde de Tomar) de Manuel Duarte Silva ‘ser
conhecidamente desafecto ao Governo da Rainha,’ e de estar ao corrente ‘dos desastrosos acontecimentos que houveram
lugar no Castelo de São Brás [23 de Abril de 1835],’ falarei de raspão mais adiante.[5] O que é a Mãe de (ou da) Água? Para os
antigos, o que se confirma para o século XIX, era a mãe (ou a mão) que dava ou
tirava a água dos moinhos. Espaço entre rochas e a levada do Conde (Condessa),
fica no troço da ribeira da Mãe de Água (que aí recebe também a água do seu afluente
da ribeira da Pernada). Na Mãe de Água não se vê o mar, a não ser que se suba ao
alto da rocha. No apogeu, alimentou dezoito ou dezanove mós em seis (casas de) moinhos
(quatro moinhos de ribeira e dois moinhos da levada da Condessa).[6] Daí
o nome? Geologicamente é uma Cova, no
género da Cova do Milho, e das muitas Covas que existem ao longo da ribeira
Grande. Isso em linguagem daqui. Em linguagem científica, porém, é
desfiladeiro. O que vai dar ao mesmo. Ao tempo em que surgem os moinhos de
Manuel Duarte (I e II), aí, em pequenas courelas, algumas minúsculas, cultivava-se
vinha e fruta, especialmente a laranja. Das quintas da Mãe de Água, saíam
caixas para a exportação. Em cada uma dessas quintas, era costume haver uma
pequena casa de pedra solta. No Outono, era local de vindimas. Nas tardes de
Domingo de Verão e de Outono, era ponto habitual de visita da Vila. Onde é a Mãe de Água? A pouco mais de mil
metros do coração da Ribeira Grande, talvez fosse (ao tempo) do ‘Arco das Freiras,’ a Norte, um pouco
abaixo do Poço do Homem, e a Sul, talvez chegasse à mão do moinho que a cheia
de 9 de Agosto de 1919 levou.[7]
Acedia-se à Mãe de Água por ambas as margens da ribeira: pela esquerda, através
das canadas da Palha e das Gibas, pela direita, através (então) da canada de
Trás-os-Mosteiros.[8]
O prédio, onde Cândido e Manuel
Duarte pretendiam construir ‘uns moinhos
ou engenhos,’ era plantado de vinha e de árvores de fruto, e talvez (repito,
talvez) dispusesse de uma casa de ‘despejo
ou de arrumos.’ Esse prédio, não ia
além dos 3000 metros quadrados. Situado nas margens esquerdas de duas ribeiras,
a ribeira Grande e a ribeira da Pernada, confrontava ‘pelo Norte com [o] pomar dos
herdeiros de Jerónimo Botelho de São Paio Arruda, Sul, ribeira da Pernada [ribeira
do Teixeira], Nascente, ribeira Grande, e
Poente com rocha e levada que se dirige ao Excelentíssimo Conde da Ribeira
Grande e com quem mais deva de partir e confrontar a dita propriedade (…).’
Porque terão escolhido aquele local? Porque, dizem-nos, oferecia ‘as
comodidades necessárias para nele se edificarem engenhos de moerem grão (…).’ A
que comodidades poderão estar a referir-se? À sua localização privilegiada.
Não haja dúvidas a esse respeito, na Mãe de Água, era ali o local ideal para se
construir um moinho com a água da levada da Condessa. Pelo lado Poente, era (e
é) atravessado pela levada dos moinhos do Conde. Pelo Nascente, era (e é)
banhado pela ribeira Grande e, pelo Sul, pela ribeira da Pernada (ou ribeira do
Teixeira). O que ali fariam, tiveram o cuidado de o sublinhar, não redundaria
em ‘prejuízo de terceiros (…).’ Porquê’ Porque o uso que fariam da água da levada do
Conde (Condessa) não retiraria água aos moinhos seguintes. A água, em saindo do
cabouco desses seus moinhos, dirigir-se-ia (como sempre e sem perda de caudal)
aos cubos dos moinhos seguintes. Ponho-me,
no entanto, a pensar no seguinte: o que terá levado a Câmara a facilitar o licenciamento
daquele e de outros moinhos na levada da Condessa? Até porque o prédio de
Cândido era foreiro à Câmara. Se esta, por algum motivo, não quisesse, poderia
complicar. Colocar obstáculos. Ou até impedir. Por que razão (aparentemente) não
terá complicado? Talvez porque o Presidente da Câmara José Maria da Câmara
Vasconcelos, dentro do novo espírito liberal, que já vinha do liberalismo
vintista, quisesse aproveitar a ocasião para mostrar de forma clara que quem
mandava na água da ribeira e da levada do Conde (Condessa) era a Câmara? Tutela
que o conde (Condessa) da Ribeira Grande ainda não reconhecia inteiramente. Por
isso reclamava nos tribunais. Diga-se, porém, que sem nenhum sucesso, pois, a situação
mudara em seu desfavor. Em 29 de Outubro de 1833, dia da celebração do contrato
entre Cândido e Manuel Duarte, os Açores haviam já sido ‘libertado das garras do absolutismo’ desde 1832, porém, no
Continente isso só se verificaria em 1834. Mais uma razão para a Câmara
insistir na sua tutela? A piorar a posição do Conde, o Conde aliara-se aos
miguelistas.
Tanto
quanto consegui apurar, por aquelas bandas da ribeira Grande, o Conde terá
sofrido o primeiro dos muitos reveses (ou um dos primeiros) que iria sofrer nas
suas pretensões monopolistas. Esses primeiros golpes, surgem pelo menos desde
finais do ano de 1822. Nessa altura, criaram-se duas sociedades destinadas a construir e a explorar dois
moinhos (duas casas com mós) na ribeira da Longaia (ribeira Grande).[9]
Num troço da ribeira ligeiramente acima da mão dos moinhos do Conde (Condessa).
Se, por um lado, sentenciava o destino do monopólio do Conde, por outro, não
alterava em nada o caudal da levada do Conde.[10] Em
Outubro de 1833, a nova sociedade de Cândido José (e a esposa) e Manuel Duarte,
ao pretender construir moinhos ou engenhos com a água da levada do Conde
(Condessa), inaugurou (ou apenas reforçou) um novo precedente: o uso na Mãe de
Água da água da própria levada do Conde (Condessa). Digo isso porque talvez por
essa altura ou em data próxima dessa altura, já houvesse que contar com o
segundo moinho da Mãe de Água abastecido pela levada da Condessa. Que ficava a
menos de duzentos metros a montante da propriedade de Cândido. Também em
sociedade.[11]
É até possível que já existissem outros a jusante na levada da Condessa, entre
possíveis candidatos, por exemplo, ainda que não disponha de prova dura, penso
no do Guido e no do Alfinete. Para além dos que usavam a água da ribeira abaixo
da mão do Conde (Condessa). Em Abril de 1833, há notícia de ‘outros muitos moinhos [de ribeira] de diversos particulares.’[12] Que
naturalmente, já viriam de antes de Abril de 1833. De quando ao certo? Não sei.
Seja como for, nessa década de trinta e na seguinte, os moinhos na ribeira e na
levada do Conde chegariam aos vinte.[13] Nessa
altura, no auge da economia da laranja e da vinha, os moinhos vêm acrescentar
mais-valia à economia da Ribera Grande. Falando de espaço, a casa do moinho e a
vala do moinho apenas requerem uma pequena porção de espaço das quintas de
laranja e de vinha. E, normalmente, na sua extrema. A partir de certa altura,
talvez com o declínio da exportação da laranja, alguns donos das quintas com
moinhos, por qualquer razão, desanexam o espaço do moinho do espaço da quinta.[14] Em
termos de negócio, o negócio da farinha encaixa na perfeição na economia da
laranja e da vinha. Vem-lhe acrescentar rendimento. É um excelente investimento.
Quase todas as quintas (arriscaria mesmo todas) situadas ao longo da levada da
Condessa ou da ribeira Grande, acabaram por construir moinhos.[15] As
quintas de laranja (e vinha) da Mãe de Água faziam parte de uma cintura de
quintas que começava, a Poente, no Pico da Pedra e terminava, a Poente, na
Ribeirinha. Para cima, eram (na sua maioria) as pastagens, para baixo, as terras
de pão. De cultura. Da década de 1880 em diante, muitas das terras acima da
cintura de quintas transformaram-se em plantações de chá. A área de chá aqui foi
a maior de chá de toda a Ilha. E onde existiu o maior número de ‘fábricas.’ Na
altura da laranja, segundo historiadores, a produção de laranja do Concelho da
Ribeira Grande ficava numa terceira posição, muito próxima da segunda.[16] Com
o declínio da economia da laranja e do vinho, aí para as décadas de setenta do
século XIX em diante, os moinhos aguentaram-se.
Voltando
ao contrato entre Cândido e Manuel Duarte. Na terça-feira, 29 de Outubro de 1833, o casal
Cândido José Oliveira e Teresa da Trindade, ela, doméstica, ele, ‘vivendo da sua agência,’ sai da sua casa
na rua do Botelho, onde moravam com as filhas Joana e Ana, e dirige-se à rua do
Valverde, onde morava Manuel Duarte Silva. Manuel Duarte, solteiro de 37 anos, morando
com Teresa Leonor, a mãe viúva e duas irmãs solteiras, Claudina e Querubina, vivia
de ‘seus bens.’ Era um trajecto
curto, bastava-lhes descer a pé a sua rua, passar pela rua da Bica (hoje rua
Gonçalo Bezerra) atravessar a ponte do Paraíso, cruzar a Praça (hoje largo
Hintze Ribeiro) pelo lado da Ermida do Espírito Santo e entrar na rua do
Valverde (hoje rua do Passal).[17]
Na praça era inevitável verem todo o tipo de pessoas: comerciantes,
transeuntes, feirantes. Viajantes estrangeiros dão-nos relatos vívidos da vida
na praça. Até ‘dos ociosos’ (é assim
que se lhes referem) debruçados no parapeito da ponte enquanto tagarelavam. Era
ali que se situava o coração da terra: económico, social, religioso, político. Teria Manuel Duarte já experiência de
moinhos? Para Cândido e Teresa o contratar,
como nos é dito, é porque eles ou alguém lhe reconheciam ter alguma experiência
no negócio dos moinhos. E ter conhecimentos de como se construíam moinhos.
Presumo. Talvez Manuel Duarte já até trabalhasse com o seu moinho de ribeira
(MDS II). Que ficava perto do prédio de Cândido, do outro lado da ribeira, na
margem direita. De um avistava-se perfeitamente o outro. Ao contrário de
Cândido, Manuel Duarte sabia ler e escrever. Onde teria aprendido isso? Nas
aulas de primeiras letras dos frades franciscanos? Talvez. Não disponho de
dados que me digam que a família Duarte Silva fizesse parte do grupo (restrito)
de famílias que governara durante séculos a Vila, nem às que então governavam, a
que grupo pertenceria? Pelo que se conhece, apesar de ter inicialmente reagido (até
que ponto, não sei) à nova ordem, Manuel Duarte foi subindo socialmente. Como? Sobretudo,
graças ao seu desempenho (digamos) ‘empresarial.’
É identificado como proprietário. O casamento do filho no seio da poderosa (e
liberal) família Cabido (em 1869), casou com Dona Maria José Ferreira Cabido,
ajudaria a consolidar o seu estatuto. Talvez até, tenha ajudado a remover por
completo a nódoa passada de simpatizante miguelista?
O contrato de sociedade previa
condições muito concretas. E muito precisas. Não deixando margem para quaisquer
dúvidas. Manuel Duarte era autorizado a ‘mandar
arrancar ou cortar quaisquer árvores que [pudessem] obstar à livre construção da indicada obra.’[18] Comprometia-se
ainda a fazer a obra à sua custa. Ficava-lhe, em contrapartida, pertencendo o ‘domínio, não só nas duas das três partes
iguais da referida obra e planta do terreno que se [viesse a] ocupar, mas também no rendimento das duas
partes dos rendimentos das duas partes dos mesmos engenhos (…).’[19]
Cândido e a esposa, ‘além do terreno que
não [fosse] preciso ocupar-se, [ficariam]
com direito a uma das ditas três partes
do rendimento e planta dos preditos engenhos (…).’ Ficando, no entanto, ‘obrigados a satisfazerem anualmente todo o
foro do dito prédio, assim como o capital e juros vencidos e por vencer a que o
referido prédio é sujeito, e igualmente a terça parte do pagamento semanal que
se fizer ao respectivo moleiro, e das mais despesas relativas à conservação e
melhoramento que se fizer depois de os ditos engenhos entrarem no uso de moer.’
A última clausula do contrato, previa ‘que
no caso de quererem eles contratantes ou contratado, vender ou alienar a parte
que lhes toca[va] nos mencionados engenhos, não o [poderiam]
fazer, sem que disso [participassem] um ao outro, porque querem prevalecer a
qualquer outro pretendente, tanto pelo tanto.’[20]
Esta última clausula do contrato,
não tardaria a ser invocada por Manuel Duarte. Pois, ainda antes de a sociedade
festejar dois anos de vida, a sociedade dissolvia-se. Estavam em curso as obras
dos moinhos, quando, em Agosto de 1835, Manuel Duarte Silva troca ‘quatro alqueires de vinha e laranjeiras com sua casa térrea de telha e
lagar,’ nas Areias do
Lugar de Rabo de Peixe, que havia alcançado em hasta pública em 1833, pelo
baldio ‘no sítio da Mãe de Água no lugar
a que chamam de Bajana.’[21] Como se consegue explicar essa troca?[22]
Talvez fizesse mais sentido a Manuel Duarte ficar com a totalidade do prédio. Porquê?
Porque ali mesmo na Mãe de Água, na outra margem da ribeira, quase defronte desse
prédio, é possível que já tivesse outro prédio. Prédio cultivado de laranja e plantado
de vinha. Onde já teria construído um moinho: o MDS II.[23] Esse
MDS II era movido (directamente) pela ‘força
da água’ da ribeira Grande. Além disso, os que estavam a ser construídos
(os MDS I), junto à levada do Conde (Condessa), ao contrário do que se previra,
atiro novamente barro à parede, teriam já forçado ou iriam doravante forçar a maiores
alterações no terreno. Requeriam novas obras estruturais. A ampliação da vala
nova, a construir (ou já construída) a nascente da velha, impunha a construção
de um talude a Nascente da Vala Velha. A ampliação do espaço dos cubos. Tudo
isso levaria à remoção de terras. Ao preenchimento de espaços. Ao arranque de mais
pés de vinha e de árvores de fruto. O que, continuo a presumir, obrigaria a um novo
reforço orçamento. Feitas as contas, apesar de o negócio dos moinhos ser à
altura bastante seguro e deveras vantajoso, acabaria por não ser assim tão vantajoso
para os dois. Era preferível ser negócio só de um? Além do motivo económico,
podia ser incompatibilidade entre os sócios. O povo aqui diz: ‘(a) meias, só nos pés.’ Serias essas as razões?
Fossem quais fossem as razões, uma coisa é mais do que certa: dava um jeitão a
Manuel Duarte concentrar os seus prédios. Que produziam também laranja e vinho.
E porque aceitou Cândido a troca? O que ganhou com isso? Terá chegado à
conclusão de que o negócio dos moinhos era complicado para ele, mais valia
deixar o negócio a Manuel Duarte. Ele é que percebia de moinhos. Só por isso?
Talvez tenha preferido algo mais seguro. Uma rica quinta nas Areias (Rabo de
Peixe)?[24] É
bem possível. Será que Cândido pretendeu também distanciar-se de alguém que
fora suspeito em Abril de 1835 de ter conspirado contra a ordem vigente? Algo
muito recente. Não sei.
E
quando terão o MDS I e o MDS II entrado em laboração? Não se sabe, porém, é possível que
tal tenha ocorrido em momentos distintos. Ainda assim, dever elementar de
Historiador, vou esforçar-me por tentar chegar a datas possíveis. Hipotéticas
mas credíveis. Pelo termo de permuta de Agosto de 1835, repetimo-lo, fica-se a
saber que os MDS I estavam em fase de construção. O que me deixa um pouco
perplexo. Em quase dois anos, ainda não havia nenhum moinho concluído? Nem um
dos dois casais de mós? Ao certo, só se sabe que dezanove anos depois, em 1854,
para efeitos de taxação autárquica, Manuel Duarte Silva declarava ter em
funcionamento quatro moegas (ou moinhos). Moegas que só funcionavam com quatro
pedras (ou quatro rodas). E sabemos que eram duas do MDS I e duas do MDS II.[25] Só
começaram a funcionar em 1854? É muito pouco ou mesmo nada provável que aquele
ano fosse o primeiro ano em que funcionaram. Esse ano indicará apenas o primeiro
ano em que os moinhos do Concelho pagam taxa à Câmara. Ou o primeiro ano cujo
registo chegou até nós. Em 1841, a Câmara lançou ‘a décima sobre os moinhos.’[26] Já
então funcionariam os moinhos de Manuel Duarte? Não o podemos afirmar nem negar,
que saiba, não há provas concretas. Mas é provável que já então estivessem a
funcionar, pelo menos, desde finais da década de 1830 e inícios da década de 1840.
Vou tentar explicar a razão dessa minha hipótese.
Não ter conseguido construir
nenhum dos seus moinhos entre 1833 e 1854, refiro-me aqui ao moinho MDS I, só se
justificará pela ocorrência de situações imprevistas e excepcionais, tais como,
interrupção da obra por falta de verba, ou de mestres qualificados, ou por
desastres naturais. Mas não só. Vejamos. E se as suspeitas de Abril de 1835 (que
se prolongaram por mais uns meses) de conspirador contra a Rainha e o Sistema
Constitucional o tivessem distraído da obra? ‘Esteve (alegadamente) fora da Vila’ por uns meses (pouco antes de
24 de Abril a Agosto) para escapar à justiça. Tal situação, causaria atrasos na
obra dos moinhos. Vamos ver o que aconteceu então?[27] A
23 de Abril os presos do Castelo de São Brás, conotados com a guerrilha miguelista
que grassava e grassaria ainda por mais alguns anos na Ilha, que eram usados em
obras de calcetamento, daí o nome da revolta, revolta dos Calcetas,
revoltaram-se. A situação reagiu prontamente, cercando a cidade de Ponta
Delgada, bloqueando as saídas e entradas em Santa Catarina (para poente do
Concelho), da Arquinha (para Sul) e São Roque (para Nascente e para a Ribeira
Grande). A Ribeira Grande era uma Vila problemática para a causa liberal, pois
era ‘o ponto que maior cuidado dava às Autoridades,
pelo mau espírito que sempre tem mostrado muitos dos seus habitantes,’
entre estes, Manuel Duarte Silva.[28] E,
continuando a citar o artigo, ‘pelo
número (decidido sim) porém diminuto de cívicos, foi mandada reforçar por um
destacamento do Batalhão Cívico acompanhado do Cidadão José Maria da Câmara
Vasconcelos, e do Juíz da Relação António Bernardo da Costa Cabral, autorizado
extraordinariamente pelo Ex. Prefeito a tomar todas as medidas necessárias a
manter a ordem e a tranquilidade pública (…).’
A 24 de Abril de 1835, no dia seguinte
à eclosão da revolta, chegavam à Ribeira Grande reforços de Ponta Delgada. José
Maria da Câmara Vasconcelos, o Presidente da Câmara da Ribeira Grande que
autorizara a criação da sociedade de Cândido e de Manuel Duarte, mudara-se para
Ponta Delgada, onde mais o irmão e outros amigos, a 18 daquele mês havia
fundado o Açoriano Oriental, do qual
era então o editor. Do Corpo de Cívicos da Ribeira Grande fazia parte o jovem César
Ferreira Cabido, mais tarde Padre, fundador do Asilo Feminino em Ponta Delgada,
e irmão do futuro compadre de Manuel Duarte. O Juiz de Direito, António
Bernardo da Costa Cabral (ficaria célebre, mais tarde o 1.º Conde de Tomar) acusa
um punhado de ribeiragrandenses de ‘serem
desafectos ao Governo da Rainha.’[29] Um
parêntesis. Como se pode explicar essa ‘desafectação’
da Ribeira Grande. Dentro daquilo que se conhece, tenho que confessar: não sei.
Porém, como hipótese de trabalho, pergunto: a desafectação seria só por motivos
ideológicos? Pelo pouco que sei, havia, para além dos saudosistas de Dom
Miguel, outros motivos a considerar. Por exemplo, o descrédito de algumas autoridades
locais nomeadas pelos liberais, o próprio José Maria da Câmara Vasconcelos virara
a casaca. A esse respeito, conhece-se o teor de alguns pasquins.[30]
Haveria também que contar com o ressentimento latente contra a constante gula centralista
da cidade de Ponta Delgada. Que se vai aproveitando das novas instituições
liberais para ganhar mais ascendente. O que se faz ou deixa de fazer lá em baixo
(Ponta Delgada) é sempre recebido de pé atrás cá em cima (Ribeira Grande). É
algo totalmente ignorado pela historiografia local e que deveria ser
investigado.[31]
Voltando à narrativa. Manuel
Duarte foi um dos quatro que se ‘haviam
evadido para fora da Vila.’ Porquê? Por receio do que lhe pudesse vir a
acontecer. Não era paranóia, era realidade. Estava-se a par na Ribeira Grande do
que se ia passando em Ponta Delgada: no castelo, os revoltosos haviam morto um
guarda, fora do castelo, haviam morto quatro pessoas. Cercados, os que não
conseguiram escapar no escuro da noite, foram caçados e sumariamente sentenciados
e executados na Praça de São Francisco, hoje o local mais sagrado da cidade de
Ponta Delgada. Já sem vida, cortaram-lhes cabeças e mãos, que deixaram ali
mesmo expostos. Pavoroso.[32] Para onde se foi refugiar Manuel Duarte?
Há qualquer coisa que me diz que ele possa ter ido esconder-se na quinta que havia
adquirido em 1833 nas Areias de Rabo de Peixe, a quinta que em Agosto de 1835
permutaria com Cândido. Ou por ali. Seria seguro. As canadas das quintas das Areias
eram (e ainda são) um autêntico labirinto que desorienta quem não as frequenta.
O texto explica a razão da suspeita: ‘receando
ser presos pelo que antes tinham dito contra o Governo, sistema reinante (…).’
Foram quatro os que fugiram, ‘Manuel
Duarte e Silva’ fora um deles.[33] Mas
tudo isso, teria sido ultrapassado, pois, quatro meses depois, em Agosto, Manuel
Duarte permutava o prédio de Cândido onde iria acabar a obra do MDS I. Porque
digo que ultrapassou em Agosto? Apesar de tudo, não falhara a desobriga pascal:
nem a de 1835 nem a de 1836. Estava arrolado na rua do Valverde, a dois passos
do centro da Ribeira Grande e da igreja Matriz da Estrela, com a mãe e duas
irmãs na rua do Valverde.[34]
Teve de o fazer às claras.
Terá interrompido ou abrandado o
ritmo da obra durante estes meses? É bem possível que tenha tido algum impacto.
Terá, ainda assim, mantido a obra a meio gás? Com alguém a substituí-lo? Ou ainda
com ele a orientar a obra à socapa? Agora,
se a obra abrandou ou foi interrompida, Manuel Duarte terá tido oportunidade de
a retomar mal o assunto foi resolvido. Contudo, volto a insistir, se permutou legalmente
o prédio em Agosto de 1835, é porque o assunto já estava encerrado. Como? As
suspeitas haviam sido esclarecidas? Explicou-se? A mãe viúva terá ido pedir
clemência aos Juízes? O que consegui até agora apurar sobre isso? Que Manuel
Duarte não terá sido presente a nenhum Juiz. Nem interrogado. Os dois únicos
testemunhos conhecidos prestados (à revelia de Manuel Duarte) acerca do seu putativo
envolvimento não foram esclarecedores. Nem conclusivos. Se, ‘António Manuel da Silveira Estrela,
comandante do Corpo Expedicionário desta Vila e nela morador de idade de 32
anos com testemunha jurada (…),’ testemunhou ‘que, ouvira dizer (…) que Manuel Duarte da Silva Silva tinha dito que o
Governo Constitucional estava acabado e que bastava apreender meia dúzia de
voluntários dos principais (…),’ outra testemunha, talvez, Luís Francisco
Tavares do Canto, disse ‘que (…) não tem ouvido dizer dos seus sentimentos [Manuel
Duarte da Silva] e que agora é que ouve
dizer quando se prenderam outros que ele tratava de chamar gente ao seu partido.’
Perante isso, perante a acalmia que se vivia, o assunto ficou por ali? É o que
parece ter acontecido. Além disso, culpado ou não, Manuel Duarte terá aprendido
a lição. As novas autoridades poderiam ser tanto clementes como impiedosas. E
fosse contra a situação, guardaria isso para si. Iria tratar da sua vida
doravante? Parece que sim.
Manuel ia fazer quarenta anos em
final do ano de 1835. Ainda não casara. Casaria em 1842 com Dona Luzia (ou
Luísa) Helena.[35]
Não se sabe se tinha olhos claros ou escuros, se era magro ou gordo, sabe-se,
contudo, que casou aos quarenta e sete anos, um quarentão bem vivido, o que,
pelos padrões conhecidos da época, não
era nenhuma novidade. Manuel Pedro de Melo e Silva (do moinho Cova I) casou aos
quarenta e nove anos com a mãe dos seus filhos, uma viúva de cinquenta anos,
com quem já vivia maritalmente. E já com filhos. O futuro compadre de Manuel
Duarte, José António Ferreira Cabido, dono de moinhos nas Gramas, tal como
Manuel Duarte, casou aos cinquenta cinco anos.[36] Já
com filhos, ‘de mãe desconhecida.’
Que perfilharia. Teresa Leonor, a noiva de Manuel Duarte, estava prestes a
fazer quarenta anos.[37] Por
que terão casado? Ou melhor, como foi possível o casamento? Teresa morava com a
mãe viúva e duas freiras egressas. Como
era então costume, estaria destinada a tomar conta da mãe enquanto essa fosse
viva. Como resolveu isso? Deixou a mãe ao cuidado da mais nova das duas
freiras. A casa da mãe na rua da Conceição Velha (hoje Nossa Senhora das Dores)
não ficava longe da rua de São Vicente, onde o novo casal foi depois viver. E
Manuel Duarte porque terá casado? A mãe tinha as filhas solteiras para tomar
conta dela. Além disso, a mãe desejaria ver o filho com uma mulher que tomasse
bem conta dele. Casou, o que seria uma maneira de o filho assentar? De ganhar
juízo? Para alívio da mãe viúva e idosa? É pai em Agosto de 1845.[38] Ao casar já teria o negócio da farinha a
andar? E o da laranja e o da vinha também? Não iria conseguir casar com uma
solteirona a tomar conta da mãe viúva, além do mais uma Dona, sem lhe dar em
troca garantias de alguma segurança material, certo? Amor e uma cabana, não
seriam suficientes. Portanto, seguindo este raciocínio, adianto uma
possibilidade com pés para andar: é possível que depois de Agosto de 1835,
quando permuta o terreno onde foi construído o MDS I, e antes de Janeiro de
1842, Manuel Duarte Silva já tivesse moinhos a funcionar. Todos ou apenas
alguns.
Como
se distingue o MDS I (moinho da levada da Condessa) do MDS II (moinho de
ribeira)? Simples:
pela taxa paga à Câmara por cada moega em 1856/1857. Nesse período, Manuel
Duarte Silva declara ser dono de quatro moegas na Mãe de Água.[39] Dessas
quatro, duas, por pagarem 2 500 reis cada, moem ‘pela força da água’ da levada do Conde/Condessa. Pelo que, essas
duas só podem ter pertencido ao Moinho MDS I. As restantes duas, por pagarem
1 500 reis cada, moem ‘pela força’
da água da ribeira Grande. Pelo que, essas duas, só podem pertencer ao moinho
MDS II.[40]
Onde
foi construído o MDS I?
Como ainda hoje se pode ver pela ruína, se não houve alterações radicais, foi
construído no limite Norte do terreno. Partindo das traseiras desse edifício,
no seu lado Sul, a dois metros da vala velha, construiu-se uma nova vala,
conhecida na gíria local dos moinhos por vala nova. Essa nova vala, para dar
altura suficiente aos cubos, foi feita a uma cota mais elevada (c. de dois
metros) da cota da vala velha.[41] Vala
velha que fica dois a metros (mais ou menos) a Poente da vala nova. Para construir
a vala nova e os cubos, aparelho vital do moinho, foi necessário levantar um
talude. Com nivelamento do terreno. Seria
já assim no início?[42]
Tirando a introdução de uma terceira moega, talvez ainda de uma quarta, que
terá ocorrido entre 1857 e 1871, ou outros acrescentos, ainda assim, é possível
que o moinho (no sentido de casa de moinhos) não tenha mudado de lugar.[43] Não
era necessário. Além disso, a reforçar essa hipótese, as Matrizes Prediais e as
referências vindas em jornais, atestam-no suficientemente: era por ali que
ficava. E onde se situaria o MDS II?[44]
O caso do MDS II é diferente do MDS I. Tem-se uma ideia, no entanto, bastante
genérica, de que ficaria onde mais tarde veio a estar o chamado Curral das Cabras de Artur Viveiros. Que
ficava na margem direita da ribeira. Em 1986, registei essa informação da
tradição oral: ‘Faustino, homem de trinta
e poucos anos, Auxiliar de Educação da Escola Preparatória Gaspar Frutuoso,
parente do cabreiro Artur Viveiros, morador nos Foros, com setenta e tal anos,
a trabalhar com o Carlos Barata, viu pedras de moinho no local, e alicerces.[45] Fui
na ocasião dar uma vista de olhos ao local e anotei no meu bloco de notas o que
aí pude (ou julguei) ver: ‘Estive a
semana passada no local e encontrei uma construção de pedra que me pareceu
(restando algumas dúvidas) ser o cabouco e a setilha.’ [46] Não
vi pedras de moinho. Todavia, até ao dia 22 de Maio de 2026, dia em que
encontrei a prova documental que me faltava, a peça do quebra-cabeças que
faltava para ter uma imagem do que ali existira, desconfiava da informação
veiculada pela tradição oral. Mantinha reservas acerca do que havia visto. Ou
imaginara ter visto? Mudei de ideias, primeiro, ao ler, reler e tresler a informação
veiculada nas Matrizes Prediais (Rústicas e Urbanas) da Matriz/Ribeirinha. Trata-se
de informação sólida.[47] E
credível. Pelas confrontações do
terreno e pelos nomes dos seus sucessivos proprietários que são aí indicados,
confirma-se (de forma inequívoca) que Manuel Duarte Silva foi o primeiro proprietário. Em 1923,
seria vendido pelos herdeiros de Manuel Duarte Silva Júnior. [48]
Confirma-se que o MDS II ficava situado na margem direita da ribeira Grande.[49] Confirma-se
o local veiculado pela tradição local: o Curral
das Cabras de Artur Viveiros.[50]
Entre os vários proprietários que foi tendo, em 1935, surge o nome do cabreiro Dinis
Viveiros. Artur Viveiros. Daí deriva o nome de Curral das Cabras do Viveiros?
Daí que em 1986 ainda se lembrassem aqui disso?
Mas onde ficava ao certo o MDS II dentro do
espaço que a tradição atribui ao Curral
das Cabras? A resposta chega-nos através do teor do artigo
1238 das Matrizes Prediais. Ainda que não o localizem com a precisão de um GPS,
chegamos mais perto do local onde eventualmente esteve. O artigo fornece-nos boas
pistas para isso. Foi transcrito numa Matriz Predial do século XIX, que virá o
mais tardar da década de oitenta, pois, Manuel Duarte Silva morre nessa década
e o seu nome (já riscado) ainda aí figura como sendo seu proprietário. Repare-se
no local aí indicado (ainda que de forma genérica, repito, mas já algo aproximada)
do MDS II: ‘Uma casa de moinho com duas
rodas de moer cereais à força de água que confronta Norte, ribeira Grande [diante do moinho era a ribeira]; Sul e Nascente proprietário [Manuel Duarte Silva] e Poente, servidão [que ladeava a ribeira e conduzia ao
moinho].’[51]
Por seu turno, o artigo 1239 ajuda a precisar a localização: ‘Um pomar de laranjeiras que confronta Norte:
o proprietário [Manuel Duarte Silva];
Sul: servidão [que ligava ao troço da servidão que conduzia ao moinho]; Nascente: caminho [o que vinha de Trás
Mosteiros e também entroncava na servidão referida anteriormente] e Poente: ribeira Grande [o espaço que
ocupava o moinho era envolvido por esse outro prédio de Manuel Duarte Silva].’[52]
Daqui, se podem retirar boas conclusões. E seguras: o moinho MDS II confinava com
o prédio descrito no n.º 1239 (como vimos, pertencente igualmente a Manuel
Duarte Silva). Pode também concluir-se que o MDS II foi construído no extremo Norte
actual (e da altura?) da propriedade. Uma inspecção
(ainda que) sumária aos poucos vestígios visíveis, parece apontar para esta
localização.[53] Mais
ainda: ocupava um espaço reduzido. Pouco mais do que suficiente para aí se construir
uma pequena casa com dois moinhos (rodas/casais de mós). E acessos. Posto isso,
vou arriscar uma reconstituição do que possa ter sido o MDS II. No entanto,
para conseguir uma imagem mais próxima e clara desse moinho, além de eventuais novas
descobertas de documentação escrita, o ideal seria cruzar os dados fornecidos
pelas Matrizes Prediais com os que uma intervenção arqueológica nos poderia
revelar. Com essa reserva presente, aqui vai uma proposta de reconstituição (sempre
sujeita a posteriores verificações no terreno): circunscrita a uma reduzida área
à volta do vestígio do cabouco e da levada (do que resta dela, ou do que se
pensar ser dela).[54]
Ora, o que para já, nos parece revelar o que resta de um dos cubos, situado no
cimo de uma escada de degraus de pedra, corresponderia (com alguma grau de certeza)
a um dos dois cubos do moinho. Situando-se a escada de pedra de acesso a poente
do cubo, como hoje a vemos, o segundo cubo ficaria (estou para aí inclinado) a
Nascente desse primeiro cubo. Isso, claro, se a escada que hoje vemos é da
época do moinho. O local foi coberto de areia (foi ‘areado’), pelas cheias de 1906 e de 1919. [55]
Ou pela de 1895.[56] Ou por outras.
Eventualmente por todas essas. Até porque perdemos o rasto do MDS II a partir
de 1886/7. Pelo que, é provável que se encontre mais alguns vestígios a uma
cota mais baixa. Porque o cubo estava implantado a Sul, como estão os de outros
moinhos da Mãe de Água, a frente do moinho estaria forçosamente voltada a Norte.
Como de resto, ainda, estão os outros da Mãe de Água.[57]
Na fachada voltada a Norte: duas janelas e uma porta. Seria um moinho de um só
piso? É possível. Em baixo, localizavam-se os dois arcos do cabouco. E o tanque
do cabouco. A servidão do moinho, que ladeava o moinho e a ele conduzia, tinha
a ribeira a poente.
Haveria
mão (represa)? Teria
forçosamente de ter uma mão. Onde estaria ela? Hoje não restam vestígios dela. Existem,
sim, o que parecem ser restos (muito poucos) da antiga levada.[58] Os
quais (após confirmação) nos podem dar uma ideia mais próxima da localização da
mão e do percurso da levada. E até da localização final do moinho. Levando em
linha de conta esses escassos restos visíveis da levada, como hipótese a
confirmar, repito, adianto: da mão do moinho até à propriedade de Manuel Duarte
Silva, a levada seguiria (a uma cota mais elevada do leito da ribeira) pela
margem da ribeira; já na propriedade, ladearia a servidão. E daí até aos cubos?
Atravessaria a servidão? E a mão do moinho, onde ficava? Levando em linha de
conta em conta a distância que a mão deve ter dos cubos, bem como o terreno em
si mesmo, como se vê hoje, teria estado um pouco acima da ponte que depois de
1919 serviu o MDS I.[59] Os
cubos do MDS (II) ficariam a duas centenas de metros a jusante do Moinho da
Caroucha (moinho de ribeira).
Quando
foi o MDS II construído?
Desconhecendo-se a data certa, resta-nos considerar duas hipóteses. Antes do moinho
MDS I. Ainda antes da constituição da sociedade em 1833 entre Manuel Duarte e
Cândido de Oliveira. Porquê? Aparentemente, bem mais modesto do que o MDS I,
terá levado Manuel Duarte a querer construir moinhos (no sentido de casais de
mós) mais potentes. Esses só com a água da levada da Condessa. Que necessidade haveria
de ter Manuel Duarte de fazer o MDS II se já tivesse construído o MDS I?
Poderia introduzir (como o faria) mais casais de mós no MDS I. Por esse
raciocínio, afigura-se pouco provável que o MDS II tenha sido posterior ao MDS
I. Além disso, quando constrói o MDS I, é possível que já existisse o outro moinho
da Mãe de Água da levada da Condessa. Ou que iria em breve ser construído.
Moinho que parece ter resultado também de uma sociedade. Sociedade que, no
caso, não se dissolveu antes da construção do moinho. Manuel Duarte, suponho, vizinho
do prédio de Cândido, terá visto naquele prédio o local para nele construir um
moinho melhor do que o seu MDS II. Daí resultou que tivesse ido ‘falar’ com Cândido Oliveira? Ou aceitado
‘alegremente’ um convite de Cândido? Não
se sabe. Com prédios de laranja defronte, em ambas as margens da ribeira, com
duas sociedades (conhecidas, poderão ter existido outras mais) constituídas na
década de vinte para construir duas casas de moinhos na Longaia, não teria (insisto)
Manuel Duarte já construído o seu (MDS II)? Vivia-se a febre dos moinhos. Manuel
nasce em 1795, na década de vinte, tinha idade suficiente para se abalançar a
tal. As quintas de laranja e de vinha da Mãe de Água iam sendo associadas a moinhos.
Era acrescentar-lhes valor. Não esquecer que se vivia o auge da laranja. E que
o vinho também era comercializado. Na Mãe de Água, construir-se-iam cinco (ou
seis) casas de moinhos. Em todos os espaços possíveis da Mãe de Água.[60] Se
assim tiver sido, o MDS II, terá sido feito ainda na década de vinte, nunca
indo além de 1833. Todavia, sem datas conhecidas, ainda que seja uma hipótese
(a meu ver) menos provável e remota, há que deixar em aberto a possibilidade de
ter sido feito depois do MDS I. Se assim tiver sido, então, considerar-se-á uma
data depois de 1833 e antes de 1854.
Fosse em que ano
fosse em que foram construídos aqueles moinhos, o acesso a esses dois moinhos
de Manuel Duarte Silva, um localizado na margem esquerda (o MDS I), o outro na margem
direita (o MDS II), fazia-se por caminhos (ou melhor veredas) de terra batida
que acompanhavam o próprio trajecto da ribeira. Ao da margem esquerda (MDS I) ia-se
pelo caminho que ia dar à canada da Palha (hoje Condes da Ribeira Grande) e à das
Gibas (hoje rua do Berquó). Ao da direita (MDS II), ia-se pelo caminho que,
para Norte, levava a Trás-os-Mosteiros, e para Sul, levava à Longaia.[61] Como
se organizava o trabalho nesses dois moinhos? Apesar de estarem em margens
opostas da ribeira, de um via-se o outro. Estariam a uns cem metros de
distância. Não seria difícil ir de um ao outro. Como? Talvez atravessando a
ribeira a vau? Talvez houvesse uma ponte de madeira? Um pontão? Para melhor gerir
os dois moinhos, o moleiro e a sua família poderiam acudir a ambos? É possível.
Talvez o MDS I moesse trigo. Talvez o MDS II moesse milho.[62]
Junto ao MDS II, é
provável que tenha havido (nem que fosse) um telheiro para guardar os animais e
as carroças. Junto ao MDS II, sendo o maior e o principal dos dois, a coisa
seria muito diferente: haveria que haver outros espaços anexos. Certamente
haveria uma casa para alojar o moleiro e a família: ‘Uma casa de morada com superfície coberta de 120 m2 (…) com 4 divisões
para habitação e 1 dependência com superfície coberta de 20 m2 (…).’[63] Porém,
essa descrição, a primeira de que se dispõe, é posterior a 1919. Já seria assim
antes de 1919? Ao certo, não se sabe.[64] Fosse
nessa ou em outra casa, seja pela dispersão e dimensão daqueles moinhos, seja
pela distância a que ficavam do centro da Ribeira Grande, seja pela natureza específica
do trabalho de um moinho, exigindo permanência e vigilância constantes, tudo
aponta para que lá residisse um moleiro com a família.[65] Filhos,
de todas as idades, e a mulher, como era habitual, participariam nas rotinas daquela
(dupla) unidade de produção.[66] Haveria também por lá gatos para dizimar ratos e cães
para manter à distância potenciais ladrões. À volta dos moinhos, criar-se-iam porcos e galinhas. Cultivar-se-iam hortas. Haveria
alguns pés de vinha. Árvores de fruto.[67] Tudo
isso serviria de suplemento vital à magra féria (habitualmente) semanal. Além
destes espaços, haveria outros ainda. Um anúncio de oferta de arrendamento de
1884 do moinho do Guido, o moinho a seguir ao de Manuel Duarte, mas ficando já na
periferia Sul da Ribeira Grande, diz-nos que havia um ‘granel,
estrebaria e lugar para arrumação de carroças (…).’[68]
Tal como os de Manuel Duarte, por certo. Entre 1856/57 e 1871, Manuel Duarte instalou uma
terceira moega (moinho/roda) no MDS I. [69] À altura, os moinhos de Manuel Duarte Silva estariam entre os melhores da
Ribeira Grande. Manuel Duarte Silva Júnior casara em 1869 com uma filha de José
António Ferreira Cabido.[70]
O sogro e o pai tinham moinhos nas Gramas (ribeira das Gramas/Ribeirinha) desde
pelo menos 1854. Enquanto Manuel Duarte fora suspeito de ser ‘contra a nova situação,’ os Cabidos eram
totalmente da situação. Esse casamento do seu filho único com uma filha
(natural) de um Cabido, levaria Manuel Duarte subir mais um degrau na escala
social da Ribeira Grande. Manuel Duarte Sénior, a caminho dos setenta anos de
ida, não dispensaria a ajuda do filho. E da família do filho. Em 1872, Manuel
Duarte Sénior já estava viúvo.[71]
Depois
da série de 1854, 1856/7, só se conhece a de 1880 a 1886.[72] Que,
tal como a anterior, também trata de ‘licenças
para os moinhos.’[73] Na
de 1854/7, taxavam-se as ‘moegas,’
nesta, taxam-se ‘os moinhos que casa tem.’
O que ia dar ao mesmo.[74]
Nos sete anos em que a série vigora, enquanto Manuel Duarte paga sete vezes
taxa pelos ‘dois moinhos’ (dois
casais de mós) do moinho MDS II, apenas paga três vezes pelos ‘três moinhos’ (três casais de mós) do
moinho MDS I.[75]
Como se poderá explicar que o moinho MDS I, o melhor dos dois, apenas tenha
pago as taxas dos anos de 1880, 1882 e 1886? E ainda assim, em 1886, quando
deveria pagar 1$200, pague apenas 1$050. O MDS II, o mais fraco dos dois
moinhos, nesse mesmo ano de 1886, paga $700. Avarias? No caso do MDS I, pode
indicar que parou por algum tempo. O que pode ter acontecido? Avarias? Falta de
pessoal? Desinteresse? E o MDS II? Paga uma taxa igual a um dos moinhos da
Longaia. Ao moinho da Ponte Nova. A um dos moinhos da rua João do Outeiro. A um
da rua do Saco. Registe-se que os dois últimos, moem com água da levada da
Condessa. Então, por que razão pagam menos dos que os outros? Por serem mais
fracos? É provável. O que se estava a passar com os moinhos de Manuel Duarte
Silva?
O que fazia de um moinho um bom
moinho? Era
essencial estar bem situado e dispor
de água suficiente e constante. Era o caso do MDS I. E mesmo do MDS II. Porém,
não bastava. Podia ter água suficiente e estar bem localizado, mas se não
tivesse cubos com a altura suficiente, isso de pouco ou nada valia. Era o caso
do MDS I. E para o caso do MDS II? Sem intervenção arqueológica não há maneira
de o saber. Além disso, teria de manter sempre a seitia (a saída da água do cubo para a pena do rodízio) bem direccionada para as penas do
rodízio. As pedras bem picadas. O que implicava dispor de bons moleiros. Que
soubessem moer bem os cereais: milho ou trigo. Ter uma boa clientela (freguesia). Que, e isso era essencial, que
o proprietário (ou rendeiro) fosse um bom gestor. Com vontade de fazer crescer
o negócio. Com olho nas inovações. Que conseguisse aguentar e superar a concorrência.
Era preciso talento e dedicação. Vamos ver o que se passava com os moinhos de
Manuel Duarte Silva.
Manuel
Duarte Silva enviuvara em finais de 1868.[76]
Já passava dos setenta. Em finais do ano seguinte, Manuel Duarte Júnior, o seu
único filho, casou.[77] Seis
anos depois, na Quaresma de 1875, já com filhos, mudando-se para a rua de São
Vicente, o filho Manuel vem morar com o pai. Por esta altura, já não tinha
ninguém a viver com ele. Em 1873, ou à volta desse ano, a Madre Jacinta havia
falecido e a criada Emília fora à sua vida. Em 1880, com 84 anos de idade, na
Quaresma desse ano, não está a viver na sua casa da rua de São Vicente. Nem na
rua da Bica (actual Gonçalo Bezerra) onde o filho tinha casa.[78] Talvez
porque, entretanto, tivera mais filhos. A rua mesmo ao lado da de São Vicente. E
é, em Dezembro de 1884, já com 89 anos, que Manuel Duarte quer arrendar os
moinhos.[79]
O filho e a família haviam voltado a morar com o pai. Talvez por o pai estar
incapaz de morar sozinho. Entretanto, já se desfizera dos moinhos das Gramas de
Cima (Ribeirinha). A causa do abre/fecha do MDS I, em parte, poderá estar
ligada à velhice de Manuel Duarte. Em parte, por o único filho não manifestar
muito interesse pelo negócio da farinha. Acabaria por manter o negócio, mas
longe da Ribeira Grande. E exercendo outras funções. Falta de bons moleiros nos
moinhos? Quero crer que tenho havido inicialmente, mas, por velhice, morte ou
saída para a emigração, o moinho ficara sem um bom profissional. A partir da
década de setenta, o excesso de população da ilha começa a sair para a
emigração. Há casais da Ribeira Grande que rumam ao Havai. Ou ilegal. Saída ‘a salto.’
Entre
tudo isso, há o vizinho do lado. O moinho de José Joaquim de Melo Teixeira, o
segundo moinho da Mãe de Água da levada da Condessa, que ficava a montante do
de Manuel Duarte, podia estar a fazer concorrência ao de Manuel Duarte. E ele
já não teria a ‘força’ de outrora. Nem a vontade. Em 1880 aparece em nome de
José Joaquim de Melo Teixeira, que também tinha parte do segundo (a contar de
montante a jusante) moinho da Longaia.[80] A
julgar por uma crónica de 1919, que, no entanto, remete para um data anterior, talvez
para as décadas de oitenta e de noventa, alguém referia-se ao Moinho de José
Joaquim, talvez tenha sido Ezequiel Moreira da Silva, como ‘esse moinho (…) [em 1901, a família
Teixeira vendera-o, entretanto, à família Pimentel][81] é o maior centro de moagem da localidade, e
é um documento da aspiração de progresso que teve o homem que deixou o seu nome
ligado à indústria da moagem na Ribeira Grande – Manuel Teixeira. Manuel
Teixeira construiu há 35 anos [c.1884]
uma ponte, da margem para o moinho situado na margem esquerda, de pedra
lavrada, de arco solidamente armado e seguro a tetim, de lado a lado da
ribeira, na confluência de outra ribeira que hoje se chama do Teixeira creio
que em memória sua.’[82]
Manuel Teixeira é filho de José Joaquim Teixeira. Nasceu em 1866.[83] A
crónica de 1919 dá a ponte como tendo sido construída há 35 anos (c. do ano de
1883) e por Manuel Teixeira. Acho pouco provável que isso tenha acontecido em
1883 ou antes de 1883. Em 1883, Manuel tinha 17 anos. Além disso, havia na
família, residindo com os pais, um irmão solteiro muito mais velho do que ele:
Jaime. Mas, ainda assim, não havendo confusão do cronista e a ter sido ele, Manuel
pode tê-lo feito depois da morte do pai em 1885. A mãe, como herdeira, ficou
como chefe e proprietária. Os filhos e netos entram legalmente no negócio.[84] Seja antes ou depois de o pai falecer, em
1919, aquele moinho era o melhor da Ribeira Grande. O MDS I estava muito longe disso.
E o MDS II nem sequer já existia como moinho.
Apesar
de José Joaquim e de Manuel Duarte, terem antes tentado vender (caso de José
Joaquim) ou de arrendar (casos de José Joaquim e de Manuel Duarte) os seus
moinhos, o que aconteceu para os moinhos de Teixeira prosperarem e os Silva aparentemente
não? Vamos ver que isso se explica, apesar das crises familiares, económicas,
da reconversão, pelo facto de a família Teixeira, após a morte do patriarca,
ter-se unido e decidido gerir directamente os moinhos, e de o único herdeiro de
Manuel Duarte, tê-lo feito indirectamente. Vamos à tentativa de alienação dos
moinhos. De facto, em 1883, José Joaquim pretendeu vendê-lo ou arrendá-lo assim
como um outro seu na Longaia (ali ao lado)? ‘(…) José Joaquim de Melo Teixeira arrenda
ou vende, os seus moinhos e baldios, sitos à Mãe de Água. Também vende ¼ de
um moinho sito à Longaia, e uma casa baixa telhada, na rua de Santa Luzia,
desta mesma Vila.’[85] O
que se veio a repetir em 1884: ‘José Joaquim de Melo Teixeira vende
(…) cinco alqueires em um serrado sito na Magarça – 6 e meio alqueires, sito
aos moinhos de cima da Longaia, e uma casa e eira dentro – 3 quintas com
laranjeiras e vinha dentro com 12 e meio alqueires de terra, e uma quarta em
uma casa de três rodas de moer cereais, uma casa com 4 rodas, sita à Mãe de
Água.’[86] Essas
quatro, mais as três do seu moinho da Longaia, bateriam qualquer um dos seus vizinhos
da Mãe de Água e, talvez, mesmo os outros moinhos da Ribeira Grande. Dito de
outra forma, as cinco (ou seis) mós de Manuel Duarte Silva. Porque coloco a
dúvida entre dispor três ou quatro mós para o MDS I? Porque em 1884, enquanto
José Joaquim anunciava dispor de quatro mós e declarava apenas três à Câmara, o
mesmo poderá ter feito Manuel Duarte. Era uma questão de pagar menos? As taxas
aumentariam para o dobro em 1885. Era já uma reacção? E mais um motivo para
alienar os moinhos. Mas o que poderia levar
José Joaquim a querer desfazer-se dos seus moinhos?
Qual seria a principal razão? Problemas de saúde. Ausência. Na Quaresma de 1882,
com quatro filhos solteiros, a família não cumpre o preceito pascal.[87]
Não se encontravam na Ribeira Grande. Na Quaresma seguinte, estavam de volta.
Onde teriam ido? E por que razão não estavam disponíveis? Na Quaresma de 1884,
enquanto a família cumpre o preceito pascal, José Joaquim não cumpre. Caso de
doença? Morreria dez dias depois de Manuel Duarte.[88]
Em 1884, Manuel já não mora com os pais. Aos dezoito, Manuel seria o braço
direito do pai. E o irmão Jaime? Não tinha inclinação ou talento para tal? Por
que razão saiu Manuel de casa? Saída temporária? Havia no entanto razões comuns
a José Joaquim e a Manuel Duarte. A situação económica. Melhor, a conjuntura
económica. O declínio das exportações da laranja e a quebra da vinha. José
Joaquim e Manuel Duarte eram proprietários de quintas de laranja e de vinha. A
vinha reconvertida, agora com a casta ‘americana,’
continuou a servir apenas o mercado local. E o consumo familiar. A laranja
passou a servir também o mercado local. E familiar. O álcool de batata-doce entra
em força. A Ribeira Grande teria uma das três fábricas de álcool. A década de
oitenta foi de crise nesse sector. A cultura e a produção do chá. A maior
extensão de plantações e as principais unidades de produção concentravam-se na
zona central do Concelho da Ribeira Grande. Nas encostas da Serra de Água de
Pau. O ananás (apesar de não ser tão cultivado tão extensivamente como na zona
Sul e em partes do Norte Poente da Ilha) também encontrou alguma expressão na
Ribeira Grande.[89] No meio
de tudo isso, em 1884, a Câmara taxou quinze moinhos na levada da Condessa e
onze na ribeira. Pior ainda. As taxas iam subir. E muito. Outro motivo para
hesitarem? Entretanto, enquanto não recuperavam, seria prudente continuar o
negócio da farinha. Era um negócio seguro. Ainda. Apesar da concorrência das
moagens e dos moinhos de vento.
A propósito dos moinhos da Ribeira Grande, ainda
nesse mesmo ano de 1884, o antropólogo Francisco
Arruda Furtado (nascido e criado em Ponta Delgada), a esse respeito, não manifestava
quaisquer dúvidas: na Ilha de São Miguel, a ribeira da Ribeira Grande era ‘(…) a principal moagem de cereais (…).’ No entanto, os seus moinhos eram ‘de uma
construção muito primitiva.’ Arruda Furtado decerto saberia que a ilha em
geral (e Ponta Delgada, em particular) já há décadas dispunha de moagens. E,
talvez, já desde o século XVII, de moinhos de vento. Havendo também azenhas
(roda exterior vertical) pelo menos nas Sete Cidades e na Povoação. Ainda
assim, mesmo bastante rudimentares, os moinhos da ribeira Grande dominavam
parte considerável do mercado de farinhas da Ilha. Porquê? Nem sempre haveria o
vento certo para fazer moer aqueles moinhos. Daí que os farinheiros dos moinhos
de vento serem grandes clientes dos moinhos da Ribeira Grande. E a farinha das
moagens saía mais cara. E, segundo outros, não era ‘tão apurada’ como a farinha que saía dos moinhos de água. E esses
moinhos mantinham uma rede clientelar muito antiga. Desde o século XVI. E bem consolidada.
Manuel
Duarte também quis desfazer-se dos seus moinhos. Vendeu em 1884, talvez a Manuel
de Sousa Almeida, o seu moinho das Gramas de Cima (Ribeirinha). E oferecia de
renda os ‘moinhos situados à Mãe de Água.’[90] O moinho do Guido, que
agora era dos Berquós, o que se seguia a jusante ao de Manuel Duarte, e, tal
como este e o de José Joaquim, uma das sete segundas casas da levada da
Condessa, fez na mesma altura outro tanto. Não há muito, fora-lhe acrescentada uma
quarta mó. Feito boas melhorias. E, no entanto, também ele se oferecia para
renda: ‘Arrenda-se os três que foram da
sr. Guido Botelho, e que actualmente são da Excelentíssima Sr.ª D. Maria
Margarida Fisher Berquó, sitos na rua das Gibas desta Vila, e mais um que se
acaba de fazer, sendo aqueles para milho, e este para trigo. Têm granel,
estrebaria e lugar para arrumação de carroças, podendo estas descarregar ao pé
deles. Quem pretender fale com João Inácio Ferreira, escrevente da
Excelentíssima Sr.ª D. Maria A. G. Fisher, Ponta Delgada.’[91]
Se houve ou não então outros moinhos a pretenderem fazer outro tanto, confesso
que não sei. Encontrei
esses quase por acaso. Será que houve outros nas mesmas circunstâncias?
Voltando a Manuel Duarte e a José Joaquim. Como
se viu, havia também motivos do foro pessoal e de conjuntura económica para desejarem
arrendar ou vender os seus moinhos. Para o do Guido, a história seria outra: a
proprietária morava fora da Ribeira Grande. Não se ia e vinha à Ribeira Grande
como se vai das Poças à Caldeira Velha. O moinho exigia que se ficasse por
perto. Mesmo aos donos. Portanto, era mais conveniente. Porque é que, no caso
dos moinhos de José Joaquim e de Manuel Duarte, ninguém os arrendou ou comprou?
Talvez a conjuntura desmotivasse potenciais rendeiros ou compradores. Que fazer
com os moinhos? Por morte de José Joaquim, a família uniu-se. Só o venderia em
1901. Ou seja, dezasseis anos depois. A farinha continuava ainda a ser um negócio
relativamente seguro, com altos e baixos, é certo? Parece que foi esse o
entendimento. Entretanto, o de José Joaquim ficou à responsabilidade da viúva Maria
Paulina de Frias Gouveia. Que juntou os filhos (casados e solteiros). Talvez
com a mão do filho Manuel Duarte. A viúva falece entre 1894 e 1901. Para Manuel
Duarte Silva (já com os herdeiros do filho) a venda só se realizaria em 1923/24.
Não andarei longe da verdade, se
disser que, e há bons indícios disso, a 3 de Julho de 1885, quando, aos 90 anos
de idade, falece Manuel Duarte Silva, os seus moinhos já haviam conhecido dias melhores.[92] Para
piorar a situação, o filho, com o mesmo nome do pai, casado e pai de muitos
filhos, parece não ter grande apetência ou interesse pela vida dos moinhos. Na
quaresma de 1887, já havia mudado de casa.[93] Já
não mora na rua de São Vicente. Nem na da Bica (actual Gonçalo Bezerra). Nem na
Ribeira Grande, tanto quanto pude apurar. Talvez até já se tivesse mudado para
Ponta Delgada, onde seria ‘Procurador.’
É essa ocupação que lhe dá o seu termo de óbito. A partir daí, com o dono fora
da Ribeira Grande, com os moinhos certamente arrendados, agora apenas especulo,
tirando uma ou outra enchente, uma ou outra avaria, uma perda aqui ou um ganho ali
de fregueses, a vida naqueles moinhos terá, quero crer, decorrido com a
normalidade habitual? É possível: pelo menos é o que se conhece. Mas um moinho
sem grande força. Ao que parece. Havia grandes moinhos na Ribeira Grande. Essa
normalidade possível foi bruscamente interrompida no sábado dia nove de Agosto
de 1919. De sábado para Domingo, uma terrível catástrofe atingiu a Ribeira
Grande e a Ilha. ‘Na Mãe de Água, os prejuízos causados pela cheia
são colossais, e estão tão diferentes aqueles sítios aprazíveis, onde era tão
agradável ir de passeio nas tardes de Verão, que agora, dificilmente se
reconhecem, tamanha foi a transformação por que passaram.’ [94] É o que, após ter visitado a Mãe de Água
acompanhado por Manuel Jacinto Tavares da rua detrás dos Mosteiros,
escreve Ezequiel Moreira da Silva nove dias depois no seu Ecos do Norte. O jornal sai nove dias após a catástrofe. Durante
toda a semana, continua Ezequiel, ‘tem vindo à Ribeira Grande muita gente das
freguesias e de Ponta Delgada, ver os destroços causados pela cheia.’ No dia 14, haviam estado, ‘os senhores Jacinto Óscar Dias Rego e José Pacheco Toste, que vieram
tirar fofografias dos diversos lugares onde são maiores os estragos.[95] Imagens
e texto que iriam ser (em parte, assim me parece) aproveitados para a fabulosa edição
de Novembro da Revista Micaelense.
Nessa reportagem, profusamente ilustrada, diz-se que os
moinhos da levada do Conde, da qual fazia parte o moinho de três rodas de
Manuel Duarte Silva e o da viúva Pimentel [que fora até 1901 da família de José
Joaquim], a 180 metros a montante do de Manuel Duarte, representavam ‘entre si um poder moageiro de cerca de
18 300 moios anuais de farinha ou seja 1525 moios por mês o que representa
alimento para mais de 8 milhares e meio de casais por ano mais de um terço da
população da ilha de São Miguel.’ [96]
O que acontece então aos moinhos e ao prédio de
Manuel Duarte Júnior? ‘O terreno fronteiro (…) e metade do moinho nele
edificado [só se pode estrar a
referir ao MDS I, na margem esquerda],
foram igualmente levados pelas águas. O caminho que conduzia para este moinho [o
que conduzia à canada das Gibas, hoje rua do Berquó, e à da Palha, hoje condes
da Ribeira Grande],
numa extensão de mais de 100 metros e uma grande parte da quinta das senhoras
Berquós, ficaram convertidos em leito de ribeira (…).’[97] Num cálculo quase a olho, e falível, a ribeira
Grande (e o que ela trouxe consigo de arrasto) terá arrasado ou danificado 2/3
do prédio [na margem esquerda que o pai permutara no longínquo ano de 1835] de Manuel
Duarte Silva Júnior.[98]
Meses após a catástrofe, no último dia de Janeiro de 1920, falece em Ponta
Delgada Manuel Duarte Silva Júnior.[99]
Sofria de artéria esclerose. Situação que, dependendo da natureza muito diversa
daquela doença, o teria já (há algum tempo) incapacitado.[100]
Nessas circunstâncias, o que poderiam fazer
os herdeiros de Manuel Duarte Silva Júnior?[101] Pouco antes da cheia, mesmo ainda em vida do
pai, o moinho de 3 rodas (o MDS I) e o que restava do de 2 rodas (o MDS II) (estaria
já inactivo?) haviam sido arrendados. Esse de duas rodas (o MDS II), que
Ezequiel não refere em Agosto de 1919, certamente por já não ser moinho. Porquê?
Porque já não era preciso? Bastava o MDS I? Há alguma probabilidade de que
tenha havido uma quarta mó no MDS I, que teria sido introduzida depois de 1871.
Nessas circunstâncias, para quê utilizar o MDS II? Estaria em 1906 o MDS II ainda
em condições de funcionar, quando em Janeiro desse ano desabaram as tempestades
de 1906? ‘As tempestades foram gerais e
ainda hoje se não pode calcular todo o dano deixado por elas entre nós. Por
aqui foram danificados alguns proprietários dos moinhos da Mãe de Água, onde a
impetuosidade das águas da ribeira foi bastante caudalosa e deixou obstruídos
os mesmos moinhos.’[102]
Também pode se ter dado o caso de já não estar em condições e as tempestades apenas
lhe tivessem desferido o golpe de misericórdia. Treze anos depois de 1906, já seria uma ruína? Daí que Ezequiel
não se lhe refira em 1919? Provavelmente. Seja por que motivo for, em 1906 ou até
já antes, porém, nunca antes de 1886, o que parece altamente provável é que foi
deixado à sua sorte e à mercê dos elementos, até que o escrivão da Fazenda (em
1924?) lhe redigiu a certidão de óbito: ‘Não
existe.’ E quanto ao MDS I? O que fazer para o tornar vendável? Sofrera directamente
o impacto da cheia. Ficara sem ligação pela margem. A fachada do moinho
desabara. Talvez a levada tenha sido danificada. O que urgia fazer? Terão
investido no reforço do talude de protecção à levada nova e aos cubos? É
possível. E à do próprio edifício daquele moinho? Teria de ser. Uma quarta mó,
que teria sido introduzida depois de 1871 e destruída em 1919, não foi reposta
em funcionamento? É possível. As Matrizes Prediais só falam de três. Tiveram de
encontrar uma solução alternativa à servidão que fora levada pela água. A
solução foi construir uma ponte unindo a margem esquerda (onde se encontrava o
MDS I) à margem direita da ribeira (onde outrora existira o MDS II).[103]
Uma ponte, tal como a ponte de acesso ao moinho de José Joaquim, agora nas mãos
da família Pimentel. Tal como essa ponte, até 1919, de pedra e cal, demolida
pela força da água, fora substituída (provisoriamente) por uma de madeira, terá
Manuel Duarte Júnior feito o mesmo? Ou terá isso já sido feito pelos seus
herdeiros ou por quem o comprou aos seus herdeiros? Não sei dizer, ainda que seja
possível que assim tenha acontecido, e tudo é possível em História, é pouco
provável que os herdeiros tivessem esperado todo esse tempo. Vender o moinho
sem ponte, era desvalorizá-lo muito. Há, porém, compradores que preferem
comprar em baixa. Sem documentos, fico por aqui. Seja o que for que tenha realmente
acontecido, em 1923/4, os herdeiros de Manuel Duarte Silva Júnior, talvez a
morarem fora da Ribeira Grande, vendem o MDS I e a ruína do MSD II a Jaime
Sousa Rocha. O MDS I, depois de passar por vários donos, seria adquirido em
1942 por Manuel Félix Vitória. Daí o nome pelo qual passou a ser conhecido
pelos mais velhos da terra? A ruína do MDS I, após também passar por vários
donos, seria adquirida em 1935 pelo cabreiro Artur Viveiros. Daí o nome Curral das Cabras do Viveiros pelo qual
é conhecido pelos mais velhos da terra?
Poço da Mãe, Mãe de Água, Cidade da Ribeira Grande
PS: 1 - Em 1998 ou em 1999, Manuel Correia
Bettencourt que comprara o moinho em 1990 ao Euclides Machado, último
proprietário que moeu naquele moinho, veio pedir-me a História daquele moinho.
Não podia fazer para já, estava envolvido na construção do Museu e no restauro
do Arcano Místico, respondi-lhe. Em Fevereiro último, o pedido de dados sobre
moinhos da arquitecta Mariana Costa, que trabalha na sua tese de mestrado,
levou-me a reler e a actualizar a minha cronologia de moinhos e daí aqui cheguei.
Cumpri a promessa ao amigo Manuel Correia Bettencourt? Amigo que já partiu. E assim
cumpri a promessa feita a mim mesmo: o Félix era meu parente. No moinho, a
minha tia mais velha, passou a sua lua-de-mel.
2 – Graças ao meu crescente interesse pelo
Monte Verde, o meu olhar sobre a ribeira Grande reacendeu-se vai para quatro a cinco
anos. É nela que a ribeira Grande desagua. Muito do que acontece de bom e de
mal a essa desditosa Praia do Monte Verde deve-se à ribeira Grande. A tendência
actual aponta para que o futuro imediato da Ribeira Grande passe pela ribeira
Grande e pela praia do Monte Verde. Estou convencido. Apesar de a ribeira ser a
alma primordial da Ribeira Grande, ela não é ainda o que poderia e deveria ser
para a Ribeira Grande. Está ainda para ali. Sobretudo da Ponte Nova para cima.
Com o potencial do troço entre esta Ponte e a de Trás Mosteiros abandonado. Bem
como o dessa última ponte à Longaia. Passando pela Mãe de Água, Um paraíso que
importa não descaracterizar.
3 - Também quero aqui deixar agradecimentos
às colegas Lucélia e Felícia pelo apoio que prontamente me prestaram em alguns
momentos da pesquisa documental. Até pela troca de impressões. Ou pelas idas
aos local, caso da Felícia.
[1] O nome moinho, hoje associado a um edifício onde se mói,
nesse texto, pode surgir aqui com significados diferentes. Nos registos das
Taxas devidas à Câmara de 1854-1857, aparecem ‘engenhos de moer cereais,’ que
será o aparelho motor, moegas, que será uma parte deste aparelho, e de situação
dos moinhos, que será o conjunto. Para efeitos de taxas municipais, são identificados
pelo número de moegas. Moegas, mós, rodas e pedras, fazem parte do aparelho
motor. Moega, a pirâmide invertida de madeira onde é posto o cereal a moer que
vai caindo na pedra (casais de mós): 2, 3 ou quatro. Ou rodas: 2, 3 ou quatro
rodas. Nas taxas de 1880 a 1886: ‘n.º de moinhos que cada casa tem.’
Significando aqui moinhos, como casal de mós, de rodas, de pedras. Nas Matrizes
Prediais (a maios antiga sobrevivente é de 1872) aparece Casa de Moinho com x
rodas ou z pedras. As Matrizes mais recentes, aparece casa de moinhos. Vou usar
aqui o termo Moinho para uma casa individual. O nome Mãe de Água também pode
surgir como Mãe da Água. Vai dar ao mesmo. Aconselho a lerem também dois
trabalhos já publicados (no blogue e no Correio dos Açores): A Levada; Resgate
da ribeira Grande.
[2] Nota de 25 de Maio de 2026: Quantos moinhos terão
existido na Mãe de Água? Seis, como vem registado nas Taxas municipais de
1856/7? Dois da levada da Condessa e quatro de ribeira? Ou cinco? Como vem
registado em outro ano. Tal facto, dirá respeito a experiências que não deram
certo? Ou o sexto moinho, pertencia à Longaia? Para já, não tenho resposta. O I
e II, é nossa convenção. Aliás, depois de 1942, o I passou a ser conhecido por
Moinho do Félix. E o II, no século XX, passou a ser identificado como Curral
das Cabras. Nota de 11 de Junho de 2026: Tendo em conta as Matrizes Prediais,
para já, vou considerar (enquanto não se encontra nova prova) a existência de
quatro moinhos de ribeira na Mãe de Água: o que foi arrasado pela cheia de 9 de
Agosto de 1919, o da Caroucha o MDS II (que em 1919 ná não trabalhava) e o Cova
I (de Manuel Pedro de Melo e Silva, como irei tratar em próximos trabalhos).
[3] BPARPD, Escritura de
contrato de sociedade entre Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus e
Manuel Duarte Silva, sobre uns moinhos ou engenhos que pretendem edificar, 29
de Outubro de 1833, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho,
30-04-1833/ 14-10-1834, L 145, M 24, fls. 29-30 v.
[4] Tanto quanto consegui apurar, Bajana ‘ não possui um significado dicionarizado
comum, sendo muitas vezes um nome raro, regional ou uma variação de outro nome,
sendo mais popular como sobrenome em países como Itália, Estados Unidos,
Equador e Espanha. Como substantivo, pode ser o feminino de "bajano."
Di-lo o Google. Seria pois o nome de alguém.
[5] BPARPD, Crime,
Ribeira Grande, Tribunal da Comarca, Maço 3., N.º 132, 1835, Carta de Antóno
Bernardo da Costa Cabral a (…), Ribeira Grande, 24 de Abril de 1835, fls 2 – 2
v.; BPARPD, Crime, Ribeira
Grande, Tribunal da Comarca, Maço 3., N.º 132, 1835, Ribeira Grande, 25 de
Abril de 1835, fl. 5.; BPARPD, Crime, Ribeira Grande, Maço 3, N.º 132, 10 de
Junho de 1835, fls. 114-114 v.
[6] Com a
possibilidade de terem sido seis moinhos e dezasseis mós. Fica a dúvida? Os
registos das raxas pagas à Câmara, com uma solitária excepção, localizam três
moinhos na Longaia. As Matrizes Prediais, colocam-no na Mãe de Água. SE formos
pelo registo das Taxas, a mãe de Água terá tido dois moinhos da levada da
Condessa e três moinhos de ribeira. Podem ter sido até quatro. Nota de 8 de
Junho de 2026 (tirei a dúvida): (1.º moinho da Mãe de Água, de montante para
jusante) Cf. AMRG, Matriz Predial, Rústica, Matriz, 1-1255, Volume 37, 1247 (3
mós); AMRG, Matriz Predial, Urbano, Matriz – Ribeirinha, 931-1407, Volume 37,
1156; (segundo: Carocha) AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1-1255, Volume 31, 1241;
AMRG, Matriz Predial Urbana, Matriz-Ribeirinha, 931-1407, Volume 37, 1154;
(terceiro moinho) Manuel Duarte Silva (I) AMRG, Matriz Predial, Rústica,
1-1255, 1238; AMRG, Matriz Predial, Urbano, Matriz e Ribeirinha, Volume 37,
931-1407, 1153; (Quarto: Cova I) AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia
Matriz, 1 – 1255, volume 31, 1235; AMRG, Matriz Predial Urbano, Freguesia
Matriz-Ribeirinha, 1 – 1255, volume 37, 1407, 1152; Primeiro da Levada da
Condessa (Pimentel/Correia) cf AMRG,
Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, artigos 1-1235, vol. 31, 1242; AMRG,
Matriz Predial Urbana, Freguesia Matriz/Ribeirinha, artigos 931-1407, vol. 37,
1152; A Estrela Oriental, 23 de Novembro de 1884; Segundo da Levada da
Condessa (Félix/Manuel Duarte Silva I) Cf. AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa Senhora da
Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62, 10 de Maio de 1871, 872; AMRG, Predial, Rústico, Conceição,
Volume 60, 1-1239, 1151; AMRG, Matriz Predial, Urbano, Conceição, 445-677, 659.
Sete ou oito mós para os dois da Levada da Condessa; nove para três dos de
ribeira, mais duas para outro moinho de ribeira.
[7] Porquê o talvez? Porque foi uma área cujos limites,
antes da fixação cartográfica, dependem da memória e do impacto das cheias da
ribeira. Em 1885 e 1886, o escrivão da Câmara inclui esse quarto moinho que a
cheia arrasou (AMRG, Livro de Licenças
para moinhos 1880-1886, 1881). As Matrizes
Prediais colocam-no o que desapareceu na Mãe de Água. Que aliás, segundo estas
mesmas quase que chega à mão dos moinhos da Levada da Condessa. A narrativa da
cheia localiza-o com precisão, incluindo-o na Mãe de Água. Inclusive, a
localização da mão dos moinhos da Levada da Condessa.
[8] No plural, talvez porque para os locais havia ali dois
mosteiros: o das freiras e o dos frades, do outro lado da rua.
[9] Ao longo do seu percurso, a ribeira Grande vai ganhando
os nomes das áreas por onde passa: Longaia; Mãe de Água; Escarola; Ponte Nova;
Ribeira de Baixo e de Cima, Cova de Milho. BPARPD, Tablionato Ribeira Grande,
Contrato de sociedade para construir moinhos na Longaia entre António da Silva, Manuel Cabral de Melo,
António Lopes Cabral e o Capitão José
Duarte Pacheco da Silva, 23
Novembro de 1822, António José da Ponte, Lv. 131, M 21, fls. 42v-43v;
BPARPD, Tablionato Ribeira Grande, Contrato de sociedade para construir moinhos
na Longaia entre Francisco Vieira
Carneiro, Manuel Cabral de Melo e António Lopes Cabral, 4 de Dezembro de
1822, António José da Ponte, L 131, M 21, fls. 48-49.
[10] Mão ou Mãe com o significado de represa onde se capta a água para entrar na levada. Pelas Matrizes Prediais, é possível que a Mão da levada do Condessa ainda ficasse dentro da área Tondela, um pouco acima do limite Sul da Mãe de Água.
[11] Nota de 1 de Junho de 2026: No ano económico de
1854/1855, além do moinho de Manuel Duarte Silva, há já de certeza um segundo
moinho das segundas casas da Condessa na Mãe de Água. Que devia já existir
antes de Outubro de 1848. Porque o digo? A ponte destruída de João de Almeida
só pode ter sido a ponte que levava ao moinho de que le era dono mais D.
Autora. Talvez numa parceria nos moldes da tentada entre Manuel Duarte Silva e
Cândido Oliveira. Terá sido Manuel Duarte Silva a seuir o exemplo ou foi antes
o contrário? ‘Estragos causados por chuvas torrenciais no concelho da Ribeira
Grande. (…)A ponte de João de Almeida [que dava acesso ao seu moinho], na Mãe d’
Água (sic) foi aniquilada, e muitos muros derribados, e bastantes terrenos
alagados. Na Longaia, os moinhos do mesmo João de Almeida foram destruídos
(…).’ [Terceiro da Longaia]Açoriano Oriental, 7 Out. 1848. Ano económico de
1854/1855: Mãe de Água, D. Maria
Aurora da Piedade e João Jacinto de Almeida, Matriz, 3 [Pimentel]; Cf.
AMRG, Contribuição dos Moinhos 1854 – 1857, 1854/1855, fls.1 v- 4 ;
1856/1857: D. Maria Aurora da Piedade e João Jacinto de Almeida, Matriz,
3 [Pimentel], 3, CONDESSA ; 1880 (AMRG, Livro de Licenças
para moinhos 1880-1886) - [Moinho da Mãe d’Água/Correia] José Joaquim de Melo
Teixeira – tem outro na Longaia – 3 pedras.
[12]AMRG, Vereação de 19 de Abril de 1834, fl. 187 v.: ‘1833 (19 de Abril) ‘(Presidente: José
Maria da Câmara Vasconcelos) Nesta
Vereação pelo Procurador Fiscal foi requerido que a bem da ordem do público se
devia dar as providências sobre a grande porção de água que o rendeiro dos
moinhos do Conde introduz no rego a ponto de inundar as ruas públicas, e bem
assim ficando outros muitos moinhos de
diversos particulares sem exercício algum para servir o público por toda a
água ser dirigida para os ditos moinhos do Conde, sendo com excesso e
abundância coligindo-se ser motivado este dano pelo rendeiro.’
[13] Segundo os que pagavam taxa à Câmara por moeda em
1856/7. O que iria variar.
[14] É o caso do
moinho de Manuel Pedro de melo e Silva. É o caso de Manuel Duarte Silva (MDS
II).
[15] No caso da Mãe
de Água, é isso que acontece: MDS I e II, Manuel Pedro de Melo e Silva (Cova
I); o segundo moinho da levada da Condessa; o Caroucha. Ao longo da levada da
Condessa: Guido; Alfinete; Outeiro dos Lagos (Couros). Pelo menos esses. Meus
conhecidos. De ribeira: Velha; pelo menos.
[16] Primeira posição: Ponta Delgada, segunda: Lagoa.
[17] Havia um constrangimento (aperto) devido a uma sineira que então havia na ermida d Espírito Santo que foi removida na década de quarenta.
[18] ‘Cedendo-lhe para esta se realizar, a planta do terreno
que necessário for.’
[19] ‘(…) que pelo
presente instrumento, poderá fiscalizar e administrar como coisa sua, que o
seja sendo para ele contratado e os que lhe sucederem lucrarem enquanto o mundo
durar, porque desde já os
contratantes cedem todo o direito e domínio que tinham ou podiam ter nessas
duas partes da mesma obra. Como também da planta do terreiro que necessário for
e do rendimento correspondentes às ditas duas partes dos mesmos engenhos.
[20] BPARPD, Escritura de contrato de sociedade entre Cândido
de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus e Manuel Duarte Silva, sobre uns
moinhos ou engenhos que pretendem edificar, 29 de Outubro de 1833, Tabelionato
Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho, 30-04-1833/ 14-10-1834, L 145, M
24, fls. 29-30 v.
[21] BPARPD, Permuta que
faz Cândido José de Oliveira e sua mulher Teresa de Jesus Com Manuel Duarte
Silva todos desta Vila, 18 de Agosto de
1835, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho, 14-11-1834/
13-10-1835, L 146, M 24, fls. 115v-117v.
[22] Nota de 24 de Maio de 2026. A partir deste ponto, vou
reformular o que publiquei a 3 de Maio no Correio dos Açores. Na sexta, dia 22,
voltei de novo às Matrizes Prediais e consegui encontrar o elo que faltava.
Como lá cheguei? Alarguei a pesquisa a Matrizes antes e depois. Pesquisei nas
Urbanas e nas Rústicas. E confirmei a localização do moinho de 2 pedras de
Manuel Pedro Silva na margem direita. Onde ele possuía terrenos. Portanto, vou
adaptar a minha interpretação a este novo facto. Quem queira perceber a mudança,
pode cotejar o que saiu no referido jornal com o que aqui passo a dizer.
[23] Moinhos no sentido de rodas, casais de mós, moegas.
[24] E assegurou-se que ficava com todos os direitos
presentes e futuros.
[25]Após uma arreliante travessia no deserto de dezanove sem
provas, os anos 1854 e 1856/57 (Aleluia) oferecem-nos provas sólidas.
[26]
BPARPD/FAM/RG/13/329, Requerimento em nome do Conde da Ribeira Grande de
certidão do primeiro lançamento da décima sobre os moinhos – Luís Francisco
Serpa da Vila da Ribeira Grande e Certidão pública passada pelo tabelião
António Borges da Silva, Ponta Delgada, 28 de Outubro de 1844: ‘(…) que o primeiro lançamento de Décima sobre os
moinhos do suplicante da Petição (o Conde, mas deveria aplicar-se a todos os
mais) supra foi no ano económico de 1841, o qual é do teor seguinte. Número
1015. O Conde da Ribeira Grande por oito moinhos arrendados (…).’
[27] Para entrar dentro do que se passou, aconselho, entre outras consultas, a consultar, Supico, Francisco Maria, As Escavações, Volume I, pp. 78-83.
[28] Açoriano
Oriental, 26 de Abril de 1835. Cf. Escavações, p. 78.
[29] BPARPD, Crime,
Tribunal da Comarca da Ribeira Grande, Maço 3, fl. 146 (p.2 v.)
[30] No Maço 3 que
tenho citado, por exemplo.
[31] Creio haver todo o interesse e pertinência em aprofundar o tema. Entretanto, existem provas fortes desse ressentimento para 1852 (ano da tentativa gora de elevação a Vila da Ribeira Grande a Cidade) e sobretudo a partir desta data. Antes de 1852, há indícios, contudo, é necessário ir mais longe nas provas. Em 1820, no advento do vintismo, talvez como prémio de consolação, o concelho cresceu para Nascente com a entrada do Porto Formoso e da Maia (ia até à Lomba da Maia). Em 1839, ainda com este propósito de dar alguma coisa à Ribeira Grande, Os Fenais entraram no Concelho. Isso, enquanto Ponta Delgada, ia acumulando novas estruturas de poder. Que iam desequilibrando o equilíbrio de poder dentro da ilha. Que compreendia Vila Franca, Ribeira Grande e Ponta Delgada.
[32] Seria útil um trabalho mais aprofundado sobre esse período?
[33] Nota de 12 de Junho de 2026: pesquisando os Róis de Confessados da Matriz e da Conceição do ano de 1835, de facto, não encontrei Manuel Duarte Silva.
[34] Róis Quaresmais
(1835 e 1836), Rua do Valverde, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Ribeira
Grande.
[35] Nota partilhada,
ontem, Domingo, 14 de Junho, por José Câmara. Em troca deu-lhe outros dados. BPARPD,
Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, 1832-1860, Manuel Duarte Silva e Luzia
Helena, 17 de Janeiro de 1842, fl. 96.
[36] Nota de José
Câmara. BPARPD, Casamentos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1823-1860, José
António Ferreira Cabido e D. Margarida Tomásia, 15 de Agosto de 1859, fl. 87;
BPARPD, Baptismos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1801-1806, nasceu a 15
de Fevereiro de 1804, f. 103 v.
[37] BPARPD, Baptismos, Matriz da Estrela,
Ribeira Grande, Luzia Helena, 30 de Maio de 1802, fl. 35.
[38] O genealogista João Luís Silva Tavares aponta para cerca
de 1841 o seu casamento. No entanto, pesquisei nos casamentos da Matriz e da
Conceição e nada encontrei; BPARPD, Baptismos, Matriz de Nossa Senhora da
Estrela, 1844-1846, liv. 47, Manuel Duarte Silva Júnior, 22 de Setembro de
1845, fl. 120: 1845 (16 de Agosto). ‘Manuel
[Duarte Silva Júnior] filho de Manuel Duarte Silva e de D. Helena Luzia nasceu
a 16 de Agosto de 1845 e foi baptizado no dia 22 de Setembro de 1845. Avós
paternos: Veríssimo [no óbito do pai = Virgínio] José Tavares e Teresa Jacinta
Leonor; Maternos. José Francisco Ferreira e Josefa Inácia de Gouveia. Açoriano
Oriental, 7 de Outubro de 1848: ‘(…) Na Longaia, área a Sul, ‘os moinhos do mesmo João de Almeida foram
destruídos (…).’ Além disso, em 1848, sabe-se por uma nota de jornal acerca
de estragos causados por chuvas torrenciais, ‘(…) a ponte de João de Almeida, na Mãe de Água foi aniquilada, e bastantes
terrenos alagados.’ Se já havia então um ou mais moinhos de Manuel Duarte,
o que, apesar da inexistência de provas, insisto, não nos parece improvável,
nada lhes terá acontecido.
[39] Pirâmide invertida em madeira, na qual se ‘carrega’ o
cereal a moer. Cereal que através da calha vai caindo no olho da pedra das mós.
[40] Equivalia a uma casa com moegas ou mós. Moega, já agora,
corresponde à peça onde é vazado o cereal que vai caindo nas mós. Ali, na Mãe e
Água, nesse mesmo ano de 1856/7, vemos mais três moinhos. São de ribeira.
Quais? O da Carocha? O da Cova I? E o do Curral das Cabras? Não sei.
[41] Mário Moura, observação de 31 de Março de 2026. Em 1986,
pela primeira vez examinei com atenção, e pela última já em 2026, confirmei que
‘a vala Nova fica a nascente da velha
(margem esquerda da ribeira). Entre a Velha e a Nova há uma distância
sensivelmente de 2, 10m. Situando-se a Velha a c. de 2 metros abaixo do nível
da nova. Faz uma curva a c. 80/100 Metros dos Cubos.’
[42] [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens
Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista
Micaelense, Novembro de 1919, p. 575. Em Novembro de 1919, já era. Num trabalho
bastante detalhado sobre o impacto da cheia de 9 de Agosto na Ribeira Grande,
em geral, e na Mãe de Água, em particular, publicado na Revista Micaelense, esse moinho já com três rodas (ou três moegas),
a terceira surge entre 1857 e 1871, estava ‘edificado contra a vertente da margem
esquerda da ribeira a 180 metros da ponte.’
[43] Não há provas, porém, pode ter tido um quarta moega.
[44] Nota já de 3 de Maio de 2026: Não será este o tal moinho
que alguns falam? O tal de Curral das Cabras? Todos os que me falaram dele,
apontam para um local vago entre o do Caroucha e o da Cova I. A ribeira, em
1919, destrui-o ou danificou-o. A ruína ainda se via ali por mais algum tempo.
[45] In Mário Moura, 1986, Levantamento dos moinhos da
ribeira Grande. Testemunhos de 23 /9/1986: de Manuel Correia (Moinho da Mãe de
Água), confirmando-me uma suspeita levantada pelo Sr. Faustino, homem de trinta
e poucos anos, auxiliar de Educação da Escola Preparatória Gaspar Frutuoso,
parente do cabreiro, Sr. Artur Viveiros, morador nos Foros, cerca de setenta e
tal anos, a trabalhar com o Carlos Barata, viu pedras de Moinho no local, e
alicerces do mesmo.
[46] Quarta-feira passado, dia, 27 de Maio de 2026, fui ao
local acompanhado pela minha colega Felicia (moradora na Mãe de Água). Fui um
regresso após quarenta anos de intervalo. Confirmei restos da escada de pedra
para a parte superior do cubo. Confirmei um cubo. Haveria outro a nascente (se
calhar). Encostado ao muro de pedra actual.
[47] Série que se destinava à lixeira e que salvei ‘in extremis.’ Que passei serões atrás de
serões a juntar folhas. Oficialmente, foi depositada. Para salvar a face da
instituição. Em 2023, denunciei isso no Diário dos Açores. Quem queira lê-lo,
pode lê-lo no Blogue do Mário (Peco-a-palavra).
[48] AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1-1255, volume 31, 1239: ‘Um pomar de laranjeiras que confronta Norte:
o proprietário [Manuel Duarte Silva];
Sul: servidão; Nascente: caminho e Poente: ribeira Grande.’ Antes de 1924
era de Manuel Duarte Silva, em 1923 é de José Bento da Rocha, em 1924 de Jaime
Soares Rocha, em 1932 de Laurinda e Isabel Faria Carvalho, em 1935 é de Dinis
Augusto Viveiros. Artur Viveiros, o tal do Curral das Cabras é da família. Em
1974 é de Eduardo Borges Gouveia. Homem dos moinhos. Emigrou e regressou. Que
conheci a morar numa casa que lá construiu. Na altura que inspeccionei o local.
Hoje é de Ralf Holzer, cunhado de Thomas Kettenbaum. Está arrendada. Que o
vendem em 1923 a José Bento da Rocha. Em 1924 passa para Jaime Soares Rocha, em
1932, é de Laurinda e Isabel Faria Carvalho, para, em 1935 ser de Dinis Augusto
Viveiros.
[49] AMRG, Matriz Predial Rústica, Matriz da Estrela, 1-1255,
volume 31, 1237: o proprietário actual é Dídio Ponte. Sei que este prédio
confronta a Sul o de Ralf Holzer, portanto, o prédio de Manuel Duarte Silva. O
de laranjeiras que confrontava o MDS II. Portanto, na margem Direita. AMRG,
Matriz Predial Rústica, Matriz da Estrela, 1-1255, volume 31, 1240; AMRG,
Matriz Predial Rústica, Matriz da Estrela, 1-1255, volume 31, 1240. AMRG,
Matriz Predial Rústica, Matriz da Estrela, 1-1255, volume 31, 1242: O MDS I
ficava na margem direita ou na esquerda? Na direita. Na margem oposta à do MDS
(I). Como se prova pelos mencionados dois artigos (1238 e 1239). E para tirar
quaisquer dúvidas, vamos analisar a descrição dos prédios que o confrontam a
Norte e a Sul (na margem direita). A Norte: vejamos o artigo N.º 1237: ‘Um pomar de laranjeiras que confronta Norte
Manuel Pedro de Melo e Silva; Sul: Manuel Duarte Silva, Nascente: caminho e
Poente: ribeira Grande (…).’ A Sul,
o 1240, não menciona Manuel Duarte Silva mas (sem sombra de dúvidas) é o prédio
que se segue a ele: ‘Um pomar de laranjeiras
que confronta a Norte e Poente: ribeira Grande; Sul: Servidão; Nascente:
caminho (…).’ E o seguinte, é o 1241, o moinho do Caroucha, sempre na
margem direita: ‘Uma casa de moinho com
três rodas de moer cereais à força da água que confronta Norte: Servidão; Sul:
Manuel de Oliveira; Nascente: caminho e Poente: ribeira Grande (…).’
[50]AMRG, Matriz Predial Rústica, Matriz, Artigos 1 – 1255,
volume 31, 1236, 1237, 1240, 1241, 1242, 1247; AMRG, Matriz Predial Urbana,
Matriz e Ribeirinha, Artigos 931 – 1407, volume 37, 1153, 1154, 1155, 1156.
Pelos artigos 1235, 1152, 1060, 1236, 1237 e 1238, das Matrizes Prediais
Rústicas da Freguesia Matriz de Nossa Senhora da Estrela, e do artigo 1153, da
Matriz Predial Urbana, da Freguesia Matriz da Estrela e Ribeirinha, antes de
ser feita Freguesia independente. Quatro prédios a Sul do moinho de Manuel Pedro
de Melo e Silva (ao qual, em 1986, convencionei dar o nome do Cova I). A
seguir, a este prédio, um novo prédio do dono anterior, depois, outro, e
finalmente, o de Manuel Duarte Silva, no qual se encontrava o seu moinho de
duas pedras (mais tarde Curral das Cabras).
[51] AMRG, Matriz Predial Rústica, Matriz da Estrela, 1-1255,
volume 31, 1238.
[52] AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1-1255, volume 31, 1239: ‘Um pomar de laranjeiras que confronta Norte:
o proprietário [Manuel Duarte Silva];
Sul: servidão; Nascente: caminho e Poente: ribeira Grande.’ Antes de 1924
era de Manuel Duarte Silva, em 1923 é de José Bento da Rocha, em 1924 de Jaime
Soares Rocha, em 1932 de Laurinda e Isabel Faria Carvalho, em 1935 é de Dinis
Augusto Viveiros. Artur Viveiros, o tal do Curral das Cabras é da família. Em
1974 é de Eduardo Borges Gouveia. Homem dos moinhos. Emigrou e regressou. Que
conheci a morar numa casa que lá construiu. Na altura que inspeccionei o local.
Hoje é de Ralf Holzer, cunhado de Thomas Kettenbaum. Está arrendada.
[53] Em que me apoio
para lançar hipóteses? Na observação atenta de outros moinhos.
[54] Em conversa com o Presidente actual da Junta de
Freguesia Ribeira Grande – Matriz, ontem, dia 28 de Maio de 2026, André
Mendonça, é possível que nos seja disponibilizado um piquete de trabalhadores
da Junta para procederem a uma limpeza da área. Vou aguardar.
[55] São Miguel, 13 de Janeiro de 1906; Ezequiel Moreira da Silva, A catástrofe de Sábado, Ecos do Norte,
16 de Agosto de 1919, pp. 1-2.
[56] O Norte, 28 de Setembro de 1895, p. 2
[57] Ainda não sei o que se passa com o Cova I.
[58]Estou contando lá
ir com quem me possa cortar canaviais.
[59] Meras conjecturas plausíveis, não a verdade do que terá
sido.
[60] Não se podia construir no prédio das Berquós porque o
moinho desse prédio foi feito no seu limite poente. Junto à canada das Gibas.
[61] Com a construção da ponte encostada ao arco das Freiras
na década de cinquenta, eventualmente, poder-se-ia aceder por ela.
[62] Exemplo do Guido.
[63] AMRG, Matriz Predial, Urbana, Conceição, artigos 1-703,
volume N.º 65.
[64] Uma vista de olhos à estrutura actual, permite pensar
que a casa das três mós e a de residência anexa, foram fruto de uma campanha de
obras próxima temporalmente. O recurso a blocos de pedra, o recurso ao barro
(mescla) apontam também para o século XIX.
[65] Sabemos que os últimos moleiros, já na década de oitenta
do século XX, apesar de aproveitarem o espaço, não moravam lá. Como sabemos que
em 1919, havia pelo menos que carregava as moegas e ia morar na sua casa em
Trás os Mosteiros. A quinhentos metros do moinho, mais ou menos.
[66] Ezequiel Moreira da Silva, A
catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2. Temos prova disso para 1919: ‘Os moleiros desse moinho e dos outros próximos, e suas famílias, que
nos mesmos moravam, salvaram-se a muito
custo, fugindo uns pelos quintais e
trepando outros pelas barreiras; afim de escaparem à corrente, transformada num
mar revolto de encapeladas vagas.’
[67] O último moleiro, fazia-o.
[68] O Noticiarista, Ribeira Grande, 14 de Maio de 1884
[69] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa Senhora da
Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62, 10 de Maio de 1871, 872 ; AMRG, Rústica, Freguesia da Conceição, Artigos 1-1329,
Volume n.º 60; a Matriz Predial de finais do século XIX, inícios do seguinte,
confirma a descrição de 1871: ‘1151. Uma
casa com três rodas (…) que confronta Norte: D. Maria Ana Fisher Berquó; Sul e
Poente: Manuel Duarte Silva e Nascente: ribeira.’
[70] BPARPD, Casamentos, São Pedro, Ribeira Seca, Ribeira
Grande, Manuel Duarte da Silva Júnior e Dona Maria José Ferreira Cabido, 24 de
Novembro de 1869, fls. 7 – 7 v.: 1869
(24 de Novembro) – Ele, 28 anos, vivendo em casa dos pais, solteiro,
natural e baptizado na Matriz da Estrela. Ela, 20 anos, solteira, moradora e
baptizada na Matriz da Estrela. Filha natural de José António Ferreira Cabido.
De mãe desconhecida. Testemunhas: Reverendo Presbítero José Caetano Dias,
morador na Matriz, e José de Medeiros Garcia, morador na freguesia de São
Sebastião da Cidade de Ponta Delgada.
[71] AMRG, Róis de Confissão, Matriz da Estrela, 1872.
[72] Terá sido a
série que sobreviveu entre a de 1854/7? Ou deixou de se pagar taxa naquele
período? Havia contestação às taxas. Isso sabe-se. Por exemplo, em 1855: AMRG,
Requerimentos de 1854-57 ‘1855 (30 de
Abril) ‘30 Abril de 1855 – Manuel Soares e outros proprietários de moinhos
desta Vila – Conceição – pedindo a eliminação da contribuição e a revogação da
postura que a estabeleceu – Indeferido.’ Foi indeferido. Mas a discussão
continuou. Já que se pagava taxa, que os moinhos da levada da Condessa, por
serem melhor servidos de água, que pagassem mais do que os outros que moíam com
água da ribeira Grande: AMRG, Vereação de 24 de Maio de 1855: ‘Finalmente, que
as moegas dos moinhos que trabalham pela força das águas que vem encanada desde
o sítio da Mãe de Água até ao mar em que a Câmara lhes concede licença (…) que
aqueles estabelecimentos percebem maiores lucros, em atenção a terem sempre
água perene (…) e que as moegas dos engenhos que trabalham com a água acréscimo
da ribeira Grande (…).’ AMRG,
Livro de Posturas - 14 de Abril de 1796, Cópia da Postura Reformada sobre
Moinhos deste Concelho, 6 de Abril de 1857, [folha 101]. E durante um
ano assim foi. Que continuou até 1857. E depois? Não há registos sobreviventes.
E daí? Só em 1880? Essa taxa foi estabelecida ainda na década de 70, ‘Taxa paga de acordo com uma
deliberação de Novembro de 1870,’ mas foi posta em prática apenas em
1880. Porquê? Foi contestada. Em Julho de 1871, A Estrela Oriental, Ribeira
Grande, 14 de Julho de 1871: 1871: - ‘Moinhos.
Taxas. ‘De taxa pela concessão de águas derivadas das ribeiras públicas para
engenhos de moer cereais (média?) (D) – 237$025. (D) Por cada engenho de moer
cereais pela força das águas do domínio público a cargo da Câmara e que vem
encanadas; Na Mãe de Água – 2$000; Desde a canada das Gibas até à praia do mar
2$500; Dito das que não são encanadas situadas na Longaia e nesta Vila 1$500;
Dito sendo situado na Mãe de Água até ao arco das Freiras 1$200; Dito situado
na Ribeirinha 1$500; Dito situado nas Gramas, longo do mar, Porto Formoso,
Maia, Lomba da Maia e Fenais da Ajuda 1$200. Seria uma enormidade. Em 1880,
cada moinho (casal de mós) pagava por igual $350. Em 1885, a situação muda,
passa para $600. Aumento significativo. Em 1886, último ano da série, o MDS II
paga 350. O mesmo que as casas piores. O MDS I, paga por 3 moinhos, 1050.
Demorou dez anos a implementá-lo. Depreende-se daqui que tenha havido
resistência entre 1857 e 1870. Daí o intervalo?
[73] Taxa paga de acordo com uma deliberação de Novembro de
1870 sobre o número de moinhos (aqui no sentido de mós) que cada casa dispunha.
[74] Moinho aqui equivale a casal de mós com o aparelho motor. Cada desses moinhos era servido por uma moega, recipiente onde se ia colocando o cereal que ia caindo no olho da pedra e nas mós.
[75] Na Mãe de Água, na levada do Conde, além do moinho (de
três rodas) de Manuel Duarte, vemos, pela primeira vez, os três moinhos (dentro
de uma casa) de José Joaquim de Melo Teixeira. Em 1871, não existiam. Porquê a
dúvida? Porque a taxa é idêntica para os cinco casais de mós, tornando-se
impossível distinguir quem tira água da levada do Conde e quem tira da ribeira.
Situação que se mantém até 1886. Em 1880, paga os casais de ambos.Em
1881, paga somente pelos dois casais de mós do MDS II. Em 1882, volta a pagar
pelas mós dos dois moinhos (o I e o II). Em 1883, 1884 e 1885, paga apenas
pelas duas mós do moinho MDS II. Em 1886, paga pelas mós de ambos.
[76] BPARPD, Óbitos,
Nossa Senhora da Estrela, Luzia Helena, 1 de Novembro de 1868, fl. 37.
[77] BPARPD, Casamentos, São Pedro, Ribeira Seca, 24 de Novembro de 1869.
[78] Nota de 29 de Maio de 2026: AMRG, Róis de Confessados,
Matriz da Estrela, 1880: n.º 909 e n.º 1143.
[79] Dezembro de 1884 - ‘Moinhos. Anúncio. Manuel Duarte Silva arrenda os seus
moinhos situados à Mãe de Água.’ O Noticiarista, Ribeira
Grande, 3 de Dezembro de 1884. Naquela mesma
altura, os moinhos do Guido e o de Joaquim Melo estavam à venda.
[80] Suspeito que esse moinho vinha já de João Jacinto de Almeida e de Dona Aurora da Piedade, como conto entrar em maior prova quando tratar desse moinho.
[81] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, artigos
1-1235, vol. 31, 1242: 1901 – António Raposo Pimentel - Matriz
[82] [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens
Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista
Micaelense, Novembro de 1919, p. 575
[83] BPARPD, Baptismos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela,
Manuel, filho de José Joaquim de Melo Teixeira e de Maria Paulina de Frias
Gouveia, 6 de Janeiro de 1866, 1866, fls 1 v. -2.
[84] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, artigos
1-1235, vol. 31, 1242: José Joaquim de Melo Teixeira – Matriz, Rua das
Pedras; Maria Paulina de Frias Teixeira e filhos e …; 1901 – António
Raposo Pimentel – Matriz.’
[85]A Estrela Oriental, Ribeira Grande, 27 de Julho de 1883.
[86] A Estrela Oriental, Ribeira Grande, 23 de Novembro de 1884.
[87] AMRG, Róis de
Confessados da Matriz da Estrela, 1882.
[88] BPARPD, Óbitos,
Matriz de Nossa Senhora da Estrela, José Joaquim de Melo Teixeira, 13 de Julho
de 1885, 1885, N.º 78, fl. 27.
[89] Houve estufas no Pico da Pedra e na zona da própria Vila. Encontram-se vestígios vários. Por exemplo, no Rosário e na Avenida Luís de Camões.
[90] O Noticiarista, Ribeira Grande, 3 de Dezembro de 1884.
[91] O Noticiarista, Ribeira Grande, 14 de Maio de 1884.
[92] BPARPD, Óbitos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela,
Manuel Duarte Silva, 3 de Julho de 1885, fl. 26: 1885 (3 de Julho) [1795? Nascimento] Manuel Duarte Silva Sénior [morador da rua de São Vicente],
proprietário, de 90 anos de idade, viúvo de Luzia Helena, natural e morador
nesta freguesia de Nossa Senhora da Estrela, faleceu com todos os sacramentos,
a 3 de Julho de 1885. Sepultado no cemitério público. Não fez testamento. Pais.
Virgínio José Tavares, natural da Conceição. E Teresa Leonor, natural da Matriz
de Nossa Senhora da Estrela.
[93] AMRG, Róis de Confessados, Matriz da Estrela, 1887: não
consta da rua da Bica nem da de São Vicente.
[94] Ezequiel Moreira da Silva, A
catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, Ribeira Grande, 16 de Agosto de 1919,
pp. 1-2.
[95] Ezequiel Moreira da Silva, A
catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, Ribeira Grande, 16 de Agosto de 1919,
pp. 1-2.
[96] [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva? Imagens
Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista
Micaelense, Novembro de 1919, p. 575.
[97] Ezequiel Moreira da Silva, A
catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2 ; [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens
Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista
Micaelense, Novembro de 1919, p. 575: Em Novembro, cheira-me que com a colaboração de Ezequiel,
a Revista Micaelense, acrescenta um novo
pormenor (o moinho de três rodas): ‘(…) cuja fachada caiu toda deixando-nos ver o interior
como numa cena de teatro (…) [referir-se-à ao moinho de duas pedras].’
[98] Em 1833, teria (convertendo grandezas) pouco mais de
3000 metros quadrados. Aqui: AMRG, Matriz Predial, Urbana, Conceição, artigos
1-703, volume N.º 65: ‘Uma casa de morada
com superfície coberta de 120 m2 e 1000 m2 de baldios, 2 andares, 1.º com 1
divisão com 3 rodas para moer cereais movidas à força de água; 2.º, com 4
divisões para habitação e 1 dependência com superfície coberta de 20 m2 (…). ’
Actualmente, veja https://cadastro.azores.gov.pt/Cadastro.aspx. A propriedade foi sendo acrescentada? Reduzida em
partes também. Só em 1993, conforme registos prediais, é que Manuel Correia
Bettencourt adquire uma mata (e anexa ao último prédio) de 7 100 m2. Que
entra em ambas as margens até à cascata da ribeira da Pernada. Pelo que,
mantinha-se os tais 1000 m2 de quintal mais um pouco mais de casa e moinho que
foram comprados em 1990 ao mesmo Bettencourt. Que já os terá adquirido a
Euclides Machado. Quando é que Euclides o compra à família Félix Pascoal? Em
1986 já era de Euclides Machado. Disse-me ele em entrevistas que então lhe fiz.
[99] BPARPD, Óbitos, Ponta Delgada, 1920, Manuel Duarte Silva, 31 de Janeiro de
1920, assento N.º 42, livro 1, fl. 14 v. : 1920 (31 de Janeiro) – ‘Às 16 horas do dia 31 de Janeiro de 1920,
numa casa da rua Açoriano Oriental, desta idade, freguesia de São Sebastião,
faleceu de artéria esclerose, um indivíduo do sexo masculino de nome Manuel
Duarte Silva, de setenta e quatro anos de idade, de profissão procurador,
natural da freguesia Matriz da Vila da Ribeira Grande, domiciliado na dita rua
Açoriano Oriental, filho legítimo de Manuel Duarte Silva, natural da dita
freguesia Matriz, e de Luzia Helena Silva, natural da mesma freguesia Matriz,
já falecida. O falecido era viúvo de Maria José Cabido Silva, natural da dita
Vila da Ribeira Grande, falecida em mil novecentos e catorze. O falecido não deixou
descendentes menores, deixou bens, não deixou testamento e o seu cadáver vais
er sepultado no cemitério de São Joaquim (…).’
[100] Informação (diagnóstico) de José Manuel Cabral.
[101] O Norte, 28 de Setembro de 1895, p. 2. Poderia ter
sofrido danos com a cheia de Setembro de 1895.
[102] São Miguel, 13 de Janeiro de 1906
[103] Ponte que desapareceu na década de noventa do século
passado.




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