Os moinhos da Mãe de Água de
Manuel Duarte Silva
Essa História começa no dia 29 de
Outubro de 1833. Numa terça-feira, o tabelião Francisco Machado Coutinho foi a casa
de Manuel Duarte Silva formalizar uma ‘escritura
de contrato de sociedade entre Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus
e Manuel Duarte Silva, sobre uns moinhos ou engenhos que pretendem edificar.’[1]
Onde seria isso? Num ‘baldio sito à
Mãe de Água, onde vulgarmente se chama a Bajana desta dita Vila.’ O que é a Mãe de (ou da) Água? Para os
antigos, o que se confirma para o século XIX, era a mãe (ou a mão) que dava ou
tirava a água. Espaço entre rochas e a levada do Conde, fica no troço da
ribeira da Mãe de Água (que aí recebe também a água do seu afluente da ribeira
da Pernada). No apogeu, alimentou quinze mós em cinco moinhos. Daí o nome?
Geologicamente, é uma Cova, no
género da Cova do Milho, e das muitas Covas que vemos ao longo da ribeira
Grande. Ao tempo em que surgem os moinhos de Manuel Duarte, aí, em pequenas
courelas, algumas minúsculas, cultivava-se vinha e fruta, especialmente a
laranja. Em cada uma, em regra, havia uma pequena casa. No Outono, era local de
vindimas. No Verão e no Outono, nas tardes de Domingo, era local de visita.Onde é a Mãe de Água? A pouco mais de
um quilómetro do centro da Ribeira Grande, talvez fosse (ao tempo) do ‘Arco das Freiras,’ a Norte, ao moinho
que a cheia de 1919 levou, a Sul.[2]
Acedia-se à Mãe de (ou da) Água pela margem esquerda, através das canadas da
Palha e das Gibas, e pela da direita, através (então) da canada de
Trás-os-Mosteiros.[3]
O prédio onde a sociedade
pretendia construir moinhos, plantado de vinha e com árvores de fruta, provavelmente
com casa de apoio dentro de si, não ia (então) além dos 3000 metros quadrados. Situado
na margem esquerda da ribeira, confrontava ‘pelo
Norte com [o] pomar dos herdeiros de
Jerónimo Botelho de São Paio Arruda, Sul, ribeira da Pernada [ribeira do
Teixeira], Nascente, ribeira Grande, e
Poente com rocha e levada que se dirige ao Excelentíssimo Conde da Ribeira
Grande e com quem mais deva de partir e confrontar a dita propriedade (…).’
Porque terão escolhido aquele local? Porque, dizem-nos de forma vaga os sócios, oferecia ‘as comodidades necessárias para nele se edificarem engenhos de moerem
grão (…).’ Quais seriam? A levada dos moinhos do Conde atravessava-o (a
poente). E fazia fronteira com a ribeira Grande (a Nascente) e a ribeira da
Pernada (a Sul). O que ali viessem a fazer, tiveram o cuidado de o referir, seria
sempre ‘sem prejuízo de terceiros (…).’ Usando a água da levada do Conde ou a
das duas ribeiras, como acabariam por fazer, não prejudicaria os moinhos
seguintes. A água seguia em frente. Haverá,
a meu ver, uma razão de fundo, que não vem aí expressa. Prender-se-á com a
razão pela qual a Câmara não colocou quaisquer entraves à localização dos novos
moinhos. Tanto mais que o prédio pagava-lhe foro anual. Porque, é razoável supor-se,
a Câmara, liderada pelo liberal José Maria da Câmara Vasconcelos, pretenderia afirmar
a sua tutela não só sobre a água das ribeiras mas igualmente sobre a água da
levada do Conde, água essa que o conde ainda reclamava para si. Já em finais de
1822, haviam sido organizadas duas sociedades destinadas a construir
dois moinhos (casas com mós) na ribeira da Longaia (ribeira Grande).[4]
Num troço da ribeira ligeiramente acima da mão dos moinhos do Conde. Em Outubro
de 1833, a nova sociedade abriu (ou reforçou) um precedente: a possibilidade de
usar a água da própria levada do Conde. Nessa década de trinta e na seguinte, os
moinhos na ribeira e na levada do Conde chegariam aos vinte.[5]
No dia 29 de Outubro de 1833, para
a tarefa de construir novos moinhos, Cândido, um jornaleiro analfabeto, vivendo
‘da sua agência,’ a morar na rua do
Botelho, contrata Manuel Duarte Silva, homem de 37 anos, solteiro, que vivia de
‘seus bens.’ Teria já alguma
experiência, por certo. Manuel Duarte sabia ler e escrever. Não pertencia ao grupo
(restrito) de famílias que governara durante séculos a Vila, pertencia antes a um
grupo familiar que ascendia socialmente graças à sua iniciativa (digamos) ‘empresarial.’ Isso, após a implantação
do liberalismo. O contrato de
sociedade previa condições muito concretas. Manuel Duarte era autorizado a ‘mandar arrancar ou cortar quaisquer árvores
que [pudessem] obstar à livre
construção da indicada obra.’[6] Comprometia-se
ainda a fazer a obra à sua custa. Ficava-lhe, em contrapartida, pertencendo o ‘domínio, não só nas duas das três partes
iguais da referida obra e planta do terreno que se [viesse a] ocupar, mas também no rendimento das duas
partes dos rendimentos das duas partes dos mesmos engenhos (…).’[7]
Cândido e a esposa, ‘além do terreno que
não [fosse] preciso ocupar-se, [ficariam]
com direito a uma das ditas três partes
do rendimento e planta dos preditos engenhos (…).’ Ficando, no entanto, ‘obrigados a satisfazerem anualmente todo o
foro do dito prédio, assim como o capital e juros vencidos e por vencer a que o
referido prédio é sujeito, e igualmente a terça parte do pagamento semanal que
se fizer ao respectivo moleiro, e das mais despesas relativas à conservação e
melhoramento que se fizer depois de os ditos engenhos entrarem no uso de moer.’
A última clausula do contrato, previa ‘que
no caso de quererem eles contratantes ou contratado, vender ou alienar a parte
que lhes toca[va] nos mencionados engenhos, não o [poderiam]
fazer, sem que disso [participassem] um ao outro, porque querem prevalecer a
qualquer outro pretendente, tanto pelo tanto.’[8]
Esta última clausula, não
tardaria a ser accionada. De facto, antes de completar dois anos, a sociedade
dissolvia-se. Decorriam já as obras dos moinhos, em Agosto de 1835, Manuel
Duarte Silva troca ‘quatro alqueires de vinha e
laranjeiras com sua casa térrea de telha e lagar,’ nas Areias do Lugar de Rabo de
Peixe, que havia alcançado em hasta pública em 1833, pelo baldio ‘no sítio da Mãe de Água no lugar a que
chamam de Bajana.’[9] Como se explica a troca? Talvez Manuel
Duarte quisesse construir mais moinhos. Terá principiado, é razoável supô-lo,
pelos engenhos moendo com a água da ribeira (da Pernada). Ou das ribeiras
(daquela e da ribeira Grande). Era mais fácil. Provocara ligeiras alterações no
espaço. A dificuldade sobreveio quando quis construir, continuo a supor, aproveitar
a água da levada do Conde. Isso requeria obras estruturais. A vala nova, a
construir a nascente da velha, exigia a construção de um talude a Nascente da
Vala Velha. O que levaria à remoção de terras. Ao preenchimento de espaços. Ao
arranque de pés de vinha e de árvores de fruta. Tudo isso exigiria um
investimento bem superior ao inicialmente previsto. Porém, fazendo bem as contas,
apesar de o negócio dos moinhos ser seguro e vantajoso, não daria para ambos os
sócios. Foi essa a razão? E porque aceitou Cândido a troca? Terá preferido algo
mais seguro?[10]
Com moinhos em construção em 1835,
em que ano terminou Manuel Duarte a obra? A primeira notícia surge apenas em 1854.[11] Custa
a crer, no entanto, que não houvesse já um ou mais moinhos (moegas) a funcionar
antes de 1854. Manuel Duarte precisava de capitalizar o investimento. Era
casado desde o início da década de quarenta. Era pai desde Agosto de 1845.[12] Seja
como for, em 1854, já há quatro moinhos (moegas). Duas moegas, como veremos
para 1856/7, movidas a água da levada do Conde e duas movidas a água da ribeira
(Pernada e ou também da ribeira da Mãe de Água). A taxa paga em 1856/1857 à
Câmara por cada moega, diz-nos não só que Manuel Duarte Silva tinha quatro
moegas na Mãe de Água. Mais importante, prova-nos (sem sombra para dúvidas) que
duas dessas moegas, por pagarem 2 500 reis cada, moíam com água da levada
do Conde e que as duas restantes, por pagarem 1 500 reis cada, moíam com a
água da ribeira Grande (e ou também da Pernada).[13] Moegas
em duas casas distintas, retenha-se o facto. Que iriam evoluir de forma
diferente, como tentaremos provar.
Onde
ficaria a casa com duas moegas que moía com a água da levada do Conde? Estaria certamente junto à vala
velha, no limite poente do prédio, e próximo da rocha. Aí, construíra-se uma
vala nova, a uma cota mais alta, para dar altura aos cubos.[14] Foi
preciso erguer um talude sólido. Com nivelamento de terreno. Seria já assim no início?[15]
E
o de duas moegas que moía com água da ribeira (ou ribeiras)? Uma Matriz Predial, possivelmente de finais do século
XIX, ou já de inícios do seguinte, ressalvando a distância temporal, talvez nos
ajude a identificar essa outra casa. Confrontava: ‘Norte, ribeira Grande [pelo contrário, a Norte da que moía
com água da levada do Conde ficava um pomar]; Sul e Nascente dono [Manuel
Duarte Silva] [pelo contrário, a Nascente da que moía com água da levada do
Conde ficava a levada do Conde e a rocha] e Poente, servidão [pelo
contrário, a Nascente da que moía com água da levada do Conde, inicialmente,
ficava a ribeira. Agora havia uma servidão para o segundo moinho, o que moía
com água da ribeira].’[16]
Não poderá ser um outro moinho da Mãe de Água? Não creio, por duas razões.
Porque os outros presumíveis pretendentes, aparecem registados ao mesmo tempo
que esse nosso. Porque Manuel Duarte (fizemos pesquisa nas Matrizes Prediais)
só ali dispunha daquele prédio. Tudo, por conseguinte, até melhor prova,
aponta para que ficasse na margem esquerda, tal como o anterior, mas (em baixo)
junto à ribeira. Teria uma mão própria? Era forçoso ter. Onde? Porque o prédio
confrontava com a ribeira da Pernada, portanto, talvez fosse nessa mesma
ribeira. A levada partiria dessa mãe (mão) e atravessando o prédio uns 100/180
metros, alimentava duas moegas.[17] Estas
duas casas, construídas na margem esquerda, voltadas a Norte, talvez já desde o
início, talvez resultado de adaptação de uma casa de apoio já ali existente,
muito comum por ali, eram acessíveis pelo caminho que vinha da canada da Palha
(hoje Condes da Ribeira Grande) e das Gibas (hoje rua do Berquó).[18]
Com
os poucos dados de que dispomos, vamos tentar uma reconstituição plausível do
espaço?[19] Essas duas casas, para melhor aproveitarem
a água, a distância da captação aos cubos, para melhor gerirem a unidade de
produção, o mesmo moleiro e família acudiriam mais facilmente a ambas as casas,
para facilitar o acesso à ‘freguesia,’ foram construídas no limite Norte do prédio
de Manuel Duarte Silva. A casa que moía com a água da levada, porém, situava-se
(como se vê ainda) a uma cota elevada a 10-12 metros acima da que moía com a
água da ribeira. Ficariam, no entanto, pelas razões atrás referidas, próximas (diria
mesmo muito próximas) uma da outra, talvez apenas separadas pela servidão comum.[20] Uma
das casas moeria trigo. A outra moeria milho.[21]
Manuel Duarte, entre 1857 e 1871, oferece cinco rodas (moegas). Era o máximo da
Ribeira Grande. Tinha água segura de duas ribeiras e da levada do Conde.
Associados a essas
duas casas, haveria outros espaços construídos. Certamente haveria uma casa para
alojar o moleiro e a sua família: ‘Uma
casa de morada com superfície coberta de 120 m2 (…) com 4 divisões para
habitação e 1 dependência com superfície coberta de 20 m2 (…).’[22] Porém,
essa descrição, a primeira de que se dispõe, é posterior a 1919. Já seria assim
antes de 1919? Ao certo, não se sabe.[23] Fosse
nessa ou em outra casa, seja pela dispersão e dimensão daqueles moinhos, seja
pela distância a que ficavam do centro da Ribeira Grande, seja pela natureza específica
do trabalho de um moinho, exigindo permanência e vigilância constantes, tudo
aponta para que houvesse lá a residir um moleiro e a sua família.[24] Filhos,
de todas as idades, e mulher, como era habitual, participavam nas rotinas daquela
unidade de produção.[25] Haveria tabém por lá gatos para dizimar ratos e cães para
manter ao largo ladrões. À volta dos moinhos, criar-se-iam porcos e galinhas. Cultivar-se-iam hortas. Haveria
alguns pés de vinha. Árvores de fruto.[26] Tudo
isso seria um complemento vital à magra féria (habitualmente) semanal. Além
destes espaços, haveria outros ainda. Um anúncio de oferta de arrendamento de
1884 do moinho do Guido, o moinho a seguir ao de Manuel Duarte, mas ficando já na
periferia Sul da Ribeira Grande, diz-nos que havia um ‘granel,
estrebaria e lugar para arrumação de carroças (…).’[27]
Tal como o de Manuel Duarte, por certo. Entre 1856/57 e 1871, Manuel Duarte instalou uma
terceira moega (moinho/roda) no moinho que moía com água da levada do Conde. [28] Manuel Duarte Silva Júnior casara em
1869 com uma filha de José António Ferreira Cabido.[29]
O sogro e o pai tinham moinhos nas Gramas (ribeira das Gramas/Ribeirinha) desde
pelo menos 1854. Manuel Duarte Sénior, a caminho dos setenta anos de ida, não
dispensaria a ajuda do filho. E da família do filho. Em 1872, Manuel Duarte
Sénior já estava viúvo.[30]
Depois da série de
1854, 1856/7, só a de 1880 a 1886. Para ‘as
licenças para os moinhos.’[31] Neste
período, Manuel Duarte Silva paga taxa de cinco moinhos (no sentido de casais
de mós).[32]
Em Dezembro de 1884, cansado ou doente, tinha 89 anos, ou porque o filho tinha
outros planos para si, Manuel Duarte põe no jornal um anúncio de arrendamento dos
moinhos.[33]
Já os das Gramas de Cima.[34] Desconheço se conseguiu arrendar os
moinhos, o que se sabe é que Manuel Duarte Sénior falece a 3 de Julho de 1885. Tinha 90
anos de idade.[35]
O filho, com o mesmo nome do pai, casado e com uma enorme prole, viera viver,
entretanto, com o pai para a rua de São Vicente. Porém, na quaresma de 1887,
mudara de casa. Talvez já para Ponta Delgada.
A partir de então, provavelmente
com rendeiros, a vida naqueles moinhos terá decorrido da forma habitual até que
tudo mudou com a catástrofe de 9 de Agosto de 1919.[36]
O que aconteceu aos moinhos de
Manuel Duarte Júnior?[37]
‘O terreno
fronteiro [onde, quase de certeza, esteve o moinho de duas pedras,
que já ficava na Matriz, por isso não surge na Matriz Predial sobrevivente da
Conceição de 1871] (…) e metade do moinho nele edificado [acabaria
por ficar ao abandono], foram igualmente levados pelas
águas. O caminho que conduzia para este moinho [que servia também o
de três rodas],
numa extensão de mais de 100 metros e uma grande parte da quinta das senhoras
Berquós, ficaram convertidos em leito de ribeira (…).’[38]
Num cálculo aproximado, a ribeira Grande (e o que ela
trouxe consigo de arrasto) terá arrasado ou danificado 2/3 do prédio de Manuel
Duarte Silva Júnior.[39]
Meses após a catástrofe, no último dia de Janeiro de 1920, falece em Ponta
Delgada Manuel Duarte Silva Júnior.[40]
Sofria de artéria esclerose. Situação que, dependendo da natureza muito diversa
daquela doença, o teria já incapacitado.[41]
Que poderiam fazer os seus herdeiros?[42] Pouco antes da cheia, o moinho de 3
rodas e o de 2 rodas haviam sido arrendados. Depois da cheia, terão concluído
que a reconstrução do moinho de duas pedras não era viável, pelo que (de
certeza) o terão abandonado à sua sorte, até que o escrivão da Fazenda (em
1924?) lhe escreveu a certidão de óbito: ‘Não
existe.’ Que fazer para tornar vendável o moinho que sobrevivera? Teriam de
investir no reforço e construção de um talude de protecção junto ao moinho de
três rodas. E lançar uma ponte para a margem direita da ribeira.[43]
Em 1923/4, oficializam a venda dos moinhos (incluindo a ruina do de duas rodas)
a Jaime Sousa Rocha. Moinho que, depois de passar por outras mãos, Manuel Félix
Vitória compraria em 1942. Dai o nome pelo qual passou a ser hoje conhecido?
Mãe de Água, Poço da Mãe
[1] BPARPD, Escritura de contrato de sociedade entre
Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa de Jesus e Manuel Duarte Silva, sobre
uns moinhos ou engenhos que pretendem edificar, 29 de Outubro de 1833,
Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho, 30-04-1833/ 14-10-1834,
L 145, M 24, fls. 29-30 v.
[2] Porquê o talvez?
Porque sempre foi uma área cujos limites, antes da fixação cartográfica,
dependem da memória e do impacto das cheias da ribeira. Em 1885 e 1886, o
escrivão da Câmara inclui esse terceiro moinho que a cheia arrasou. A narrativa
da cheia localiza-o com precisão.
[3] No plural,
talvez porque para os locais havia ali dois mosteiros: o das freiras e o dos
frades, do outro lado da rua.
[4] Ao longo do seu
percurso, a ribeira Grande vai ganhando os nomes das áreas por onde passa:
Longaia; Mãe de Água; Escarola; Ponte Nova; Ribeira de Baixo e de Cima, Cova de
Milho.
[5] Segundo os que
pagavam taxa à Câmara por moeda em 1856/7. O que iria variar.
[6] ‘Cedendo-lhe
para esta se realizar, a planta do terreno que necessário for.’
[7] ‘(…) que pelo presente instrumento, poderá
fiscalizar e administrar como coisa sua, que o seja sendo para ele contratado e
os que lhe sucederem lucrarem enquanto o mundo durar, porque desde já os contratantes cedem todo o direito e domínio que
tinham ou podiam ter nessas duas partes da mesma obra. Como também da planta do
terreiro que necessário for e do rendimento correspondentes às ditas duas
partes dos mesmos engenhos.
[8] BPARPD,
Escritura de contrato de sociedade entre Cândido de Oliveira, sua mulher Teresa
de Jesus e Manuel Duarte Silva, sobre uns moinhos ou engenhos que pretendem
edificar, 29 de Outubro de 1833, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado
Coutinho, 30-04-1833/ 14-10-1834, L 145, M 24, fls. 29-30 v.
[9] BPARPD, Permuta
que faz Cândido José de Oliveira e sua mulher Teresa de Jesus Com Manuel Duarte
Silva todos desta Vila, 18 de Agosto de
1835, Tabelionato Ribeira Grande, Francisco Machado Coutinho,
14-11-1834/ 13-10-1835, L 146, M 24, fls. 115v-117v.
[10] E assegurou-se que ficava com todos os direitos
presentes e futuros.
[11]Após uma arreliante travessia no deserto de dezanove sem provas, os anos 1854 e 1856/57 (Aleluia) oferecem-nos provas sólidas.
[12] O genealogista
João Luís Silva Tavares aponta para cerca de 1841 o seu casamento. No entanto,
pesquisei nos casamentos da Matriz e da Conceição e nada encontrei; BPARPD,
Baptismos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1844-1846, liv. 47, Manuel
Duarte Silva Júnior, 22 de Setembro de 1845, fl. 120: 1845 (16 de Agosto). ‘Manuel [Duarte Silva Júnior] filho de Manuel
Duarte Silva e de D. Helena Luzia nasceu a 16 de Agosto de 1845 e foi baptizado
no dia 22 de Setembro de 1845. Avós paternos: Veríssimo [no óbito do pai =
Virgínio] José Tavares e Teresa Jacinta Leonor; Maternos. José Francisco
Ferreira e Josefa Inácia de Gouveia. Açoriano Oriental, 7 de Outubro de 1848:
‘(…) Na Longaia, área a Sul, ‘os moinhos do mesmo João de Almeida foram
destruídos (…).’ Além disso, em 1848, sabe-se por uma nota de jornal
acerca de estragos causados por chuvas torrenciais, ‘(…) a ponte de João de
Almeida, na Mãe de Água foi aniquilada, e bastantes terrenos alagados.’
Se já havia então um ou mais moinhos de Manuel Duarte, o que, apesar da
inexistência de provas, insisto, não nos parece improvável, nada lhes terá
acontecido.
[13] Equivalia a uma
casa com moegas ou mós. Moega, já agora, corresponde à peça onde é vazado o
cereal que vai caindo nas mós. Ali, na Mãe e Água, nesse mesmo ano de 1856/7,
vemos mais três moinhos. São de ribeira. Quais? O da Carocha? O da Cova I? E o
do Curral das Cabras? Não sei.
[14] Mário Moura, observação de 31 de Março de 2026. Em 1986, pela
primeira vez examinei com atenção, e pela última já em 2026, confirmei que ‘a vala Nova fica a nascente da velha (margem
esquerda da ribeira). Entre a Velha e a Nova há uma distância sensivelmente de
2, 10m. Situando-se a Velha a c. de 2 metros abaixo do nível da nova. Faz uma
curva a c. 80/100 Metros dos Cubos.’
[15] [Parte do texto:
Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9
de Agosto de 1919, Revista Micaelense, Novembro de 1919, p. 575. Em Novembro de 1919, já era. Num trabalho bastante detalhado sobre o
impacto da cheia de 9 de Agosto na Ribeira Grande, em geral, e na Mãe de Água,
em particular, publicado na Revista
Micaelense, esse moinho já com três rodas (ou três moegas), a terceira
surge entre 1857 e 1871, estava ‘edificado contra
a vertente da margem esquerda da ribeira a 180 metros da ponte.’
[16] AMRG, Matriz Predial Urbana, Matriz e Ribeirinha,
Artigos 931 – 1407, volume 37.
[17] Meras
conjecturas plausíveis, não a verdade do que terá sido.
[18] Com a construção
da ponte encostada ao arco das Freiras na década de cinquenta, eventualmente,
poder-se-ia aceder por ela.
[19] Conjugando a informação do Tabelionato, Matrizes
Prediais, Taxas pagas à Câmara, espaços conhecidos. Observação do local.
[20] Ao ponto de quem
as visse da servidão do outro lado da ribeira, as pudesse ver com um único
conjunto. Aliás, do meu dono.
[21] Exemplo do
Guido.
[22] AMRG, Matriz
Predial, Urbana, Conceição, artigos 1-703, volume N.º 65.
[23] Uma vista de olhos à estrutura actual, permite pensar que a casa das três mós e a de residência anexa, foram fruto de uma campanha de obras próxima temporalmente. O recurso a blocos de pedra, o recurso ao barro (mescla) apontam também para o século XIX.
[24] Sabemos que os
últimos moleiros, já na década de oitenta do século XX, apesar de aproveitarem
o espaço, não moravam lá. Como sabemos que em 1919, havia pelo menos que
carregava as moegas e ia morar na sua casa em Trás os Mosteiros. A quinhentos
metros do moinho, mais ou menos.
[25] Ezequiel Moreira da
Silva, A catástrofe de Sábado, Ecos
do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2. Temos prova disso para 1919: ‘Os moleiros desse moinho e dos outros
próximos, e suas famílias, que nos mesmos moravam, salvaram-se a
muito custo, fugindo uns pelos quintais
e trepando outros pelas barreiras; afim de escaparem à corrente,
transformada num mar revolto de encapeladas vagas.’
[26] O último
moleiro, fazia-o.
[27]
O Noticiarista, Ribeira
Grande, 14 de Maio de 1884
[28] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa
Senhora da Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62, 10 de Maio de 1871,
872 ; AMRG,
Rústica, Freguesia da Conceição, Artigos 1-1329, Volume n.º 60; a Matriz
Predial de finais do século XIX, inícios do seguinte, confirma a descrição de
1871: ‘1151. Uma casa com três rodas (…) que confronta
Norte: D. Maria Ana Fisher Berquó; Sul e Poente: Manuel Duarte Silva e
Nascente: ribeira.’
[29] BPARPD, Casamentos, São Pedro, Ribeira
Seca, Ribeira Grande, Manuel Duarte da Silva Júnior e Dona Maria José Ferreira
Cabido, 24 de Novembro de 1869, fls. 7 – 7 v.: 1869 (24 de Novembro) – Ele, 28 anos, vivendo em casa dos pais,
solteiro, natural e baptizado na Matriz da Estrela. Ela, 20 anos, solteira,
moradora e baptizada na Matriz da Estrela. Filha natural de José António
Ferreira Cabido. De mãe desconhecida. Testemunhas: Reverendo Presbítero José
Caetano Dias, morador na Matriz, e José de Medeiros Garcia, morador na
freguesia de São Sebastião da Cidade de Ponta Delgada.
[30] AMRG, Róis de
Confissão, Matriz da Estrela, 1872.
[31] Taxa paga de acordo com uma deliberação de Novembro de 1870 sobre o número de moinhos (aqui no sentido de mós) que cada casa dispunha.
[32] Na Mãe de Água,
na levada do Conde, além do moinho (de três rodas) de Manuel Duarte, vemos,
pela primeira vez, os três moinhos (dentro de uma casa) de José Joaquim de Melo
Teixeira. Em 1871, não existiam. Porquê a dúvida? Porque a taxa é idêntica para
os cinco casais de mós, tornando-se impossível distinguir quem tira água da
levada do Conde e quem tira da ribeira. Situação que se mantém até 1886.
[33] Dezembro de 1884 - ‘Moinhos. Anúncio. Manuel Duarte Silva arrenda os seus
moinhos situados à Mãe de Água.’ O Noticiarista, Ribeira
Grande, 3 de Dezembro de 1884. Naquela mesma altura, os moinhos do Guido e o de
Joaquim Melo estavam à venda.
[34] Em 1884, para efeitos de taxas, a
Câmara taxou quinze moinhos na levada da Condessa e onze na ribeira.1884 -
Moinhos (opinião de Francisco de Arruda Furtado). Nesse mesmo ano, o
antropólogo Francisco Arruda Furtado tinha uma opinião pouco lisonjeira
desses moinhos: a ribeira da Ribeira Grande era ‘(…) a principal
moagem de cereais (…).’ Eram, no entanto, ‘de uma construção muito primitiva.’
[35]BPARPD, Óbitos,
Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Manuel Duarte Silva, 3 de Julho de 1885,
fl. 26: 1885 (3 de Julho) [1795?
Nascimento] Manuel Duarte Silva
Sénior [morador da rua de São Vicente], proprietário, de 90 anos de idade,
viúvo de Luzia Helena, natural e morador nesta freguesia de Nossa Senhora da
Estrela, faleceu com todos os sacramentos, a 3 de Julho de 1885. Sepultado no
cemitério público. Não fez testamento. Pais. Virgínio José Tavares, natural da
Conceição. E Teresa Leonor, natural da Matriz de Nossa Senhora da Estrela.
[36] [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens
Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista
Micaelense, Novembro de 1919, p. 575. Em 1919, os moinhos da levada do Conde,
da qual fazia parte o moinho de três rodas de Manuel Duarte Silva, segundo a Revista Micaelense, representavam ‘entre si um poder moageiro de cerca de
18 300 moios anuais de farinha ou seja 1525 moios por mês o que representa
alimento para mais de 8 milhares e meio de casais por ano mais de um terço da
população da ilha de São Miguel.’
[37] Ezequiel Moreira da Silva, A catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2 : Como resultado de Agosto de 1919: ‘Na Mãe de Água, os prejuízos causados pela cheia são colossais, e estão tão diferentes aqueles sítios aprazíveis, onde era tão agradável ir de passeio nas tardes de Verão, que agora, dificilmente se reconhecem, tamanha foi a transformação por que passaram.’
[38] Ezequiel Moreira da
Silva, A catástrofe de Sábado, Ecos
do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2 ; [Parte do texto: Ezequiel Moreira
da Silva?; Imagens Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de
1919, Revista Micaelense, Novembro de 1919, p. 575: Em Novembro, cheira-me que com a
colaboração de Ezequiel, a Revista
Micaelense, acrescenta um novo pormenor (o moinho de três rodas): ‘(…) cuja fachada
caiu toda deixando-nos ver o interior como numa cena de teatro (…) [referir-se-à ao moinho de duas pedras].’
[39] Em 1833, teria
(convertendo grandezas) pouco mais de 3000 metros quadrados. Aqui: AMRG, Matriz
Predial, Urbana, Conceição, artigos 1-703, volume N.º 65: ‘Uma
casa de morada com superfície coberta de 120 m2 e 1000 m2 de baldios, 2
andares, 1.º com 1 divisão com 3 rodas para moer cereais movidas à força de
água; 2.º, com 4 divisões para habitação e 1 dependência com superfície coberta
de 20 m2 (…). ’ Actualmente, veja https://cadastro.azores.gov.pt/Cadastro.aspx. A propriedade foi sendo acrescentada? Reduzida em
partes também. Só em 1993, conforme registos prediais, é que Manuel Correia
Bettencourt adquire uma mata (e anexa ao último prédio) de 7 100 m2. Que
entra em ambas as margens até à cascata da ribeira da Pernada. Pelo que,
mantinha-se os tais 1000 m2 de quintal mais um pouco mais de casa e moinho que
foram comprados em 1990 ao mesmo Bettencourt. Que já os terá adquirido a
Euclides Machado. Quando é que Euclides o compra à família Félix Pascoal? Em
1986 já era de Euclides Machado. Disse-me ele em entrevistas que então lhe fiz.
[40] BPARPD, Óbitos, Ponta
Delgada, 1920, Manuel Duarte Silva, 31 de Janeiro de 1920, assento N.º 42,
livro 1, fl. 14 v. : 1920 (31 de
Janeiro) – ‘Às 16 horas do dia 31 de Janeiro de 1920, numa casa da rua
Açoriano Oriental, desta idade, freguesia de São Sebastião, faleceu de artéria
esclerose, um indivíduo do sexo masculino de nome Manuel Duarte Silva, de
setenta e quatro anos de idade, de profissão procurador, natural da freguesia
Matriz da Vila da Ribeira Grande, domiciliado na dita rua Açoriano Oriental,
filho legítimo de Manuel Duarte Silva, natural da dita freguesia Matriz, e de
Luzia Helena Silva, natural da mesma freguesia Matriz, já falecida. O falecido
era viúvo de Maria José Cabido Silva, natural da dita Vila da Ribeira Grande,
falecida em mil novecentos e catorze. O falecido não deixou descendentes
menores, deixou bens, não deixou testamento e o seu cadáver vais er sepultado
no cemitério de São Joaquim (…).’
[41] Informação
(diagnóstico) de José Manuel Cabral.
[42] O Norte, 28 de Setembro de 1895, p. 2.
Poderia ter sofrido danos com a cheia de Setembro de 1895.
[43] Ponte que desapareceu na década de
noventa do século passado.



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