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Essa História de 1833 não acaba em 1924







Essa História de 1833 não acaba em 1924

Tanto não acaba que, uma década depois de os herdeiros de Manuel Duarte Silva terem vendido os moinhos, seria milagre encontrar na Ribeira Grande um moinho que não moesse dia e noite. Para dar vencimento às moendas das ‘freguesias.’[1] E às de farinheiros e de quarteiros de perto ou de longe. Indo até às Bretanhas. Em 1939, o correspondente da Ribeira Grande para o jornal A Ilha, tira um instantâneo a esse universo de vinte e dois moinhos, catorze da levada da Condessa e oito da ribeira, dos quais ‘os catorze da Condessa [dispunham] de quatro pedras [três para o nosso] que, no Verão, [trabalhavam] três ao mesmo tempo. No Inverno, apenas duas.[2] Só à conta da Mãe de Água, havia quatro: dois da Condessa (com três mós cada e moendo com a água da levada da Condessa) e dois de ribeira (também com três mós mas moendo directamente da água da ribeira Grande). Considerando apenas o número de casas de moinhos, poderia pensar-se que em 1939 a Ribeira Grande recuperara totalmente da catástrofe de Agosto de 1919.[3] Não foi esse o caso. Houve moinhos que reduziram o número de mós.[4] Além disso, havia outras indústrias a utilizar a água da ribeira: ‘(…) As águas da ribeira Grande [eram] aproveitadas por duas centrais eléctricas, uma da Empresa Gás e Electricidade que [fornecia] energia para iluminar a Vila, Rabo de Peixe e Pico da Pedra e para serviços industriais de Ponta Delgada e outra que pertence à Câmara de Ponta Delgada e [ia] alimentar a rede de distribuição na cidade e seus arredores.[5] Havia ainda outro perigo a espreitar: as moagens eléctricas. Não seria novidade, já que, em 1919, há notícia de haver uma na Ribeira Grande. Para impedir o aparecimento de novas moagens, alguns dos proprietários de moinhos de água fizeram pressão sobre a Câmara para as proibir.[6] Por outro lado, tentam ainda negociar bitolas de água com as hidroeléctricas.

Se o negócio da farinha era bom em 1939, melhor ficaria em 1941. As restrições impostas pela II Guerra Mundial, fazem com que a população da Ilha aumente. A torneira da emigração fechara. Além do mais, na Primavera de 1941, começa a desembarcar na Ilha ‘uma força expedicionária de 16 500 homens (…).’[7] É então que, em 1942, Manuel Félix Vitória, aos 41 anos, compra o moinho que fora outrora da família Duarte Silva e que passaria doravante (também) a ser conhecido por moinho do Félix. Sendo negócio a não perder, além deste moinho, os outros três da Mãe de Água também mudam de mãos.[8] Assim como outros na Ribeira Grande. Dito de forma simples, poderá dizer-se que os novos donos eram trintões e quarentões com ambição de ‘avançar na vida.’ Quem foi Manuel Félix Vitória? Solteirão, toda a vida, mas muito chegado à família, nasceu na Conceição a 14 de Fevereiro de 1901 e aí faleceu a 27 de Janeiro de 1966.[9] Segundo a afilhada, ‘foi moleiro e farinheiro. Trabalhou alguns anos no moinho. Mas tinha moleiros por sua conta. Mais tarde, montou na sua casa uma pequena fábrica de blocos de cimento. Comprou mais tarde uma quinta na Ribeira Seca[10] É tratado por ‘proprietário.’ Teve um percurso semelhante ao de outros no ramo da farinha. Como conto mostrar mais à frente.

A ‘fartura do tempo da guerra,’ porém, não sobreviveu ao fim da guerra. Conquistada a paz, reabertas as fronteiras, regressada a tropa a casa, o negócio quebra. Numa conversa em 1986 com Manuel Pascoal, emigrara na década de 1950, irmão de Eduardo e de José Pascoal, filhos e netos de farinheiros, disse-me que a crise ‘começa’ mal acaba a guerra. E ao contrário do que se dizia, a emigração viera ajudar a resolver a crise, mais do que a criá-la. Fecham muitas moagens nos anos de 1950. E moinhos de água. Alguns moinhos, sem deixar a farinha, entram noutros negócios. Uns, nos blocos de cimento. Ezequiel Moreira da Silva fora pioneiro na década de 1930.[11] Fui falar com o engenheiro Albano Moniz Furtado, filho e neto de gente dos moinhos: ‘Meu pai intuiu o futuro. O negócio da farinha vai acabar, pensou. O negócio da farinha não dava mais do que já dava. Não havia futuro. Tinha vontade de crescer para dar futuro aos filhos.’ O que fez? Melhora o fabrico da farinha: ‘Electrifica uma mó, penso que em 1956, está lá a data, penso que para mandar farinha para Santa Maria. Como tinha de a embarcar queria ter a certeza de que moía. Se dependesse da água, podia ser que não conseguisse.’ Entra no negócio dos blocos: ‘Em 1958/9 começa com a fábrica de blocos. Meu tio João Alberto foi pioneiro nos blocos.’ E, em parceria, cria uma empresa de prestação de serviços: ‘Em 1959, com o cunhado, meu tio João Gouveia Moniz, que abandonara o negócio da farinha, chegou a ter uma moagem em Rabo de Peixe, fora moleiro, ou farinheiro, digo eu, compra um camião. Camião de praça. Em 1961, vai a Lisboa e compra um camião Mercedes Benz. Com o meu tio João. E um tractor para lavrar terra. É um camião de praça para a Firma Moniz & Tachinha.[12] Outros, como os irmãos Alfredo e João Vieira, fazem (ou já haviam feito) outro tanto.

Manuel Félix Vitória segue a tendência. Vem a falecer em Janeiro de 1966. Um a dois anos antes adoecera. Se o moinho já não era a sua maior fonte de rendimento, tinha os blocos, a partir de então deixa de moer. Em 1968, Eduardo Pascoal, casado com uma sobrinha de Manuel Félix, por herança da mulher, fica com o moinho. Perguntei ao sobrinho José Manuel, ligado ao moinho do Vale, e ao universo dos moinhos, sobre o que recordava da vida do tio: ‘Meu tio Eduardo moía no moinho do meu pai. O moinho do Vale. Distribuía farinha em Rabo de Peixe. Em 1965, ano em que nasci, meu tio moía ainda lá.’ Continuando com José Manuel, repare-se no negócio que acrescentou (e depois substituiu) o da farinha: ‘Meu tio Eduardo deixou o negócio da farinha e do milho porque tinha o negócio da charcutaria. Metia-se em muita coisa. Sem dinheiro mesmo. Atirava-se. Fez umas pocilgas. Currais de porco. Lá em cima no moinho. Quem lá estava a tratar de tudo, porcos e farinhas era o Humberto Tenente. Dormia lá e tudo. Bidões de soro de 200 litros. Era lá que tinha a criação de porcos que matava. E vendia. Meu tio Manuel faz sociedade com o irmão Eduardo e abrem um talho. Tinha lavoura grande com vacas. Tractores.’[13] Era conhecido como comerciante.

De meados da década de sessenta a 1971, fecham portas 45% dos catorze moinhos da levada da Condessa. A emigração ‘só de 1965 a 1975’ leva ‘mais de 107 mil açorianos.’[14] Na Mãe de Água, além do moinho de Manuel Félix, resta o do Pimentel.[15] E mesmo esse perde dois dos seus três donos para a emigração. Eduardo Machado Pascoal morre em 1977, aos 40 anos, vítima de acidente. A viúva vende o moinho a Euclides Moniz Machado talvez em 1981 ou em 1982. [16] Apesar de haver menos moinhos, de haver, em princípio, menos concorrência, nem por isso era boa altura para entrar no negócio da farinha.[17] Foi uma compra arriscada. Em contra-ciclo. Em 1986 já só havia nove moinhos na Ribeira Grande, todos da levada da Condessa. Euclides vai à banca. Tem de refazer o moinho. Construir uma ponte. Pagar um condutor. A sua clientela é pequena. Como se poderá caracterizar a situação? Gualter Furtado, antigo Secretário Regional das Finanças, especialista na área, deu-me a resposta: ‘A década de 80 é o início de uma reorientação estratégica que resultou do processo de integração de Portugal na então CEE (…).’ Que impacto teve nos moinhos? ‘Os moinhos morrem com a mudança da economia, queda na produção de cereais trigo e milho humano, emigração em massa (…) a mudança da produção do grão para a erva, necessitava menos mão-de-obra e o produto final era mais rentável (leite e carne), e ainda por cima com apoios extraordinários à produção e ao rendimento (…) sem homens para trabalhar a terra, com processos de produção antigos e pouco mecanizados dos moinhos, com consumidores subsidiados para consumirem produtos importados, a morte dos moinhos era inevitável.[18]

Quem foi Euclides Moniz Machado? Fui conversar com Dionísia, viúva de Euclides há 24 anos.[19] Três anos mais nova do que o marido, nasceu em 1946. Tal como o marido é filha da Ribeira Seca. Da Grota. No sopé do outeiro da ermida de Nossa Senhora da Piedade, junto à qual, morou o futuro marido. Arrumava a carroça no portão ao lado da ermida. Casaram na igreja da Ribeira Seca. São Pedro. No dia 15 de Novembro de 1969. Euclides já com 26 anos. Dionísia talvez já com 23. Tiveram três filhos: Dinis, Graça e Bruno. O pai de Euclides era Machado, parente dos Machado Pascoal.[20] Euclides sempre foi moleiro. Moía no moinho do José Pascoal. Aprendeu o negócio com o irmão Francisco, o irmão mais velho. No moinho do Sr. Manelinho, o que o mar levou. Quando o irmão ‘embarcou’ para o Canadá, ficou com a ‘vida do irmão.’ Ribeira Seca e Lomba. Não era toda a Lomba. Comprou-lhe o boi e a carroça. Parou enquanto fez a tropa no quartel em Ponta Delgada. Quando terminou a tropa, voltou à vida da farinha. Foi moer ao moinho do José Pascoal. No moinho do Vale.[21]

Por que comprou o moinho? O Eduardo Cordeiro, um cunhado meu, marido da minha irmã, é que veio com a conversa. Vais comprar um moinho. Vais comprar um moinho. O Euclides não queria. Mas o meu cunhado insistiu. Insistiu. Vais comprar o moinho. Em vez de pagar renda.[22] Eu não queria. O moinho estava muito desprezado. Não tinha portas. Janelas. Nada. Nem a ponte. Tinha uma casa grande. Cozinha de pedra de lavoura. Forno. Não tinha luz. Era de candeeiro a petróleo. Euclides acabou por querer. Por que terá querido? A viúva não diz, porém, quanto a mim, talvez tenha pensado como os homens geralmente pensam na idade que Euclides então tinha: ‘Vou a caminho dos quarenta, tenho mulher e três filhos pequenos para sustentar.Fomos ao Banco de Fomento [Nacional] em Ponta Delgada pedir emprestado o dinheiro.[23]

Papelada despachada, houve que dar o primeiro passo: construir a ponte de madeira que ligava o moinho na margem esquerda à margem direita da ribeira. Largaram fogo à que havia dantes no tempo do Eduardo Pascoal. A esse respeito, e a outros afins, o filho Dinis lembra-se perfeitamente bem: ‘Estava tudo partido. Não tinha nada lá. Moegas. Cambeiros. Só tinha as pedras e as paredes. Quem fez a ponte foi o meu pai. Foi o Tibério Carvoeiro. Mateiro. Que arranjou os eucaliptos para as traves. Quem fez a obra da ponte foi o Fernando Galinha. E fez também portas, janelas. Era da Ribeira Seca. Já morreu.[24] Voltando a Dionísia: Picar as pedras. Afinar moinhos. Tudo foi feito pelo António Alberto. Que morava ali para cima pro Rosário (na Matriz).[25]

Lançada a ponte, refeito e afinado o moinho, pelo António Alberto, puseram-no a trabalhar. Havia dívidas a pagar. Fechava-se o moinho quando acabava a moenda. Havia dias em que ficava, diz Dionísia, até ele chegar de fora. A freguesia do moinho era a Ribeira Seca toda e alguns lados de Santa Bárbara. Havia na Lomba também o Manuel Chamarrita – lá em cima no fim da Lomba [Santa Bárbara]. Mais cá em baixo, perto da igreja, havia a moagem do José de Melo, pai do Leonel da Bomba [de Gasolina]. A gente também moía muito para Ponta Delgada. Às vezes até trabalhava aos Domingos. Moía muito para o Sr. António [Pedro Jorge?] da Arquinha.[26] Farinha amarela para o gado. Dois e três camiões por semana. Muito. O lucro do milho ficava para pagar. Ainda há filhos que trabalham lá. Havia serões em que ficava toda a noite para ajudar.[27] Aproveitavam o espaço à volta do moinho? Criava-se galinhas. Na terra do José Eduardo [Carlota, que confronta a Norte], pagando renda, tinha gueixas. O que faziam lá em cima para se divertirem? ‘Pesca de iróses [enguias] na levada. Tomar banho no Poço do Homem.’ [28] Disse Dinis. ‘A casa [que pertence ao moinho] estava cheia de plantas. Cresciam bem ali, A Francelina que morava no moinho à entrada da canada [moinho da Cova] é que dava plantas à minha mãe.’[29] Diz-me a filha Graça.

Quem ajudava no moinho? O meu filho Dinis saía da escola e ia ter com o pai ao moinho. Aprendeu a vida com o pai. Comprou-se um camião ao Manuel Ventura e ele com nervos não quis conduzir. Nem me deixou aprender. Tu ainda vais-te matar! Teimou. E não deixou. Pagámos a vários condutores.[30] Uma despesa grande. Sem precisão. Quando fez dezoito anos [é de 1971] o Dinis tirou a carta e pegou no camião.[31] Porque venderam o moinho? Tivesse quieto![32] O meu marido já estava com depressão. Saía pouco de casa. Eu é que governava tudo. Eu é que aguentei a vida. Porquê Euclides? Por um lado, eram as prestações devidas ao banco e a outros a quem devia dinheiro, por outro, o negócio não rendia o suficiente? Sentiu-se falhado como homem de família? Terá isso tudo agravado a tendência depressiva de Euclides? Penso eu. Vieram ter comigo. Diz a viúva. Já não me lembro quem foi. Comprou o [Manuel Correia] Bettencourt. Morava na rua João do Rego de Baixo. Onde morava o meu cunhado. Não me lembro por quanto vendi. Havia um que queria primeiro, um que era pescador, amigo dele, mas foi ele que veio depois e ofereceu mais. E foi ele que ficou com o moinho. O filho Dinis, o último a moer no moinho, explica os anos finais: ‘Quando caiu a ponte é que foram elas. A gente havia tentado reforçar com vergas de aço. Mas parece que foi pior. Caiu tudo. Vendemos em 1990. O Bettencourt deixava-me lá estar sem pagar renda. Estive por minha conta durante dois anos. Durante dois anos usava o pasto do Carlota [José Eduardo Silva]. Pagava uma renda de 250 contos por ano. Ainda se tentou. Quase no fim. Quando a farinha começou a enfraquecer, levamos também fruta, ração, batatas, legumes, maçãs. Não dava para o gasóleo! E entreguei ao Bettencourt o moinho.[33] Ao lado, fechava o moinho do Pimentel. Acabavam os moinhos da Mãe de Água. Na Ribeira Grande, resistiam seis dos catorze da Condessa: quatro com vontade de avançar no negócio, dois só para se entreterem.[34] Segundo me foi dito na altura.

Se a farinha não dava, dava o pão. Quando fiz a padaria, diz Dionísia, vendi o moinho.[35] Abri a padaria (da) Lacerda (nome da família da Dionísia), ainda sem licença. Em 1990. Foram-me acusar.[36] Pus tudo direito em 1992. Comecei a cozer pão para uma vizinha e para outra que me pedia. Foi aumentando.[37] O Bruno e a Graça trabalham na Padaria. O Dinis abriu nos quatro cantos da Ribeira Seca - a uns cem metros abaixo da Padaria - o Café Lacerda. E depois de Dinis entregar o moinho em 1992? Ao que dizem, Bettencourt ‘queria fazer ali um museu do moinho.’ Depois desse ano, ele ou o filho, vendem o moinho a um belga. Esse belga, em 2018 vende-o a José e João Gonçalves. Que querem fazer? ‘Ainda não sabemos o que queremos fazer ali. Mas terá de ser um projecto que integre tudo. A cascata. O moinho. É um local precioso.[38] 


Poço do Homem, Mãe de Água, Cidade da Ribeira Grande



[1] Os herdeiros de Manuel Duarte Silva Júnior haviam vendido em 1923 a ruína da casa com dois moinhos movidos pela água da ribeira (Grande ou e da Pernada) a Bento Rocha da Conceição, em 1924, vendiam a casa com três moinhos movidos pela água da levada do Conde (ou da Condessa) a Jaime Soares Rocha, da Matriz. Nesse mesmo ano, Jaime Rocha compra a Bento Rocha a ruína. Na outra margem da ribeira, ainda em 1924, o moinho do Caroucha, moinho de ribeira, foi comprado por Manuel Francisco Costa, das Gramas. Entre 1924 e 1942, António Francisco Taveira compra aos Rocha a casa sobrevivente de Manuel Duarte Silva de três moinhos. Conhecem-se nomes de dois rendeiros, Pedro Bicudo e Manuel Homem da Silva Júnior, da Vila da Ribeira Grande. Que terão tido moleiros a trabalhar por sua conta. Tirando isso, do resto, confesso-me ignorante.

[2] Correspondente da Ribeira Grande, Irrigação, A Ilha, 26 de Junho de 1939, pp. 1-2. Nota: As Matrizes Prediais, uma fonte documental oficial segura, porém, diz-nos que na Mãe de Água, e na levada referida, quer o nosso moinho quer o que lhe fica antes dispunham apenas de três.

[3] Ezequiel Moreira da Silva, A catástrofe de Sábado, Ecos do Norte, 16 de Agosto de 1919, pp. 1-2: Em Agosto de 1919, havia (…) 25 moinhos [14 da Condessa e 11 da ribeira. Quais? 1) Paivinha; 2)Viveiros; 3) Caroucha; 4) Cova I; 5) Velha; 6) Ponte Nova; 7) Cova II; 8) Barracão; 9) Açougue ; 10) Cova de Milho. E o 11º ? Se o do Arrenegado já estava desactivado, então resta o segundo de Manuel Duarte Silva? Referir-se-ia a este?] que aqui trabalhavam, apenas três estão moendo com regularidade. A água das regas que fizeramn derivar para a levada dos moinhos da Condessa, pouco resultado tem dado, por ser em pequena quantidade. Enquanto em Agosto, Ezequiel referia 11 moinhos de ribeira, em Novembro já só se falava de 7. Quais seriam estes 7 de ribeira? 1) Cova de Milho; 2) Açougue; 3) Barracão; 4) Ponte Nova; 5) Velha; 6) Cova I; 7) Caroucha. Seriam esses? [Parte do texto: Ezequiel Moreira da Silva?; Imagens Toste e o genro] Crónica da Tempestade de 9 de Agosto de 1919, Revista Micaelense, Novembro de 1919, p. 575

[4] Por exemplo, o moinho do Caroucha passou a ter duas mós.

[5] Correspondente da Ribeira Grande, Irrigação, A Ilha, 26 de Junho de 1939, pp. 1-2.

[6] AMRG, Actas, 9 de Abril de 1936, fl. 74 v.: ‘Abaixo-assinado de alguns proprietários de moinhos de moer à força da água, sitos nesta Vila, pedindo para se estipular, no novo contracto de iluminação pública, a celebrar entre esta Câmara e a Empresa de Electricidade e Gas de Ponta Delgada, a clausula proibitiva de fornecimento de energia elétrica para instalação de montagem de moagens para cereais: A comissão ficou de estudar o assunto.’

[7] Almeida, José Almeida, A Campanha do ananás. Os Açores na II Guerra Mundial, 2008. Sobre a economia do período, entre outros, recomendo: Sérgio Rezende, A II Mundial nos Açores, 2018.

[8] No ano anterior, Edmundo Barbosa de Oliveira havia comprado o Moinho da Cova I; e nesse ano de 1942, Amâncio Raposo Pimentel tomara posse do segundo moinho da levada da Condessa; e Silvano Taveira Neiva do moinho do Caroucha. Para além dos moinhos da Mãe de Água, outros mais também mudam de mãos. Em 1941, João Botelho Pascoal compra o Moinho da Areia; em 1942, Manuel Alberto Moniz compra o da Velha; Nesse mesmo ano, Manuel Estrela Cabral, compra o da Ponte Nova; Manuel Carlos Pacheco o moinho do Vale; Maria de Deus Seridónia Viveiros o dos Couros; em 1945, Evaristo Máximo do Couto, o Cova II.

[9] APCRG, Índice de Batismos N.º 17, 1900-1901: Manuel (Félix Vitória) filho de António Vitória e de Maria da Glória Marques, 901, fl. 8; BPARPD, Baptismos de Nossa Senhora da Conceição, Manuel Félix Vitória, 3 de Janeiro de 1901, fl. 8; Nasceu às 7 horas da noite do dia 14 de Fevereiro de 1901. Baptizou-se a 3 de Março de 1901. Filho legítimo de António Vitória, carroceiro, natural de Nossa Senhora da Estrela, e de Maria da Glória Marques, doméstica, natura de Nossa Senhora da Conceição. Neto paterno de Vitorino Vitória e de Jacinta Cândida. E neto materno de Manuel Marques Tavares e de Júlia Amélia Raposo. Padrinhos: Manuel Rodrigues, casado, carroceiro, madrinha, Isabel Maria, casada. À Margem: Faleceu na freguesia da Conceição pelas 18 horas do dia 26. Óbito N.º 32 27/1/ 1966; APCRG, Óbitos da Conceição, Manuel Félix Vitória, faleceu a 26 e foi sepultado a 27 de Janeiro de 1966, N.º 3, fl. 45 v: Manuel Félix Vitória, de sessenta e quatro anos, proprietário, morador na rua dos Foros (n.º 74) faleceu a 26 e foi sepultado a 27 no cemitério de Nossa Senhora da Estrela. Comungou e recebeu a Extrema-unção pela mão do pároco Padre Luís Cabral. Filho de António Félix Vitória e de Maria da Glória Marques. Ambos falecidos.

[10] Testemunho de Isabel Pascoal, 28 de Março de 2026.

[11] Exemplo disso: as chamadas Casas dos Magistrados na rua do Botelho. Na década anterior, já o havia feito na Cidade da Horta, Ilha do Faial.

[12] Testemunho de Albano Moniz Furtado, 4 de Maio de 2026.

[13] Testemunho de José Manuel Pascoal, primo da Isabel, 28 de Abril de 2026.

[14] Testemunho de Gualter Furtado, Secretário Regional das Finanças na década de oitenta, 3 de Maio de 2026.

[15] O do Caroucha estava parado. Quem o comprou em 1963 não trabalhou com ele. João Inácio Vieira Júnior que comprara o da Cova I em 1950 e introduzira uma azenha, podia ainda se servir uma vez por outra do moinho mas apostava forte nos blocos de cimento.

[16] Como não consegui ver documentos de venda, vou de tentar chegar o mais próximo possível. Usando testemunhos. Sempre imprecisos. Testemunho de José Manuel Pascoal, primo da Isabel, 28 de Abril de 2026. Quando o compraram? O meu mais velho [O Dinis] tinha 12 anos [se assim fui, terá sido à volta de 1982/3, Dinis nasceu em 1971]. Quando o meu Bruno nasceu, já tinha o moinho. Nasceu em 1982 [Portanto, em 1982 ou um pouco antes]. A Graça já tinha uns quatro ou cinco anos. Indo falar de novo com José Manuel Pascoal, em cujo moinho Euclides moeu antes de comprar o moinho da Mãe de Água, fiquei a saber um pouco mais acerca do ano e das circunstâncias dessa compra: ‘Deixou de moer lá uns dois anos antes de meu pai morrer [27 de Janeiro de 1983, apontando para 81 ou 82]. Uma semana antes de deixar de moer lá, foi avisar meu pai. Tinha comprado o moinho da Mãe de Água à minha tia Mariazinha, viúva do meu tio Eduardo (morreu na segunda feira da pombinha de 1977). Moía à noite. Vinha com uma carrocinha de boi. Depois vinha com uma moto-cultivadora. Era ele que a conduzia.’

[17] Testemunho de Albano Moniz Furtado, 4 de Maio de 2026: Albano Moniz Furtado, engenheiro filho de uma longa linhagem de gente de moinhos da Ribeira Grande, é testemunha do que então acontecia ‘O milho era o principal sustento. O que aqui (na Ribeira Grande e na Povoação) se produzia não chegava para satisfazer as necessidades de consumo da Ilha. Misturava-se milho de cá com o milho de fora. Não era igual ao nosso. As mulheres não gostavam. Lembro-me dos protestos. Só deu quatro pães. Não presta para nada! Milho de fora era muito rijo. Dava cabo das pedras.

[18] Testemunho de Gualter Furtado, Secretário Regional das Finanças na década de oitenta, 3 de Maio de 2026.

[19] Na sua residência, por cima da sua padaria, padaria Lacerda, entre as 14 e a 16:30. Euclides faleceu 31 de Dezembro de 2002.

[20] Tratava-se há muito com o Dr. Sampaio da Nóvoa. Tinha grandes temporadas de doença.

[21] O moinho era picado pelo Manuel Gouveia que morava em Trás Mosteiros.

[22] Ele é da Maia. Trabalhou para uma Secretaria. Soube que estava um moinho fechado na Mãe de Água.

[23] [Banco de Fomento Nacional aparece na década de oitenta, inícios, ainda com a banca nacionalizada. Artur Santos Silva. Porto. Passou a BPI? A 6 de Outubro de 1981 é fundada a SPI-Sociedade Portuguesa de Investimentos, por iniciativa de Artur Santos Silva, que viria a ser o primeiro presidente executivo do Banco.]

[24] Testemunho de Dinis Machado, filho de Euclides, 23-24-25 de Abril de 2026.

[25] [rua Estêvão Alves. António Alberto trabalhava para o José Eduardo Carlota no moinho do Guido]

[26] Construíra uma moagem à entrada dos Ginetes.

[27] Testemunho de Armindo Vitória, 8 de Maio de 2026: o moinho da Praia e o do Outeiro também moíam para lá. Confirmado por Testemunho de António Pedro Jorge, Caminho da Levada, 8 de Maio de 2026. E por: Marco Sousa, A única moagem de Ponta Delgada mantém tradição familiar, sem sucessão. A empresa António Pedro Jorge & Filhos, Lda, também embala produtos alimentares secos, Correio dos Açores. 19 de Abril de 2026, pp. 1-7.

[28] Testemunho de Dinis Machado, filho de Euclides, 23-24-25 de Abril de 2026

[29] Testemunho de Graça Machado, filha de Euclides, 23 de Abril de 2026.

[30] Primeiro, era ele mais o meu cunhado (Pedro Cordeiro). Ele ia sentado ao lado, o meu cunhado é que conduzia. Almoçava, jantava e ganhava dez contos por semana. Morava em Ponta Delgada. Levava o camião consigo. Pusemos, depois, ele fora. Houve desentendimentos. Por causa de contas. Dava-se dinheiro para pagar juros. Nada. Depois foi o José Pascoal, o filho do Tio Guilherme Pascoal. O meu marido era primo chegado dos Pascoal pela parte do pai. António Avelino Machado. O José Pascoal andava a distribuir com o meu marido. Bateu com o camião. A frente despachada. Quinhentos contos para arranjar. O meu marido entregou esse dinheiro ao Paulinho Melo, na Boavista, nada de camião. Segue-se o Thomas [Kettenbaum] e a Susana. Os alemães. A Susie era muito esperta, mais do que o marido. Era ela que ia mais vezes. Depois o Carlinhos, filho do Ângelo Carvalho.

[31] O pior foi o meu cunhado. O melhor de todos, o mais certinho foi o primeiro. Dez contos por semana. Era dinheiro.

[32] Vendi o moinho porque meu cunhado fez-me aquilo com a hipoteca sem saber.

[33] Testemunho de Dinis Machado, filho de Euclides, 23-24-25 de Abril de 2026; Testemunho de Dinis Lacerda Machado, filho de Euclides, 12 de Maio de 2026.

[34] Guido, Outeiro, Praia e Areia, substituíram rodízios de madeira por rodízios de ferro, dava mais. E levavam às freguesias outros produtos além da farinha. Alfinete e Palha trabalhavam para se entreter: contavam os dias para fechar.

[35] O Dinis casou e ficou a morar comigo. Ele é que fazia a distribuição da farinha do pai e do pão. Passou a levar da Madalena [Padeira da Madalena] e do meu.

[36]A Madalena.

[37] Testemunho de Dionísia Lacerda Machado, viúva de Euclides Moniz Machado, 30 de Abril de 2026. Tive um vizinho que se queixou do fumo do forno. Meti-me com o advogado Pedro Paulo. Filho do Clemente Carlota. Tive o trabalho todo para dar certo.

[38] Testemunho de Inês Gonçalves, 6 de Maio de 2026. NOTA nossa: Dizem-nos que o moinho e a propriedade estão numa imobiliária à venda por milhão e meio.


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Uma História do Surfe na Ribeira Grande (I Parte)   A História do Surfe começa no Sul da Ilha e o seu berço foi na praia das Milícias/Pópulo. A prática do surf, ‘ já com regras, torna-se regular a partir dos anos 80. É a geração de 80-90.’ Não foram os primeiros, porém, dariam o ‘ empurrão ’ que faltava. [1] ‘ Há uma primeira associação de surfe ligada [e não só] à Escola Antero Quental. ’ [2] É organizada uma primeira competição. [3] ‘O Primeiro Meeting de Surf data de 1985. Tem lugar na Praia do Pópulo.’ [4] Por volta de 82/82, já vinham surfar à Ribeira Grande. Porque frequentaram logo depois Santa Bárbara e o Monte Verde? [5] ‘ A resposta mais simples é a qualidade das ondas. Mas tem a ver com várias coisas o facto de ser praia com fundo de areia. Estar virada a norte e exposta às ondulações. O tamanho das praias com várias i ok das ou picos como nós chamamos. Ondas .’ [6] De que quadrante são ali as melhores? ‘ Ondas Norte com vento Sul são as condições ideais .’...

A Alvorada e o Império de São Pedro

  A Alvorada e o Império de São Pedro          Alvorada 1.ª metade do século XX   Alvorada 2007                Império de São Pedro:           Império de São Pedro:              Rabo de Peixe……………… Fenais da Ajuda   1. Alvorada ou Arvorada? Cavalhada ou Carvalhada ?   No primeiro documento conhecido que chama um nome à coisa, diz-se assim: ‘(…) cavalhada, vulgo, arvorada [sic] de Sam Pedro.’ (1875) No falar ouvido pelas ruas da sua terra de berço e área de influência, diz-se tudo ao dizer-se simplesmente: Arvorada ou Alvorada de São Pedro . Por ali, ouvem-se com a mesma facilidade com que se mete ar nos pulmões expressões como: Vais ver a Alvorada?   És o Rei da Alvorada? Vais na Alvorada? Quantos cavalos foram este ano na A...

A Ribeira Grande nos séculos XV, XVI e XVII: «Assim a vejo e assim a sinto.»

  A Ribeira Grande nos séculos XV, XVI e XVII: «Assim a vejo e assim a sinto.»          O Prof. Dr. José Mattoso, prestigiado medievalista português, numa sólida e bem fundamentada lição proferida, já lá vão, dois ou três anos, na Universidade dos Açores, problematizou muito sagaz e proficientemente a temática da história local inserida na mais recente epistemologia histórica.    Em traços largos, e em jeito de súmula ao seu rico e profundo pensamento, ouso respigar uma ou outra trave mestra da sua síntese.    Assim como primeira consideração, torna-se necessário ao historiador local não só almejar o auto-conhecimento da comunidade ou das comunidades que investiga, mas também todo o seu contexto espácio-temporal abrangente a que ela está, directa ou indirectamente, mas sempre indissoluvelmente ligada.    Como nó górdio de toda esta epistemologia histórica, e, seu âmago essencial, está a sua vocação problematizad...