Os moinhos da Mãe de Água dos
irmãos Olímpio e Manuel Pedro
A História desses
moinhos é a História fascinante de uma ponte, de uma levada subterrânea, de
três moinhos de rodízio e de um moinho de azenha. A primeira notícia que temos
disso é de 24 de Março de 1852. Fica logo aí a saber-se que os moinhos estavam
a ser construídos, que ficavam na Mãe de Água, na margem direita da ribeira
Grande, próximos do antigo arco (aqueducto)
seiscentista das freiras clarissas do Mosteiro do Santo Nome de Jesus, num
prédio de Manuel Pedro de Melo e Silva.[1]Mas onde ao certo?[2] Numa cova no extremo Norte
do prédio. É ali que encontramos hoje o que resta deles. Isso quer dizer que já
estariam ali em 1852? Sim. Quem pretendesse construir moinhos naquele prédio, era
ali mesmo, naquela cova, no extremo Norte do prédio, que os teria de construir.[3] Porquê? Porque só ali era
possível dar à levada a distância e o desnível necessários entre os cubos junto
aos moinhos e a mão dos moinhos no extremo Sul (um pouco acima do prédio).[4] Por isso é que digo que ficavam
ali, onde hoje vemos as suas ruínas. Aquela cova, quase a tocar na ribeira, é a
parte mais baixa de uma ladeira transformada em tapada que, pelas Matrizes Prediais, era um pomar de laranjas [quinta].
Tapada pertencente a Manuel Pedro
Melo e Silva.[5] Em determinada altura, talvez antes das
décadas de oitenta e de noventa do século XIX, a tapada de laranjas está
inscrita num artigo e o moinho noutro. Teriam já novo dono? Por essa altura,
ainda não, já que, Manuel Pedro de Melo e Silva ainda figura aí como sendo dono
das duas propriedades. Assim sendo, porque estarão inscritos em artigos
distintos? Talvez porque sempre tivessem estado separados? Talvez porque se
pretendesse antecipar futuras eventualidades: partilhas ou venda.[6] Nada, porém, que se deva estranhar,
aconteceu outro tanto ao vizinho do lado: o MDS II?
Levando em linha de
conta o que algumas pessoas daqui com idade suficiente e com memória ainda fresca
me contaram, algumas até próximas daqueles moinhos, levando ainda em linha de
conta o que fui registando desde que comecei a estudar os moinhos em 1984 até
hoje, vou partilhar com quem me lê o que já sei (e não sei, claro) acerca
daqueles moinhos. Estão na margem direita da ribeira, tal como os outros dois moinhos
de ribeira conhecidos da Mãe de Água, tem a sua fachada do lado dos caboucos
voltada a Poente (para ribeira), erguida a dois a três metros acima do nível da
água da ribeira. Distam uns cem a cento e oitenta metros a jusante da saída da
água dos caboucos do (destruído) MDS II.[7] Antes de principiar a obra
dos moinhos e da ponte, houve que consolidar, preencher e nivelar a cova. Levantar
paredes de protecção junto à margem da ribeira.[8] A cheia de há quatro anos antes,
de 1848, havia derrubado muitos muros na Mãe de Água. Talvez venha daí a reparação,
reforço (em altura) ou até a construção de raiz dos muros de protecção de pedra
solta do lado da ribeira (muros poentes) da tapada. Que vemos hoje.[9] A levada, após tomar a água da mão dos moinhos (represa), mão construída
na ribeira a uns escassos metros da saída da água dos cubos do MDS II, cortava de
Sul a Norte a tapada. [10] No troço
que atravessa a tapada, que terá sessenta ou pouco mais de metros, a levada é subterrânea.
Foi escavada uma galeria, pelo pouco que consegui ver, nalguns pontos a uma
profundidade variável entre dois a mais de três metros, e coberta por lajes ‘amarradas’
em ângulo recto. A levada, feita de modo a poder ser percorrida a pé, foi impermeabilizada
com detim e coberta de terra.[11] Ao longo dela, havia pelo
menos um quebradouro. Quando a água dentro
da levada atingia um certo nível, ela transbordava para a ribeira. Trabalhos
(moinhos, taludes e levada) admiráveis, colossais. Para o moleiro regular a
água na mão, limpar a vala ou aliviar a pressão nos quebradouros, em tempos ainda
se via um atalho marginal à ribeira (hoje totalmente engolido por silvas,
lantanas e canas). A casa dos moinhos já nessa altura teria dois pisos? Se
olharmos para o exemplo do vizinho Caroucha, não necessariamente. A primeira descrição (área dos moinhos e a que se
destina cada um dos dois pisos) conhecida daqueles moinhos, seguramente
posterior a 1919, já refere dois pisos.[12] Onde morava o moleiro? E
a família? Perto dos moinhos? Em rua próxima? Essa parte, volto-vos a
relembrar, carece de uma investigação mais profunda: até lá, deixe-se o assunto
em aberto?[13]
Olímpio, de nome
completo Olímpio da Silva Melo, fizera cinquenta e um anos em Setembro (n.
24-09-1800 – f. 9-9-1879), era casado e pai de
filhos, casara em Agosto de 1846, Manuel Pedro fora ‘padrinho’ do irmão, e morava numa casa da rua João da Horta, na
Matriz.[14] Manuel Pedro, cujo nome completo
era Manuel Pedro de Melo e Silva, fizera trinta e sete em Fevereiro (n. 27-02-1815 – f. 6-08-1894), era solteiro
e pai de filhos, e morava numa casa da rua Direita, na Conceição.[15] Enquanto
Manuel Pedro ocupou cargos de poder, de prestígio
e desempenhou papéis importantes a pedido da família, que se saiba, o irmão
não. Apesar de não
se conhecer documento alusivo à constituição de uma qualquer sociedade
destinada à construção e exploração desses moinhos, há ainda assim uma boa ou
assim/assim probabilidade desses moinhos terem
resultado de alguma
forma de parceria entre os dois irmãos. Em que fundamento o que digo? No
conhecimento, acima do razoável, de que esses moinhos se mantiveram na família,
no lado dos dois ou de um dos irmãos, com maior grau de probabilidade, até à
década de oitenta ou inícios da década de noventa. E, menos provável, mas a
ter-se em conta, até 1905.[16] Ou
até, ainda menos provável, mas ainda possível, até 1913.
Naquele dia de Março
de 1852, falando porventura em nome de ambos, Manuel Pedro era vereador da Câmara, navegava bem essas
águas, diz estar ‘fazendo uns Moinhos [casa com moinhos, entenda-se] no sítio da Mãe de Água da mesma Vila (…).’ [17] Pretendia, acrescentava, ‘para
melhor trânsito dos indivíduos, que deles se quiserem servir, fazer uma ponte
encostada ao arco, por onde passa
[a] água que vai ao extinto Convento das
Freiras da referida Vila [...].’[18] De que maneira é que a
ligação pela margem esquerda da ribeira poderia oferecer ‘melhor trânsito aos fregueses daqueles moinhos,’ se os que se
construíam ficavam na margem direita? Não lhes sairia mais barato abrir um
acesso da cova ao caminho da margem direita do que construir uma ponte? É certo
que havia, ao longo da margem esquerda, acompanhando o percurso da ribeira
Grande, um caminho de terra batida que ligava as quintas de laranja e de vinha
da Mãe de Água à canada da Palha e à canada das Gibas. Porém, havia também uma
ligação pela margem direita. Quatro
anos antes, uma cheia ‘aniquilara’ a
ponte da Mãe de Água de João Almeida (co-proprietário do moinho do Pimentel).[19] Esses
moinhos, uma das sete segundas casas da levada da Condessa, um das duas da Mãe
de Água, que depois passaram a José Joaquim de Melo Teixeira, tinham forçosamente
ter uma ponte que os ligasse à margem direita. Ficavam na margem esquerda,
cercados a Norte, a Sul e a Poente pela ribeira Grande e ribeira da Pernada. Os
moinhos da Caroucha, na margem direita, serviam-se pelo caminho da margem
direita. E os moinhos de Manuel Duarte Silva II muito provavelmente também.
Se havia uma ligação
pela margem direita, por que razão terão escolhido o caminho da margem
esquerda? Porque era a melhor maneira de ir da Mãe de Água à casa de Manuel
Pedro na rua Direita, a principal rua da Ribeira Grande, onde nos baixos da sua
casa teria ‘lojas?’ Lojas onde se
guardava o vinho, a laranja e agora também farinha e cereais? Podia pelas Gibas
descer os Foros. Podia pela Palha descer o Outeiro, a Salvação e a rua do
Alcaide. Como os moinhos ficavam numa cova, por aquele lado seria mais fácil? O
irmão Olímpio morava na rua João de Horta, na margem direita, rua que ficava um
pouco arredada das principais ligações da Ribeira Grande com a costa Sul. Terão
escolhido aquele caminho para conquistarem a rica clientela da rua Direita e a da
Conceição? A situação não tardaria a mudar. Em 1858, Olímpio foi morar para a
rua Direita e Manuel Pedro foi morar para a sua casa nova na Praça da Matriz (antes
também foi a rua da Matriz, hoje largo da Cascata).[20] A nova residência de
Manuel Pedro, situada a curtíssima distância da Câmara e da ponte do Paraíso
que leva à rua Direita, dispunha de amplos espaços (lojas). E agora? Começaram
também a usar o caminho da margem direita? Era apenas descer a canada de Trás
os Mosteiros, atravessar o Largo das Freiras, passar a rua das Freiras e a rua
do Espírito Santo e chegava-se ao centro e à nova residência de Manuel Pedro. Fosse
qual fosse a razão da escolha, coisa que não nos dizem, em 1852 optaram pela
margem esquerda.[21]
Daí a ponte.
A ponte foi feita.[22] Para a construir ‘encostada
ao arco, e mesmo (…) nas astas ou muros da asta (?) do mesmo arco [asta
= haste, arco ou pilar],’ Manuel Pedro, ainda ele, e no mesmo documento, teve de obter
o consentimento do seu dono. E o dono do arco (aqueduto) era (pensava ele) José Maria da Câmara de Vasconcelos,
na realidade era já o filho, a quem José Maria havia passado há pouco todos os seus
bens. Apesar disso, José Maria (em nome do filho) responsabilizando Manuel
Pedro (e o irmão, subentenda-se) por quaisquer danos ao aqueduto que ocorressem
durante a obra e obrigando-o a negociar em caso de alterações ao projecto, autorizou.
Como seria a ponte? Em madeira? Em alvenaria? Não se sabe. O que se sabe é que
aquela ou já outra ponte foi destruída pela cheia de Agosto de 1919. Em todo o
caso, teria de ser uma ponte capaz de suportar cargas diversas.
Em pouco tempo, obtiveram a autorização
da Câmara e do dono do arco. Por que razão terá sido fácil obterem essas
autorizações? Talvez
porque as famílias pertencessem à elite que governava a Ribeira Grande. Era
parte da mesma rede de influências. Além disso, existiam, entre eles, laços de
parentesco. No caso de José Maria e dos irmãos Melo e Silva, José Maria era
cunhado do irmão de Madre Margarida Isabel do Apocalipse (autora do Arcano
Místico). Os irmãos eram filhos de Ana Umbelina, prima direita e muito querida
de Madre Margarida. Manuel Pedro, no seio da sua família chegada, era tido por alguém
muito capaz, muito influente e bastante
confiável. Manuel Pedro era pai solteiro. A mãe, uma viúva, vivia com os
filhos. Juntaram-se todos debaixo do mesmo tecto, porém, a viúva era
identificada como ‘assistente.’ Só mais tarde, já a mãe de Manuel Pedro e a
prima freira haviam falecido, é que Manuel Pedro casou com a mãe dos seus
filhos. Nada disso afectou o apreço que a família tinha por ele. Essas
considerações morais, não eram então pertinentes. Será coisa muito mais tardia.
Por conseguinte, a família, pelos seus méritos e ligações, recorria a ele nos
momentos decisivos. A mãe, por exemplo, ao lavrar, em 1846, o seu testamento, nomeou-o
seu testamenteiro. Apesar de ter mais filhos e de Manuel Pedro não ser o mais
velho. A autora do Arcano Místico também o tem em alta estima. Manuel Pedro,
apesar de primo em segundo grau, tratava-a por tia e ela a ele por primo. Madre
Margarida Isabel do Apocalipse, em 1857, fê-lo igualmente seu testamenteiro. [23]
Até Olímpio, quinze anos mais velho do que Manuel Pedro, em 1875, nomeia o
irmão como testamenteiro e confia-lhe a própria escrita do testamento. Também advogavam
soluções próximas ou mesmo semelhantes para desenvolver a Ribeira Grande. Após um
período marcado por uma profunda desunião, mesmo hostilidade, a elite unia-se
em torno de dois projectos: uma associação e um jornal. Antes de Dezembro de
1856, avançavam com a ideia de um jornal.[24]
A 19 de Fevereiro de 1857, saía o primeiro número de A União.[25]
José Maria é director e será proprietário. Veio a presidir à ‘Associação (…) para promover os
melhoramentos materiais e morais do País (…).’[26]
País, entenda-se no caso, Ribeira Grande. Entre os nomes referidos, figura o de
Manuel Pedro.[27]
Que, na década de trinta, com pouco mais de vinte anos, já anda pela Câmara. Em Fevereiro de 1835, ele e o pai (ou o irmão, os nomes
confundem-se),
aparecem riscados na acta daquela sessão.[28]
Teria já algo a ver com o ambiente que levou à revolta dos Calcetas de Abril de
1835? Não sei. Manuel Pedro, porém, entra em força na década de cinquenta. É
vereador.[29]
Chega a ser Presidente
interino. Acompanha muito de perto os moinhos da Ribeira Grande. Em
Julho do ano em que constrói os seus na Mãe de Água, por exemplo, convence os
colegas da Câmara a intimar ‘os
proprietários dos moinhos da canada da Palha e da ribeira dos Escarolas a
taparem a ribeira ou levada dos seus moinhos nos lugares perigosos para evitar
acidentes com crianças e animais.’[30] Não prejudicavam os seus, os seus ficavam a um
meio quilómetro a montante?[31]
Se calhar, quem não o soubesse, poderia lançar-lhe culpas? Será que Manuel Pedro, ao contrário de
Manuel Duarte Silva, de quem já falamos nos últimos dois trabalhos, se
aproveitou da posição privilegiada que ocupava na Câmara e na sociedade para
promover os seus próprios interesses?[32] É
provável. Como parece ter sido então a norma.
Como se explica o interesse dos
irmãos pelo negócio da farinha?
Talvez se explique assim: seguiam a tendência geral. Que era? O negócio da
farinha era negócio a não perder. Acrescenta-lhes mais rendimentos aos negócios
da laranja, do vinho, do milho.[33] Além
disso, o pai e três irmãos já estavam ou iriam estar metidos no mesmo negócio. Chagaram
a estar ligados a quatro (casas com) moinhos. O pai fora mesmo dos primeiros da
terra a aproveitar a quebra do monopólio do Conde. A 23 de Novembro de 1822,
com António da Silva, Manuel Cabral de Melo e António Lopes Cabral, funda uma
sociedade para construir moinhos de ribeira na Longaia.[34] Pela mesma
altura em que Manuel Pedro e Olímpio constroem os seus, o irmão José Duarte
Melo, em sociedade com o então cunhado Francisco de Paula Velho,
constrói o moinho da Praça, uma das sete segundas casas da levada da Condessa.[35] Em 1871, pelo menos, José Duarte é um
dos três que recebem foro do Moinho da Areia (II), outra das sete segundas
casas da levada da condessa.[36]
Pelo trabalho
de três moegas, a 16 de Abril de 1855, Olímpio paga à Câmara 2$000 réis de taxa
por cada uma. Será essa a data em que principiaram a trabalhar? Não sabemos ao
certo quando isso aconteceu, embora isso só possa ter acontecido em data depois
de Março de 1852 e antes de Abril de 1855. Uma dúvida: será que os moinhos de que
fala Manuel Pedro em 1852 são os mesmos de 1855 de Olímpio? [37]Até prova em contrário ou melhor
interpretação da que proponho, admito (de forma condicional) que possam ser os
mesmos. Alimento essa hipótese nas confrontações que nos dão as Matrizes
Prediais desses moinhos e dos restantes da Mãe de Água.[38] Porém,
por que razão Olímpio é o único dos dois referido? Não será por Manuel Pedro ser
vereador naquele ano económico de 1854/1855, era-o em 1852, ainda assim, foi
ele e não o irmão Olímpio quem tratou das licenças com a Câmara. Será, antes, pelo
facto de os moinhos pertencerem aos dois, assim, qualquer um deles poderia
fazê-lo? Tal como aconteceu com as licenças?[39] E se
os moinhos pertencessem só a Manuel Pedro e Olímpio apenas estivesse a fazer um
favor ao irmão? Ou se Manuel Pedro os tivesse arrendado ao irmão? Não sei. Mais.
Como explicar que nem Olímpio nem Manuel Pedro apareçam nas taxas dos anos subsequentes
(param em 1856/57)? Foram vendidos ou arrendados a Francisco Melo? No ano
económico de 1856/7, Francisco Melo tem na Mãe de Água um moinho de três moegas.[40] A
ser o moinho dos irmãos, terão sido arrendados. Pois, eles estão ainda na posse
da família até depois de 1856/7. Porque os arrendaram? Provavelmente foi uma
opção. A que se deve acrescentar motivos pessoais?[41] Entre
vários outros projectos de Manuel Pedro, um, cuja importância lhe transcende, é
o da casa por onde vai residir com a família entre a quaresma de 1858 e a 1859.
Aqui tenho de lançar mão a nova hipótese. Essa nova casa talvez seja a de três
pisos, com amplas lojas, que acompanha os degraus da escadaria da igreja Matriz
de Nossa Senhora da Estrela. Pelo facto de se ter mantido (comprovadamente) na
família pelo menos até à segunda metade do século XX, tudo leva a crer que foi
aquela a residência de Manuel Pedro. Terá sido construída de raiz por Manuel
Pedro (números de polícia 12 a 18)? É uma possibilidade em aberto. É um
edifício imponente. De linhas sóbrias. Há quem diga que da ‘arquitectura da época da laranja.’ De
influência inglesa? É enorme, tirando a igreja Matriz, destaca-se de todos os
demais ao seu redor. Mas de linhas sóbrias. No Largo Hintze Ribeiro, pela mesma
altura, construía-se uma casa naquele estilo. Ora, antes de 1858/59, Manuel
Pedro, como já foi dito, estava a construir os moinhos da Mãe de Água. Terá
primeiro construído os moinhos e só depois construído a casa? Ou melhorado o
que já lá havia?
Um salto
de três a quatro décadas? O que nos dizem acerca desses moinhos as Matrizes
Prediais que virão ainda da década de oitenta ou o mais tardar da primeira
metade da de noventa do século XIX?[42]
Olímpio não aparece. Porquê? Porque falecera a 9 de Setembro de 1879? Ia fazer
setenta anos dali a duas semanas.[43] Fizera
testamento quatro anos antes, em que deixara tudo aos filhos e aos netos.
Porém, aí nada se diz de moinhos.[44] Porquê?
Pelo contrário, ‘Manuel Pedro de Melo e
Silva e Augusto, filho,’ aparecem, mas estão riscados. Que ligação haveria
entre esse Augusto a Manuel Pedro? Filho ou sobrinho neto, filho de Cordelina
Augusta da Silva, filha falecida (em 1875) do igualmente falecido irmão Olímpio
(falecido em 1879)? Será esse Augusto o Augusto Faria dono (a seguir a Manuel
Pedro) da quinta que encosta pelo Sul ao moinho?[45] Sobrinho neto, filho ou filho adoptivo, parte
ou metade dos moinhos eram dele. Sendo ainda uma criança, tratando-se do
sobrinho neto, os pais casaram em 1870, havendo a mãe falecido em 1875, José
Leonardo Tavares vai gerir a parte dos moinhos do filho? Será que também gere em
nome de Manuel Pedro? José Leonardo Tavares estava dentro da vida dos moinhos, herdara
a terça do foro do moinho da Areia, e herdara os moinhos do pai.[46] Em 1886, Manuel Pedro ainda era vivo, e ‘José
Leonardo Tavares e outro’ (não identificado) pagam à Câmara a taxa daquele
ano.[47]
Esse outro poderá ser ou não Manuel
Pedro, que, por qualquer motivo, incluindo doença, cansaço, vendera, arrendara
ou deixara os moinhos ao cuidado de José Leonardo que, entretanto, voltara a casar
em 1875? Manuel Pedro fizera testamento em 1890, aí também não referira moinhos.[48] Porquê?
Já os teria vendido? Não sei. Mas há ligeiras suspeitas de que pudesse ter
mudado de mãos. Ou tal fosse pretendido. As Matrizes, as que virão das décadas
de oitenta ou já da de noventa, apresentam dois artigos: um respeitante aos
moinhos, o outro dizendo respeito à tapada (quinta). Porquê? Seja como for,
Manuel Pedro faleceria em Agosto de 1894.[49] De setenta
e nove anos.[50]
Nas Matrizes, respeitantes àqueles moinhos, em 1905, figura só o nome de José
Leonardo.[51]
Viria a falecer em Abril de 1911. Aos 65 anos. Em 1913, já pertencem a Viriato
Manuel Pereira, de Ponta Delgada.[52] Quem
é Viriato? Era comerciante. Natural da Lomba da Maia. Genro de José Leonardo. Casara
com Beatriz, filha do segundo casamento de José Leonardo.[53] Em
1919, na altura da grande cheia, o moinho já é de Manuel de Andrade Almeida.
Homem da Matriz, ligado ao Moinho Novo?[54] Porém,
apesar dos danos significativos que sofreu, a História desses moinhos, aqui conhecidos
por moinhos da Cova ou moinhos do João Vieira Velho, o último a trabalhar com
eles, não acabou em 1919. Se foi moinho de ‘rodízio’
(roda ou penado horizontal no cabouco) desde (sensivelmente) 1852 até
1950 foi também, iniciativa de João Vieira Velho,
azenha (roda vertical exterior) até parar, ainda na década de cinquenta, ou, o
mais tardar em inícios da década de sessenta do século XX.[55] No
entanto, a vida daquele moinho, ainda que mais limitada, não acaba quando a
azenha deixa de funcionar. Maximino Tenente
[Maximino Moniz], da família Moniz, toda ligada aos moinhos, dali de Trás os
Mosteiros, e a companheira Francelina [da Conceição], continuam a moer num dos
moinhos de rodízio. Não moem
para fora, fazem-no apenas para consumo do gado do patrão e para o consumo de alguns
dos colaboradores do patrão. Situação que
se irá manter até bem dentro da década de setenta.[56] Quando João Inácio Vieira faz negócio
com José Araújo em 1988, já só serviam de casa à família de Maximino. José
Araújo vende-o à volta de 1995 a Albano Vieira, filho de João Vieira.[57]
Maximino morre nesse mesmo ano. A companheira Francelina morre três anos depois
e o filho de Maximino morre em 2007. O espaço fica sem moradores. Joana Vieira,
filha de Albano Vieira a quem o pai havia doado o espaço, vende-o em 2022 a Rui
Âmbar.[58]Havendo
uma próxima ocasião, quero aprofundar a fascinante História desse moinho (ou
moinhos).
Mãe de Água – Cidade da Ribeira
Grande
PS: Agradecimento especial ao Dr.
José Câmara pela continuada ajuda genealógica.
[1] Como explicar
essa História? Oferecendo
uma narrativa honesta e razoável.[1] Porquê? Por falta de documentos. E por dúvidas
que ficam a pairar. Um neto de Augusto Faria, anterior dono da tapada, deu-nos
essa descrição. Já anda pelos oitenta anos e frequentava o espaço. Testemunho
10 de Julho de 2026.
[2] Sem dispor de planos de obra ou descrições
pormenorizadas da obra, que podem nem sequer ter existido, resta-nos tentar dar
uma resposta o mais aproximada e coerente possível. Vamos a isso?
[3] Mas será que esses moinhos ficavam mesmo dentro da tapada de Manuel Pedro ou num espaço junto à ribeira que Manuel Pedro acabou por ‘roubar’ à ribeira e anexou à tapada? Não sei. Mas vai dar ao mesmo.
[4] Além disso, a água que saía dos caboucos do moinho de Manuel Duarte Silva II, entrava na ribeira ligeiramente acima da mão dos moinhos de Manuel Pedro de Melo e Silva. Só numa eventualidade bastante remota (e não provada) de o local ter sofrido alteração radical, pela mão do homem ou da natureza, é que se poderia considerar uma localização diferente daqueles moinhos.
[5] Testemunho de Luís Motta Vieira, neto de Augusto Faria, 9-10 de Julho de 2026. O prédio foi herdado pelo irmão José que o vendeu a Emanuel Pontes que, por seu turno, o vendeu ao proprietário actual. O que é confirmado pelas Matrizes Prediais. Por observação no terreno em companhia do actual proprietário, António Gomes de Sousa. Segundo Luís Faria, neto de Augusto, a parte desanexada, no tempo do avô estava plantada de vinha: ‘era dali que o meu pai fazia o vinho abafado.’
[6] As Matrizes
Prediais mais antes, que virão ainda da década de oitenta ou já da década de
noventa do século XIX, já apresentam dois artigos diferentes. AMRG, Matriz
Predial Rústico, Freguesia Matriz, 1-1255, volume 31, artigo1235; artigo 1236.
[7] Conto ser mais
preciso para a II parte. Quero lá voltar. Em 1986, anotei c. 180 metros.
[8] Claro que, já
que não se dispõe de um eventual plano da obra, só uma intervenção arqueológica
nos poderia fazer avançar neste conhecimento.
[9] Devem estar
seguramente a uns três a quatro metros do nível da ribeira. Há um talude de
pedra solta que encosta ao arco (aqueducto) e à empena (alçado lateral) Norte
dos moinhos, terá uns três metros de altura, partindo do tanque dos caboucos
chega até ao meio da janela do 2.º piso. Outro talude de pedra solta, o talude
do tanque dos caboucos (ou o seu suporte), a uns 2 metros do leito da ribeira,
avança uns dois a três metros adentro do leito da ribeira. Estreita ao longo da
fachada ligando-se ao talude da tapada. Esse talude, à primeira vista, tenho de
ir de novo ao local, dá a impressão de que era o parapeito de um caminho que
descia aos moinhos? Terá sido? Termina na extrema Norte do actual prédio de
António Melo Sousa.
[10] As fotografias
fazem parte da pesquisa que comecei a fazer naquele ano de 1986. É possível ver
a entrada da água na levada. O que resta da mão. E seguir o percurso da levada.
Está obstruída pelo canavial e pela areia da areia. Até lá, o que dá já para
ver. Açoriano Oriental, 7 de Outubro de 1848. Antes
de Manuel Pedro e depois de muitos outros, como consta das Matrizes Prediais. A levada (o troço que atravessa a tapada) encontra-se hoje
oculta sob lajes de pedra cobertas por uma camada de terra. A levada, pelo que
pude ver, está obstruída por areia da ribeira. Foi cortada a ligação da quinta
aos caboucos dos moinhos.
[11] Observação feita em Maio e de novo hoje, dia 18 de Julho de 2026.Guiado pelo proprietário, António Gomes de Sousa, fiquei a saber que ela ruiu em alguns pontos. Que ele construiu degraus para a galeria. Vou ter de ver melhor e medir melhor. E fazer um desenho o mais exacto possível.
[12] AMRG, Matriz
Predial Urbano, Matriz-Ribeirinha, 996-1687, artigo 1060: ‘Uma casa de moinho
com a superfície coberta de 90 m com 2 andares – 1.ªa divisão onde se encontra
um moinho com três rodas movidas à força da água, N.º 2 – e divisão destinada a
habitação (…).’
[13] Confrontando os artigos 1060 e o 422 das Matrizes Prediais que dizem respeito aos moinhos, fica-se com a ideia de que o seu espaço aumentou. Se o artigo 1060, cuja actualização sobre a área do moinho virá possivelmente de um ano posterior a 1919 e não irá muito além da década de quarenta, dá 90 metros quadrados ao moinho de dois pisos, já o artigo 422, talvez de um ano depois mas próximo de 1950, dá uma área total de 239 (176 para o 1.º piso e c. 63 para o 2.º piso.
[14] BPARPD,
Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, Olímpio da Silva Melo com Dona Maria
Amália de Melo, 17 de Agosto de 1846, Livro 1832-1860, fl. 138 v.
[15] BPARPD, Óbitos,
Conceição, Ribeira Grande, Olímpio da Silva Melo, 9 de Setembro de 1879, fl. 26
v.; Baptizado com o nome de Francisco, na crisma, adoptou o nome de Olímpio.
Morreu com 79 anos de idade. Filho de José Duarte da Silva Pacheco e de Ana
Umbelina Castelo Branco.
[16] Ainda assim, apesar desses excelentes indícios dessa relação entre os irmãos, na verdade, as provas em que assentam o nosso pressuposto, são circunstanciais, não directas.
[17] AMRG, Acórdãos,
1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de
1829-1861 [?].
[18] AMRG, Acórdãos,
1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de
1829-1861 [?].
[19]Açoriano Oriental, 7 de Outubro de 1848: ‘(…) A ponte de João d’ Almeida, na Mãe d’ Água foi aniquilada, e muitos muros derribados, e bastantes terrenos alagados.’
[20] O estilo sóbrio dos moinhos assemelha-se ao desta casa: vãos de portas e de janelas muito simples. Os mesmos mestres? Acabaram os moinhos depois de 1852 e foram construir a casa? Pronta a habitar pelo menos entre as Quaresmas de 1857 e 1858.
[21] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1-1255, Volume 31, 1235: ‘Uma casa de moinhos com três rodas de moer cereais (…) que confronta Norte: Servidão; Sul e Nascente: Manuel Pedro de Melo e Silva e poente: ribeira Grande.’ Nos proprietários do moinho: Manuel pedro de Melo e Silva e Augusto, filho (…) Essa servidão é prova de ligação à margem direita? Ou à esquerda? Não sei.
[22] AMRG, Alvarás, 18 de Abril de 1852. José Maria da Câmara Vasconcelos
arrematara em 14 de Dezembro de 1833 o Mosteiro de Jesus, ao qual o aqueduto
pertencia.
Atente-se bem no final do Alvará: ‘e pede
autorização a José Maria da Câmara Vasconcelos para junto ao aqueduto que foi
das freiras fazer uma ponte.’ Notas notas, não confirmadas, aparece 1850. AMRG, Acórdãos,
1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de
1829-1861 [?].Pois e resposta do proprietário dono [sic] do arco José Maria da Câmara e Vasconcelos
se lhe deferirá como for de justiça [...] e autorizado por meu filho João Borges Vasconcelos hoje dono da
propriedade contemplada.’
[23]AMRG,
Administração do Concelho, Registo de testamentos, lv. 13, 1857,
fl.178-191; APNRG, Confraria do Santíssimo Sacramento, mç 83, fl.1-12 v.
[24] A União, Ribeira
Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857, fl. 2.
[25] A União, Ribeira
Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857.
[26] Estrela
Oriental, Ribeira Grande, nº 37, 4 de Fevereiro de 1857
[27] A União, Ribeira
Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857, fl. 1. E o de Martiniano Cabido, de Jorge Botelho Pacheco, de
Maurício de Arruda, e o do Reverendo Sr. José Caetano Dias. Tudo gente do
poder. Em 1833, José Maria é Procurador do Concelho. Em 1835, mantendo
casa na Ribeira Grande, mudara-se da Ribeira Grande para Ponta Delgada. Ora, antes de 2 de Agosto de
1831, a elite era (pelo menos exteriormente) absolutista. Parte dela, tornou-se
liberal de 2 para 3 de Agosto. Foi o caso de Teodoro, irmão de Madre Margarida.
Foi o caso de José Maria da Câmara de Vasconcelos, Presidente a 2 de Agosto de
1831, e que, em 1832, já no novo regime, volta a ser Presidente, substituindo o
cunhado Teodoro, que também fora Presidente antes do 2 de Agosto.
[28] AMRG, Vereações,
Acta da vereação de 21 de Fevereiro de 1835.
[29] AMRG, Vereações,
Vereação de 2 de Janeiro de 1850; AMRG, Vereações, Acta de 4 de Janeiro de
1852; Vereação de 19 Maio de 1853: ‘A
vereação condena as faltas sistemáticas e injustificadas de comparência às
reuniões de Manoel Pedro de Mello e Silva.’ A. M. R. Grande, Livro de
Acórdãos, Auto de Juramento e posse da Nova Câmara que tem de servir no biénio
de 1850 e 1851, 2 de Janeiro de 1850. Surge o nome de Manuel Pedro de Melo e Silva.
[30] AMRG, Vereação da Câmara Municipal da Ribeira Grande, de
11 de Julho de 1852: 11 de Julho de 1852: Vereador Melo e Silva para que fossem
intimados os proprietários dos moinhos da canada da Palha e da ribeira dos
Escarolas a taparem a ribeira ou levada dos seus moinhos nos lugares perigosos para evitar
acidentes com crianças e animais.
[31] AMRG, Vereação
de 7 de Julho de 1854: Em 1854,
o pai (ou o irmão) participa numa importante ‘reunião de aprovação de um orçamento suplementar;’ AMRG, Vereação
de 24 de Setembro de 1855: ‘Sejam de
grande gala os dias vinte seis, vinte sete e vinte oito do corrente mês (…) que
houvesse iluminação nos Paços do Concelho nos referidos dias (…):’ Ainda é vereador em 1855,
quando a Vila festeja a aclamação de D. Pedro V; AMRG, Vereação de 11 de Abril de
1856: Em 1855,
Manuel Pedro e o pai (ou o irmão), o cunhado do irmão José, José Maria da
Câmara de Vasconcelos, de volta à Ribeira Grande, e mais outros pesos pesados
da terra, são consultados pelo então Presidente Bernardo Manuel da Silveira
Estrela.
[32] Outros
terão feito o mesmo. Ou pior. Augusto Ferreira Cabido, por exemplo, pertence a
uma família que entra a fundo no negócio da farinha, faz parte da vereação de
1857. Vereação que discute o valor das taxas a aplicar aos moinhos. Entre 1857
e 1880, não se conhecem novas taxas. Porquê? Desapareceram as séries
documentais ou as taxas foram bloqueadas?
[33] AMRG, Matriz Predial, Conceição, volume 62, ano de 1971, 1-872, 825, 863. Por exemplo, Olímpio na Pernada e na Ribeira do Teixeira tinha 24 alqueires de terrenos e matas, nos quais cultivava milho. Vi por alto e não procurei as propriedades de Manuel Pedro.
[34] BPARPD,
Tablionato Ribeira Grande, António José da Ponte, lv. 131, M 21, fls. 42v-43v.
[35] AMRG, Contribuição dos
Moinhos, Julho de 1854, 1854 – 1856 ; BPARPD, Casamentos, Conceição, Ribeira Grande,
Casamento de José Duarte de Melo, viúvo, 21 de Dezembro de 1858, lv.6,
1832-1860, fl. 237v. 21 Dez. 1858 Casamento de José Duarte de Melo, viúvo de D. Maria Carlota
de Melo, sepultada no cemitério desta Vila, e Querubina Júlia Carvalho, de
manhã, ambos baptizados e desobrigados na Conceição. Casaram na Conceição. Ele,
filho de José Duarte Pacheco Silva e de Dona Ana Umbelina de Melo. Ela, filha
de António Bernardo de Carvalho e de Rosa Jacinta, já defuntos. Foram
testemunhas: Olímpio da Silva Melo, casado, e
Manuel Pedro de Melo e Silva, sui
juris, solteiro, ambos fregueses da Conceição. Irmãos do noivo. ‘Não
receberam Bênçãos por ser tempo proibido pela Igreja. Receberão as Bênçãos em 4/02/1860. O Cura Ferreira.
[36] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa
Senhora da Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62‘635 (1871) – Praia.
Vitoriano Ferreira Marcos, rua de São Sebastião. Casa de moinho. Norte: Areal;
Sul: servidão do moinho; Nascente: moinho de Jerónimo de Paiva Lemos; Poente:
dita servidão. Este prédio é FOREIRO a Félix José Ferreira, da rua Direita de
São Francisco e a José Duarte Pacheco, da rua do Valverde, da Freguesia da
Matriz, em 150$ 020 reis. Como se vê, Félix José Ferreira, antecipando esta
nossa narrativa, cujo filho casará em 1870 com uma filha de Olímpio, é um
desses três.
[37] Aqui tenho que confessar a razão da dúvida.
Que irá persistir até a tirar por completo. Tenho um texto mais sucinto, de
registo de Alvarás é de 1852. Tenho no entanto um texto mais desenvolvido (não
sei se é duas versões minhas do mesmo) que parece trazer a data de 1850. Fui já
às actas indicadas e nada encontrei.
[38] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1-1255, Volume 31, 1235: ‘Uma casa de moinhos com três rodas de moer cereais (…) que confronta Norte: Servidão; Sul e Nascente: Manuel Pedro de Melo e Silva e poente: ribeira Grande.’ Nos proprietários do moinho: Manuel pedro de Melo e Silva e Augusto, filho (…); AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1.1255, volume 31, 1236: prédio, do qual se terá desanexado o moinho, em que se vê o nome de Manuel Pedro de melo e Silva, seguido de Augusto Faria (será esse o Augusto).
[39] Há,
porém, na Mãe de Água, um exemplo em contrário: o moinho de D. Maria Aurora da
Piedade e de João Jacinto de Almeida. Ambos os nomes são referidos. Deixando a
dúvida a marinar, avancemos.
[40] MDS I com 3
moegas, o MDS II com 2 moegas, o Caroucha com 2 e os anteriores proprietários
do de José Joaquim com 3. Será esse o moinho de Manuel Pedro e de Olímpio? Com
três moegas na Mãe de Água, além dos moinhos de Manuel Pedro/Olímpio, só os
moinhos da Caroucha. Em substituição dos nomes dos irmãos, aparece o de
Francisco Melo (com três moegas).
[41] BPAPD, Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, lv.6,
1832-1860, fl. 237v. Em
1851, Manuel Pedro mora na Conceição, na rua Direita, em casa própria, próxima
da dos pais e de um irmão. Em 1853, a viúva Maria Máxima, de quem tem filhos,
uma filha de nome Gertrudes, mora numa casa da rua da Bica (hoje rua do Gonçalo
Bezerra). Em 1853, Olímpio, casado e sem filhos, vive na Matriz, na rua João de
Horta. Rua da prima Madre Margarida. Em 1855, Manuel Pedro, solteiro, já vive
com a viúva Maria Máxima. A viúva mais os filhos Bento, de idade atribuída de
sete anos, e Gertrudes, de idade atribuída de dez anos, juntaram-se a Manuel
Pedro (o pai) na rua Direita. A mãe e o pai de Manuel Pedro vivem numa casa ao
lado. O irmão José Duarte, viúvo, vive noutra casa ao lado. Irmão que volta a
casar em finais de 1858. Olímpio e Manuel Pedro são suas testemunhas. Na
quaresma de 1859, Manuel Pedro, Maria Máxima, identificada como assistente, e
os dois filhos de ambos, haviam-se mudado para uma imponente casa na rua da
Praça construída de raiz (hoje Largo Gaspar Frutuoso), na freguesia Matriz. No
início da minha ligação de trabalho à autarquia, o engenheiro João Nascimento
comprou essa casa. Encontrou pequena mas variada biblioteca e hemeroteca que
ofereceu à Casa da Cultura da Ribeira Grande, hoje museu Municipal. Nos
almanaques encontrei referências do punho de Manuel Pedro de Melo Silva aos
anos da prima Madre Margarida Isabel do Apocalipse. Esta casa era da família
Moniz de Vasconcelos. Família com quem a filha de Manuel Pedro havia casado. No
rol quaresmal de 1919, na rua da Matriz, essa rua, aparece a morar aí Caetano
da Silva Moniz. Descendente da filha de Manuel pedro. Por tudo isso, estou
inclinado em atribuir aquela casa a Manuel Pedro. Até estilisticamente virá das
décadas de 40 e de 50 do século XIX. BPARPD, Óbitos, José Duarte Pacheco de
Melo, 2 de Junho de 1859, Conceição, Ribeira Grande, L 6, (1851-1860), fl. 51;
APSPRS, Casamentos, Manuel Pedro de Melo e Silva e Dona Maria José Ferreira, 15
de Abril de 1864, N. 13, fl. 7: Só em Abril (a 15) de 1864, com quarenta e nove
anos, Manuel Pedro casa com a viúva mãe dos seus filhos, um ano mais velha do
que ele. Máxima no termo de casamento surge como Dona Maria José Ferreira.
Talvez por pudor, talvez para se manter longe dos olhares e da coscuvilhice da
vizinhança, casa na igreja de São Pedro, da Ribeira Seca. Em 1857, Madre
Margarida, talvez com a ajuda de Manuel Pedro, inaugura o altar de São João
Evangelista e promove a procissão em honra daquele apóstolo, objecto de culto
familiar. Em Maio (6 de Maio) de 1858 morre Madre Margarida. Manuel Pedro é o
testamenteiro. Em Junho desse ano de 1859, morre-lhe o pai. A mãe, morre em
1869. Tinha noventa anos de idade. A 13 de Setembro desse mesmo ano de 1869,
Manuel Pedro casa a filha Dona Gertrudes Augusta com Teodoro Moniz de
Vasconcelos. Os noivos eram ainda primos. Teodoro era filho de uma sobrinha de
Madre Margarida. E de José Maria, já falecera. BPARPD, Casamentos, Bom Jesus,
Rabo de Peixe, 13 de Setembro de 1869, N.º 21, fls. 11 v. -12.
[42] AMRG, Matriz
Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1 – 1255, volume 31, 1235
[43] BPARPDL, Óbitos,
Olímpio da Silva Melo, Conceição da Ribeira Grande, 9 de Setembro de 1879, fls.
26 v. – 27. Rol Quaresmal da
Conceição, 1874, Rua Direita; Rol Quaresmal da Conceição, 1875, rua Direita.
Vamos entrar no testamento? É um testamento que segue o padrão do da prima
Madre Margarida. Dá instruções precisas. Encomenda missas. O irmão Manuel Pedro
é quem lhe escreve o testamento. E é o seu primeiro testamenteiro. Numa casa da
rua Direita. Na Conceição. Fez testamento e deixou filhos. Era já viúvo. A
esposa havia falecido entre a Quaresma de 1874 e a de 1875.
[44] AMRG, Testamento
de Olímpio da Silva Melo, 5 de Abril de 1875, T. 25, 1870-1880, fls. 22.24 v.
[45] AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1.1255, volume 31, 1236.
[46] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa
Senhora da Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62 : ‘635 (1871) – Praia.
Vitoriano Ferreira Marcos, rua de São Sebastião. Casa de moinho. Norte: Areal;
Sul: servidão do moinho; Nascente: moinho de Jerónimo de Paiva Lemos; Poente:
dita servidão. Este prédio é FOREIRO a Félix José Ferreira, da rua Direita de
São Francisco e a José Duarte Pacheco, da rua do Valverde, da Freguesia da
Matriz, em 150$ 020 reis.’ Açoriano Oriental,
7 de Outubro de 1848: ‘Na vila, os moinhos de Félix José Ferreira, sofreram
consideráveis estragos [moinhos de ribeira].’ Esse moinho sofrera os efeitos da
cheia de 1848. Félix descendia de famílias da governança local (há tenentes e capitães), morava na rua de São
Francisco, a rua que se seguia à rua Direita, na Conceição.Deveriam ser
conhecidos. Em 1857, Félix é membro da Comissão da Sociedade Promotora dos melhoramentos do Concelho da Ribeira Grande, da
qual também fazia parte Manuel Pedro. Fazem também parte dessa mesma
associação: António Manuel da Silveira Estrela, o Doutor Pedro José Baptista, o
Reverendo Manuel Tavares de Resendes, João de Aguiar, João do Monte Carvalho, e
José Bento de Melo Alguns deles foram Presidentes de Câmara. Devia ser
pela idade de Olímpio.
[47] Esses foram os donos. E rendeiros
conhecidos? Nas Matrizes vemos os nomes de Manuel Jacinto de Medeiros, da –
Matriz, – rua do Botelho e Francisco Teixeira (Moleiro), desta Vila. Em 1880.
Encontramos um Manuel Medeiros Gerista,
da Matriz. O moinho tem três pedras. Em 1881 esse nome deixa de aparecer.
Aparece o nome de Lourenço da Ponte. Será o novo rendeiro? Há aqui nova dúvida.
Para 1886, Lourenço da Ponte continua a aparecer,
mas paga só a taxa de duas pedras (a taxa já não incide sobre a moega).
[48] AMRG, Registo do
Testamento de Manuel Pedro de Melo e Silva, 21 de Maio de 1890, Registo de
Testamento, 1893, Livro 36, Administração do Concelho, fls. 98 v – 100.
[49] BPARPD, Óbitos,
Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Manuel Pedro de Melo e Silva, 6 de Agosto
de 1894, fls. 29 v-30.
[50] Ficara viúvo em
Dezembro de 1890. BPARPD, Óbitos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Maria
Máxima, mulher de Manuel Pedro de Melo e Silva, 27 de Dezembro de 1890, N.º
285, fls. 82 v. - 83. AMRG, Registo do Testamento de Manuel Pedro de Melo e
Silva, 21 de Maio de 1890, Registo de Testamento, 1893, Livro 36, Administração
do Concelho, fls. 98 v – 100: Ainda havia feito testamento com a esposa em Maio
daquele ano.
[51] AMRG, Testamento
de Olímpio da Silva Melo, 5 de Abril de 1875, T. 25, 1870-1880, fl. 22 v. AMRG, Vereação Ribeira Grande, 10 de
Setembro de 1903: ‘Nesta sessão foram
presentes José Leonardo Tavares
[Senhorio do J.P. III, mas da levada da Condessa, qual seria o seu moinho
de ribeira? Haverá algum outro além do de Olímpio e Manuel Pedro? Pode ser o
que o pai tinha em 1848], Luís António
Moniz [Açougue], Manuel de Andrade de
Almeida proprietários dos moinhos denominados da ribeira. Cristiano da Silva
Canário, Francisco Borges Giesta, António Bernardo Pacheco e Manuel Rodrigues
Couvinha arrendatários de moinhos da mesma denominação e declararam à Câmara
que haviam alterado o registo das águas da ribeira Grande que vão para os
moinhos denominados do Conde da Ribeira de sorte que prejudica o volume das
águas que servem de motor aos ditos moinhos da ribeira (…).’ Em 1903, José
Leonardo é dono de um moinho de ribeira, que pode não ser ou não esse nosso
moinho. Comprara ou herdara a parte dos herdeiros de Manuel Pedro?
[52] Há um anúncio de
venda de um moinho da Mãe de Água datado de 9 de Junho de 1909, ai não se diz
qual, mas pode ser esse nosso. O Trabalho, 9 de Junho de 1909, fl. 4. Se for o
nosso, qual poderia ter sido a razão de o pôr à venda? José Leonardo
desinteressara-se? Por doença? O genro herdou? Comprou?
[53] Cf. Rodrigo Rodrigues, Genealogias de São Miguel e de Santa Maria.
[54] Nos Róis da Matriz de 1919, na rua do Rato aprece-nos um
Manuel de Andrade (será o nosso?) casado, de 57 anos, proprietário, de três
filhos António, 19; Elisa, 17 e Odília, 14).
[55] Nota de 22 de Julho de 2026. Como os testemunhos orais
que tenho conseguido até agora, não tenho prova escrita, são bastante
contraditórios, vou continuar com o assunto em aberto. Por enquanto, parece que
apontam para o facto de a azenha parar antes dos molinhos de rodízio. O filho
João, que vai fazer 80 anos, não se lembra de a ver trabalhar, Manuel Borges Jornata, um amigo de brincadeiras de
infância, mais velho uns meses, lembra-se de a ver a trabalhar. Quanto aos dois
moinhos de rodízio, a História é diferente. José Vieira (75 anos) lembra-se de
os ver ainda a trabalhar na década de 70. Não trabalhavam para fora,
trabalhavam apenas para fornecer farinha ao gado do pai e aos seus
trabalhadores da fábrica de blocos. Quem moía lá era o Maximino Tenente. Que de
dia trabalhava a fazer blocos e à noite moía. Ou a companheira, a Francelina,
durante o dia. Continuou depois de 70’s? Não apurei. O que aconteceu para
deixar de moer? Não sei ainda. Sei que em 1997 (no ano em que o pai falece) o
pai mói no moinho do Clemente Carlota (Areia).
[56] Diz-me hoje, dia
22 de Julho de 2026, José Vieira, 75 anos, filho do patrão.
[57] O próprio diz-me
que o comprou a José Araújo. Rui Araújo,
filho de José Araújo, confirma-o.
[58] Registo Predial Digital,
Ribeira Grande [cópia facultada por Rui Âmbar]
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