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Os moinhos da Mãe de Água dos irmãos Olímpio e Manuel Pedro









 Os moinhos da Mãe de Água dos irmãos Olímpio e Manuel Pedro

A primeira notícia de que há memória desses moinhos é de 24 de Março de 1852. Pela mesma notícia sabe-se que estavam a ser construídos.[1] Olímpio, de nome completo Olímpio da Silva Melo, fizera cinquenta e um anos em Setembro (n. 24-09-1800 – f. 9-9-1879), era casado e pai de filhos, casara em Agosto de 1846, Manuel Pedro fora ‘padrinho’ do irmão, e morava numa casa da rua João da Horta, na Matriz.[2] Manuel Pedro, cujo nome completo era Manuel Pedro de Melo e Silva, fizera trinta e sete em Fevereiro (n. 27-02-1815 – f. 6-08-1894), era solteiro e pai de filhos, morava numa casa da rua Direita, na Conceição.[3] Enquanto Manuel Pedro exerceu cargos públicos de poder e prestígio e desempenhou papéis importantes a pedido da família, que se saiba, o irmão não. Apesar de não se conhecer documento alusivo à constituição de uma sociedade destinada à construção e exploração desses moinhos, ainda assim, há uma boa ou assim/assim probabilidade desses moinhos terem resultado de alguma forma de parceria entre os dois irmãos. Em que fundamento o que digo? No conhecimento, razoável, de que esses moinhos se mantiveram na família, no lado dos dois ou de um dos irmãos, com maior grau de probabilidade, até à década de oitenta ou inícios da década de noventa. E, menos provável, mas a ter-se em conta, até 1905.[4] Ou até, ainda menos provável, mas ainda possível, até 1913.

 Naquele dia de Março de 1852, falando porventura em nome de ambos, Manuel Pedro era vereador da Câmara, navegava bem essas águas, diz estar ‘fazendo uns Moinhos [casa com moinhos, entenda-se] no sítio da Mãe de Água da mesma Vila (…).’ [5] Pretendia, acrescentava, ‘para melhor trânsito dos indivíduos, que deles se quiserem servir, fazer uma ponte encostada ao arco, por onde passa [a] água que vai ao extinto Convento das Freiras da referida Vila [...].’[6] De que maneira é que a ligação pela margem esquerda da ribeira poderia oferecer ‘melhor trânsito aos fregueses daqueles moinhos,’ se os que se construíam ficavam na margem direita? Havia, ao longo da margem esquerda, acompanhando o percurso da ribeira Grande, um caminho de terra batida que ligava as quintas de laranja e de vinha da Mãe de Água à canada da Palha e à canada das Gibas. Era a melhor ligação entre a Mãe de Água e a casa de Manuel Pedro na rua Direita, a principal rua da Ribeira Grande, onde nos baixos da sua casa teria ‘lojas.’ Lojas onde se guardava o vinho, a laranja e agora também farinha e cereais? Podia pelas Gibas descer os Foros. Podia pela Palha descer o Outeiro, a Salvação e a rua do Alcaide. Como os moinhos ficavam numa cova, por aquele lado seria mais fácil? O irmão Olímpio morava na rua João de Horta, na margem direita, rua que ficava um pouco arredada das principais ligações da Ribeira Grande com a costa Sul. Terão escolhido aquele caminho por desejavam conquistar a rica clientela da rua Direita e a da Conceição? Fosse qual fosse a razão da escolha, coisa que não nos dizem, optaram pela margem esquerda.[7] Daí a ponte.

A ponte foi feita.[8] Porém, para construir uma ponte encostada ao aqueduto, Manuel Pedro, ainda ele, e ainda no mesmo documento, teve de pedir autorização ao dono. E o dono era José Maria da Câmara de Vasconcelos, ou melhor, era o seu único filho, a quem havia há pouco passado todos os seus bens. José Maria (em nome do filho) responsabilizando Manuel Pedro (e o irmão, subentenda-se) por quaisquer danos ao aqueduto que ocorressem durante a obra e obrigando-o a negociar em caso de alterações ao projecto, autorizou. Porque foi fácil a autorização de José Maria? E a da Câmara? Talvez porque faziam parte da mesma rede de influências. Talvez porque as famílias pertenciam à elite que governava a Ribeira Grande. Existiam, de facto, entre eles, laços de parentesco. No caso de José Maria e dos irmãos Melo e Silva, José Maria era cunhado do irmão de Madre Margarida Isabel do Apocalipse (autora do Arcano Místico). Os irmãos eram filhos de Ana Umbelina, prima direita e muito querida de Madre Margarida. Manuel Pedro, no seio da sua família chegada, era tido por alguém muito capaz, muito influente e bastante confiável. Recorriam a ele nos momentos decisivos. A mãe, por exemplo, ao lavrar, em 1846, o seu testamento, nomeou-o seu testamenteiro. Apesar de ter mais filhos e de Manuel Pedro nem sequer ser o mais velho. A autora do Arcano Místico também o tem em alta estima. Manuel Pedro, apesar de primo em segundo grau, tratava-a por tia e ela a ele por primo. Madre Margarida Isabel do Apocalipse, em 1857, fê-lo igualmente seu testamenteiro. [9] Até Olímpio, quinze anos mais velho do que Manuel Pedro, em 1875, nomeia o irmão como testamenteiro e confia-lhe a própria escrita do testamento. Também advogavam soluções próximas ou mesmo semelhantes para desenvolver a Ribeira Grande. Após um período marcado por uma profunda desunião, mesmo hostilidade, a elite unia-se em torno de dois projectos: uma associação e um jornal. Antes de Dezembro de 1856, avançavam com a ideia de um jornal.[10] A 19 de Fevereiro de 1857, saía o primeiro número de A União.[11] José Maria é director e será proprietário. Veio a presidir à ‘Associação (…) para promover os melhoramentos materiais e morais do País (…).[12] País, entenda-se, Ribeira Grande. Entre os nomes referidos, figura o de Manuel Pedro.[13] Que, na década de trinta, com pouco mais de vinte anos, já anda pela Câmara. Em Fevereiro de 1835, ele e o pai (ou o irmão, os nomes confundem-se), aparecem riscados na acta daquela sessão.[14] Teria já algo a ver com o ambiente que levou à revolta dos Calcetas de Abril de 1835? Não sei. Manuel Pedro, porém, entra em força na década de cinquenta. É vereador.[15] Chega a ser Presidente interino. Acompanha muito de perto os moinhos da Ribeira Grande. Em Julho do ano em que constrói os seus na Mãe de Água, por exemplo, convence os colegas da Câmara a intimar ‘os proprietários dos moinhos da canada da Palha e da ribeira dos Escarolas a taparem a ribeira ou levada dos seus moinhos nos lugares perigosos para evitar acidentes com crianças e animais.’[16] Não prejudicavam os seus, os seus ficavam a um meio quilómetro a montante?[17] Se calhar, quem não o soubesse, poderia lançar-lhe culpas? Será que Manuel Pedro, ao contrário de Manuel Duarte Silva, de quem já falamos nos últimos dois trabalhos, se aproveitou da posição privilegiada que ocupava na Câmara e na sociedade para promover os seus próprios interesses?[18] É provável. Como parece ter sido então a norma.

Como se explicará o interesse dos irmãos pelo negócio da farinha? Talvez se possa explicar pelo simples facto de, tal como sucedeu a muitos mais então, considerarem o negócio um bom negócio. Dava-lhes mais rendimentos. Acrescenta ao negócio da laranja, ao do vinho, ao do milho.[19] Além do mais, o pai e três irmãos já estavam ou iriam estar metidos no mesmo negócio. Ligaram-se a quatro (casas com) moinhos. O pai fora mesmo dos primeiros da terra a aproveitar a quebra do monopólio do Conde. A 23 de Novembro de 1822, com António da Silva, Manuel Cabral de Melo e António Lopes Cabral, funda uma sociedade para construir moinhos de ribeira na Longaia.[20] Pela mesma altura em que Manuel Pedro e Olímpio constroem os seus, o irmão José Duarte Melo, em sociedade com o então cunhado Francisco de Paula Velho, constrói o moinho da Praça, uma das sete segundas casas da levada da Condessa.[21] Em 1871, pelo menos, José Duarte é um dos três que recebem foro do Moinho da Areia (II), outra das sete segundas casas da levada da condessa.[22]

Pelo trabalho de três moegas, a 16 de Abril de 1855, Olímpio paga à Câmara 2$000 réis de taxa por cada uma. É a data em que começaram a laborar? Não sabemos ao certo quando principiaram, embora isso só possa ter ocorrido em data depois de Março de 1852 e antes de Abril de 1855. Será que os moinhos de que fala Manuel Pedro em 1852 são os mesmos de 1855 de Olímpio? [23] Até prova em contrário ou melhor interpretação da que proponho, admito (de forma condicional) que possam ser os mesmos. Alimento essa hipótese nas confrontações dadas pelas Matrizes Prediais desses moinhos e dos restantes da Mãe de Água.[24] Porém, por que razão só Olímpio é aí referido? Não será por Manuel Pedro ser vereador naquele ano económico de 1854/1855, era-o em 1852, ainda assim, foi ele e não o irmão quem tratou das licenças com a Câmara. Será, antes, pelo facto de os moinhos pertencerem aos dois, assim, qualquer um deles poderia fazê-lo? Tal como aconteceu com as licenças?[25] E se os moinhos pertencessem só a Manuel Pedro e Olímpio apenas estivesse a fazer um favor ao irmão? Ou se Manuel Pedro os tivesse arrendado ao irmão? Não sei. Mais. Como explicar que nem Olímpio nem Manuel Pedro apareçam nas taxas dos anos subsequentes (param em 1856/57)? Foram vendidos ou arrendados a Francisco Melo? No ano económico de 1856/7, Francisco Melo tem na Mãe de Água um moinho de três moegas.[26] A ser o moinho dos irmãos, terão sido arrendados. Pois, eles estão ainda na posse da família até depois de 1856/7. Porque os arrendaram? Provavelmente foi uma opção. A que se deve acrescentar motivos pessoais?[27]

Um salto de três a quatro décadas? O que nos dizem desses moinhos as Matrizes Prediais que virão ainda da década de oitenta ou o mais tardar da primeira metade da de noventa do século XIX?[28] Olímpio não aparece. Porquê? Porque falecera a 9 de Setembro de 1879? Ia fazer setenta anos dali a duas semanas.[29] Fizera testamento quatro anos antes, em que deixara tudo aos filhos e aos netos. Porém, nada aí se diz de moinhos.[30] Porquê? Não sei. Pelo contrário, ‘Manuel Pedro de Melo e Silva e Augusto, filho,’ aparecem, mas estão riscados. Que ligação haveria  entre esse Augusto a Manuel Pedro? Filho ou sobrinho neto, filho de Cordelina Augusta da Silva, filha falecida (em 1875) do igualmente falecido irmão Olímpio (falecido em 1879)? Será esse Augusto o Augusto Faria dono (a seguir a Manuel Pedro) da quinta que encosta pelo Sul ao moinho?[31] Sobrinho neto, filho ou filho adoptivo, parte ou metade dos moinhos eram dele. Sendo ainda uma criança, tratando-se do sobrinho neto, os pais casaram em 1870, havendo a mãe falecido em 1875, José Leonardo Tavares vai gerir a parte dos moinhos do filho? Será que também gere em nome de Manuel Pedro? José Leonardo Tavares estava dentro da vida dos moinhos, herdara a terça do foro do moinho da Areia, e herdara os moinhos do pai.[32] Em 1886, Manuel Pedro ainda era vivo, eJosé Leonardo Tavares e outro’ (não identificado) pagam à Câmara a taxa daquele ano.[33] Esse outro poderá ser ou não Manuel Pedro, que, por qualquer motivo, incluindo doença, cansaço, vendera, arrendara ou deixara os moinhos ao cuidado de José Leonardo que, entretanto, voltara a casar em 1875? Manuel Pedro fizera testamento em 1890, aí também não referira moinhos.[34] Porquê? Já os teria vendido? Não sei. Faleceria em Agosto de 1894.[35] De setenta e nove anos.[36] Nas Matrizes, respeitantes àqueles moinhos, em 1905, figura só o nome de José Leonardo.[37] Viria a falecer em Abril de 1911. Aos 65 anos. Em 1913, já pertencem a Viriato Manuel Pereira, de Ponta Delgada. Quem é Viriato? Era comerciante. Natural da Lomba da Maia. Genro de José Leonardo. Casara com Beatriz, filha do segundo casamento de José Leonardo.[38] Em 1919, na altura da grande cheia, o moinho já é de Manuel de Andrade Almeida. Homem da Matriz, ligado ao Moinho Novo?[39] Porém, apesar dos danos significativos que sofreu, a História desses moinhos, aqui conhecidos por moinhos da Cova ou moinhos do João Vieira Velho, o último a trabalhar com eles, não acabou em 1919. Se foi moinho de ‘rodízio’ (roda ou penado horizontal no cabouco) desde (sensivelmente) 1852 até 1950 foi também, iniciativa de João Vieira Velho, azenha (roda vertical exterior) até parar, o mais tardar em inícios da década de sessenta do século XX. A partir daí, deu guarida a famílias pobres, foi trocado e vendido. Se houver ocasião, quero falar disso.

 

  Mãe de Água – Cidade da Ribeira Grande

 



[1] Como explicar essa História? Oferecendo uma narrativa honesta e razoável.[1] Porquê? Por falta de documentos. E por dúvidas que ficam a pairar.

[2] BPARPD, Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, Olímpio da Silva Melo com Dona Maria Amália de Melo, 17 de Agosto de 1846, Livro 1832-1860, fl. 138 v.

[3] BPARPD, Óbitos, Conceição, Ribeira Grande, Olímpio da Silva Melo, 9 de Setembro de 1879, fl. 26 v.; Baptizado com o nome de Francisco, na crisma, adoptou o nome de Olímpio. Morreu com 79 anos de idade. Filho de José Duarte da Silva Pacheco e de Ana Umbelina Castelo Branco.

[4] Ainda assim, apesar desses excelentes indícios dessa relação entre os irmãos, na verdade, as provas em que assentam o nosso pressuposto, são circunstanciais, não directas.

[5] AMRG, Acórdãos, 1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de 1829-1861 [?].

[6] AMRG, Acórdãos, 1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de 1829-1861 [?].

[7] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1-1255, Volume 31, 1235: ‘Uma casa de moinhos com três rodas de moer cereais (…) que confronta Norte: Servidão; Sul e Nascente: Manuel Pedro de Melo e Silva e poente: ribeira Grande.’ Nos proprietários do moinho: Manuel pedro de Melo e Silva e Augusto, filho (…) Essa servidão é prova de ligação à margem direita? Ou à esquerda? Não sei.

[8] AMRG, Alvarás, 18 de Abril de 1852. José Maria da Câmara Vasconcelos arrematara em 14 de Dezembro de 1833 o Mosteiro de Jesus, ao qual o aqueduto pertencia. Atente-se bem no final do Alvará: ‘e pede autorização a José Maria da Câmara Vasconcelos para junto ao aqueduto que foi das freiras fazer uma ponte.’ Notas notas, não confirmadas, aparece 1850. AMRG, Acórdãos, 1849-1850,Vereação de 13 de Fevereiro de 1850, [fl. 78], Registo de Alvarás de 1829-1861 [?].Pois e resposta do proprietário dono [sic] do arco José Maria da Câmara e Vasconcelos se lhe deferirá como for de justiça [...] e autorizado por meu filho João Borges Vasconcelos hoje dono da propriedade contemplada.’

[9]AMRG, Administração do Concelho, Registo de testamentos, lv. 13, 1857, fl.178-191; APNRG,Confraria do Santíssimo Sacramento, mç 83, fl.1-12 v.

[10] A União, Ribeira Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857, fl. 2.

[11] A União, Ribeira Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857.

[12] Estrela Oriental, Ribeira Grande, nº 37, 4 de Fevereiro de 1857

[13] A União, Ribeira Grande, n.º 1, 19 de Fevereiro de 1857, fl. 1. E o de Martiniano Cabido, de Jorge Botelho Pacheco, de Maurício de Arruda, e o do Reverendo Sr. José Caetano Dias. Tudo gente do poder. Em 1833, José Maria é Procurador do Concelho. Em 1835, mantendo casa na Ribeira Grande, mudara-se da Ribeira Grande para Ponta Delgada. Ora, antes de 2 de Agosto de 1831, a elite era (pelo menos exteriormente) absolutista. Parte dela, tornou-se liberal de 2 para 3 de Agosto. Foi o caso de Teodoro, irmão de Madre Margarida. Foi o caso de José Maria da Câmara de Vasconcelos, Presidente a 2 de Agosto de 1831, e que, em 1832, já no novo regime, volta a ser Presidente, substituindo o cunhado Teodoro, que também fora Presidente antes do 2 de Agosto.

[14] AMRG, Vereações, Acta da vereação de 21 de Fevereiro de 1835.

[15] AMRG, Vereações, Vereação de 2 de Janeiro de 1850; AMRG, Vereações, Acta de 4 de Janeiro de 1852; Vereação de 19 Maio de 1853: ‘A vereação condena as faltas sistemáticas e injustificadas de comparência às reuniões de Manoel Pedro de Mello e Silva.’ A. M. R. Grande, Livro de Acórdãos, Auto de Juramento e posse da Nova Câmara que tem de servir no biénio de 1850 e 1851, 2 de Janeiro de 1850. Surge o nome de Manuel Pedro de Melo e Silva.

[16] AMRG, Vereação da Câmara Municipal da Ribeira Grande, de 11 de Julho de 1852: 11 de Julho de 1852: Vereador Melo e Silva para que fossem intimados os proprietários dos moinhos da canada da Palha e da ribeira dos Escarolas a taparem a ribeira ou levada dos seus moinhos nos lugares perigosos para evitar acidentes com crianças e animais.

[17] AMRG, Vereação de 7 de Julho de 1854: Em 1854, o pai (ou o irmão) participa numa importante ‘reunião de aprovação de um orçamento suplementar;’ AMRG, Vereação de 24 de Setembro de 1855: ‘Sejam de grande gala os dias vinte seis, vinte sete e vinte oito do corrente mês (…) que houvesse iluminação nos Paços do Concelho nos referidos dias (…):’ Ainda é vereador em 1855, quando a Vila festeja a aclamação de D. Pedro V; AMRG, Vereação de 11 de Abril de 1856: Em 1855, Manuel Pedro e o pai (ou o irmão), o cunhado do irmão José, José Maria da Câmara de Vasconcelos, de volta à Ribeira Grande, e mais outros pesos pesados da terra, são consultados pelo então Presidente Bernardo Manuel da Silveira Estrela.

[18] Outros terão feito o mesmo. Ou pior. Augusto Ferreira Cabido, por exemplo, pertence a uma família que entra a fundo no negócio da farinha, faz parte da vereação de 1857. Vereação que discute o valor das taxas a aplicar aos moinhos. Entre 1857 e 1880, não se conhecem novas taxas. Porquê? Desapareceram as séries documentais ou as taxas foram bloqueadas?

[19] AMRG, Matriz Predial, Conceição, volume 62, ano de 1971, 1-872, 825, 863. Por exemplo, Olímpio na Pernada e na Ribeira do Teixeira tinha 24 alqueires de terrenos e matas, nos quais cultivava milho. Vi por alto e não procurei as propriedades de Manuel Pedro.

[20] BPARPD, Tablionato Ribeira Grande, António José da Ponte, lv. 131, M 21, fls. 42v-43v.

[21] AMRG, Contribuição dos Moinhos, Julho de 1854, 1854 – 1856 ;  BPARPD, Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, Casamento de José Duarte de Melo, viúvo, 21 de Dezembro de 1858, lv.6, 1832-1860, fl. 237v. 21 Dez. 1858 Casamento de José Duarte de Melo, viúvo de D. Maria Carlota de Melo, sepultada no cemitério desta Vila, e Querubina Júlia Carvalho, de manhã, ambos baptizados e desobrigados na Conceição. Casaram na Conceição. Ele, filho de José Duarte Pacheco Silva e de Dona Ana Umbelina de Melo. Ela, filha de António Bernardo de Carvalho e de Rosa Jacinta, já defuntos. Foram testemunhas: Olímpio da Silva Melo, casado, e Manuel Pedro de Melo e Silva, sui juris, solteiro, ambos fregueses da Conceição. Irmãos do noivo. ‘Não receberam Bênçãos por ser tempo proibido pela Igreja. Receberão as Bênçãos em 4/02/1860. O Cura Ferreira.

[22] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa Senhora da Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62‘635 (1871) – Praia. Vitoriano Ferreira Marcos, rua de São Sebastião. Casa de moinho. Norte: Areal; Sul: servidão do moinho; Nascente: moinho de Jerónimo de Paiva Lemos; Poente: dita servidão. Este prédio é FOREIRO a Félix José Ferreira, da rua Direita de São Francisco e a José Duarte Pacheco, da rua do Valverde, da Freguesia da Matriz, em 150$ 020 reis. Como se vê, Félix José Ferreira, antecipando esta nossa narrativa, cujo filho casará em 1870 com uma filha de Olímpio, é um desses três.

[23] Aqui tenho que confessar a razão da dúvida. Que irá persistir até a tirar por completo. Tenho um texto mais sucinto, de registo de Alvarás é de 1852. Tenho no entanto um texto mais desenvolvido (não sei se é duas versões minhas do mesmo) que parece trazer a data de 1850. Fui já às actas indicadas e nada encontrei.

[24] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1-1255, Volume 31, 1235: ‘Uma casa de moinhos com três rodas de moer cereais (…) que confronta Norte: Servidão; Sul e Nascente: Manuel Pedro de Melo e Silva e poente: ribeira Grande.’ Nos proprietários do moinho: Manuel pedro de Melo e Silva e Augusto, filho (…); AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1.1255, volume 31, 1236: prédio, do qual se terá desanexado o moinho, em que se vê o nome de Manuel Pedro de melo e Silva, seguido de Augusto Faria (será esse o Augusto).

[25] Há, porém, na Mãe de Água, um exemplo em contrário: o moinho de D. Maria Aurora da Piedade e de João Jacinto de Almeida. Ambos os nomes são referidos. Deixando a dúvida a marinar, avancemos.

[26] MDS I com 3 moegas, o MDS II com 2 moegas, o Caroucha com 2 e os anteriores proprietários do de José Joaquim com 3. Será esse o moinho de Manuel Pedro e de Olímpio? Com três moegas na Mãe de Água, além dos moinhos de Manuel Pedro/Olímpio, só os moinhos da Caroucha. Em substituição dos nomes dos irmãos, aparece o de Francisco Melo (com três moegas).

[27] BPAPD, Casamentos, Conceição, Ribeira Grande, lv.6, 1832-1860, fl. 237v. Em 1851, Manuel Pedro mora na Conceição, na rua Direita, em casa própria, próxima da dos pais e de um irmão. Em 1853, a viúva Maria Máxima, de quem tem filhos, uma filha de nome Gertrudes, mora numa casa da rua da Bica (hoje rua do Gonçalo Bezerra). Em 1853, Olímpio, casado e sem filhos, vive na Matriz, na rua João de Horta. Rua da prima Madre Margarida. Em 1855, Manuel Pedro, solteiro, já vive com a viúva Maria Máxima. A viúva mais os filhos Bento, de idade atribuída de sete anos, e Gertrudes, de idade atribuída de dez anos, juntaram-se a Manuel Pedro (o pai) na rua Direita. A mãe e o pai de Manuel Pedro vivem numa casa ao lado. O irmão José Duarte, viúvo, vive noutra casa ao lado. Irmão que volta a casar em finais de 1858. Olímpio e Manuel Pedro são suas testemunhas. Na quaresma de 1859, Manuel Pedro, Maria Máxima, identificada como assistente, e os dois filhos de ambos, haviam-se mudado para uma imponente casa na rua da Praça construída de raiz (hoje Largo Gaspar Frutuoso), na freguesia Matriz. Aqui tenho de lançar a rede a nova hipótese. Essa nova casa talvez seja a casa de três pisos, com amplas lojas, que acompanha os degraus da escadaria da igreja Matriz de Nossa Senhora da Estrela. Terá sido construída de raiz por Manuel Pedro (números de polícia 12 a 18). É um edifício imponente. Feito num estilo diferente. Sóbrio. A lembrar certas arquitecturas ditas de influência inglesa. No início da minha ligação de trabalho à autarquia, o engenheiro João Nascimento comprou essa casa. Encontrou pequena mas variada biblioteca e hemeroteca que ofereceu à Casa da Cultura da Ribeira Grande, hoje museu Municipal. Nos almanaques encontrei referências do punho de Manuel Pedro de Melo Silva aos anos da prima Madre Margarida Isabel do Apocalipse. Esta casa era da família Moniz de Vasconcelos. Família com quem a filha de Manuel Pedro havia casado.  No rol quaresmal de 1919, na rua da Matriz, essa rua, aparece a morar aí Caetano da Silva Moniz. Descendente da filha de Manuel pedro. Por tudo isso, estou inclinado em atribuir aquela casa a Manuel Pedro. Até estilisticamente virá das décadas de 40 e de 50 do século XIX. BPARPD, Óbitos, José Duarte Pacheco de Melo, 2 de Junho de 1859, Conceição, Ribeira Grande, L 6, (1851-1860), fl. 51; APSPRS, Casamentos, Manuel Pedro de Melo e Silva e Dona Maria José Ferreira, 15 de Abril de 1864, N. 13, fl. 7: Só em Abril (a 15) de 1864, com quarenta e nove anos, Manuel Pedro casa com a viúva mãe dos seus filhos, um ano mais velha do que ele. Máxima no termo de casamento surge como Dona Maria José Ferreira. Talvez por pudor, talvez para se manter longe dos olhares e da coscuvilhice da vizinhança, casa na igreja de São Pedro, da Ribeira Seca. Em 1857, Madre Margarida, talvez com a ajuda de Manuel Pedro, inaugura o altar de São João Evangelista e promove a procissão em honra daquele apóstolo, objecto de culto familiar. Em Maio (6 de Maio) de 1858 morre Madre Margarida. Manuel Pedro é o testamenteiro. Em Junho desse ano de 1859, morre-lhe o pai. A mãe, morre em 1869. Tinha noventa anos de idade. A 13 de Setembro desse mesmo ano de 1869, Manuel Pedro casa a filha Dona Gertrudes Augusta com Teodoro Moniz de Vasconcelos. Os noivos eram ainda primos. Teodoro era filho de uma sobrinha de Madre Margarida. E de José Maria, já falecera. BPARPD, Casamentos, Bom Jesus, Rabo de Peixe, 13 de Setembro de 1869, N.º 21, fls. 11 v. -12.

[28] AMRG, Matriz Predial Rústica, Freguesia Matriz, 1 – 1255, volume 31, 1235

[29] BPARPDL, Óbitos, Olímpio da Silva Melo, Conceição da Ribeira Grande, 9 de Setembro de 1879, fls. 26 v. – 27. Rol Quaresmal da Conceição, 1874, Rua Direita; Rol Quaresmal da Conceição, 1875, rua Direita. Vamos entrar no testamento? É um testamento que segue o padrão do da prima Madre Margarida. Dá instruções precisas. Encomenda missas. O irmão Manuel Pedro é quem lhe escreve o testamento. E é o seu primeiro testamenteiro. Numa casa da rua Direita. Na Conceição. Fez testamento e deixou filhos. Era já viúvo. A esposa havia falecido entre a Quaresma de 1874 e a de 1875.

[30] AMRG, Testamento de Olímpio da Silva Melo, 5 de Abril de 1875, T. 25, 1870-1880, fls. 22.24 v.

[31] AMRG, Matriz Rústica, Matriz, 1.1255, volume 31, 1236.

[32] AMRG, RFRBG, Matriz Predial Urbano, Ribeira Grande, Nossa Senhora da Conceição, Artigos 1-872, volume N.º 62 : ‘635 (1871) – Praia. Vitoriano Ferreira Marcos, rua de São Sebastião. Casa de moinho. Norte: Areal; Sul: servidão do moinho; Nascente: moinho de Jerónimo de Paiva Lemos; Poente: dita servidão. Este prédio é FOREIRO a Félix José Ferreira, da rua Direita de São Francisco e a José Duarte Pacheco, da rua do Valverde, da Freguesia da Matriz, em 150$ 020 reis.’ Açoriano Oriental, 7 de Outubro de 1848: ‘Na vila, os moinhos de Félix José Ferreira, sofreram consideráveis estragos [moinhos de ribeira].’ Esse moinho sofrera os efeitos da cheia de 1848. Félix descendia de famílias da governança local (há tenentes e capitães), morava na rua de São Francisco, a rua que se seguia à rua Direita, na Conceição.Deveriam ser conhecidos. Em 1857, Félix é membro da Comissão da Sociedade Promotora dos melhoramentos do Concelho da Ribeira Grande, da qual também fazia parte Manuel Pedro. Fazem também parte dessa mesma associação: António Manuel da Silveira Estrela, o Doutor Pedro José Baptista, o Reverendo Manuel Tavares de Resendes, João de Aguiar, João do Monte Carvalho, e José Bento de Melo Alguns deles foram Presidentes de Câmara. Devia ser pela idade de Olímpio.

[33] Esses foram os donos. E rendeiros conhecidos? Nas Matrizes vemos os nomes de Manuel Jacinto de Medeiros, da – Matriz, – rua do Botelho e Francisco Teixeira (Moleiro), desta Vila. Em 1880. Encontramos um Manuel Medeiros Gerista, da Matriz. O moinho tem três pedras. Em 1881 esse nome deixa de aparecer. Aparece o nome de Lourenço da Ponte. Será o novo rendeiro? Há aqui nova dúvida. Para 1886, Lourenço da Ponte continua a aparecer, mas paga só a taxa de duas pedras (a taxa já não incide sobre a moega).

[34] AMRG, Registo do Testamento de Manuel Pedro de Melo e Silva, 21 de Maio de 1890, Registo de Testamento, 1893, Livro 36, Administração do Concelho, fls. 98 v – 100.

[35] BPARPD, Óbitos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Manuel Pedro de Melo e Silva, 6 de Agosto de 1894, fls. 29 v-30.

[36] Ficara viúvo em Dezembro de 1890. BPARPD, Óbitos, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Maria Máxima, mulher de Manuel Pedro de Melo e Silva, 27 de Dezembro de 1890, N.º 285, fls. 82 v. - 83. AMRG, Registo do Testamento de Manuel Pedro de Melo e Silva, 21 de Maio de 1890, Registo de Testamento, 1893, Livro 36, Administração do Concelho, fls. 98 v – 100: Ainda havia feito testamento com a esposa em Maio daquele ano.

[37] AMRG, Testamento de Olímpio da Silva Melo, 5 de Abril de 1875, T. 25, 1870-1880, fl. 22 v. AMRG, Vereação Ribeira Grande, 10 de Setembro de 1903: Nesta sessão foram presentes José Leonardo Tavares [Senhorio do J.P. III, mas da levada da Condessa, qual seria o seu moinho de ribeira? Haverá algum outro além do de Olímpio e Manuel Pedro? Pode ser o que o pai tinha em 1848], Luís António Moniz [Açougue], Manuel de Andrade de Almeida proprietários dos moinhos denominados da ribeira. Cristiano da Silva Canário, Francisco Borges Giesta, António Bernardo Pacheco e Manuel Rodrigues Couvinha arrendatários de moinhos da mesma denominação e declararam à Câmara que haviam alterado o registo das águas da ribeira Grande que vão para os moinhos denominados do Conde da Ribeira de sorte que prejudica o volume das águas que servem de motor aos ditos moinhos da ribeira (…).’ Em 1903, José Leonardo é dono de um moinho de ribeira, que pode não ser ou não esse nosso moinho. Comprara ou herdara a parte dos herdeiros de Manuel Pedro?

[38] Cf. Rodrigo Rodrigues, Genealogias de São Miguel e de Santa Maria.

[39] Nos Róis da Matriz de 1919, na rua do Rato aprece-nos um Manuel de Andrade (será o nosso?) casado, de 57 anos, proprietário de três filhos António, 19; Elisa, 17 e Odília, 14).


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