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ONDE FICA O PARAÍSO?





Onde fica o Paraíso?

Em 1963, a um ano e meses da inauguração do Paraíso Infantil, Ventura R. Pereira explicava que o sonho era centenário.[1] E que os primeiros passos que levariam a Cova do Milho ao Paraíso, não tinham mais do que três décadas. Tudo começara nas ‘Câmaras presididas por Calisto de Oliveira Rocha [1926-1929] e [pelo] Dr. Artur Soares Arruda [1932-1940].’[2] Nesse período, a Câmara ‘comprou algumas casas devolutas para demolir.’ Mais tarde, os Presidentes Luciano Machado Cordeiro [1942-1945] e Lucindo Rebelo Machado [1941; 1946-1949] também compraram algumas casas disponíveis.[3]  Que pretendia a Câmara? Além de acabar com o ‘infecto’ Bairro da Cova do Milho, nesta fase, pouco mais queria. Ou antes, que se saiba, até hoje não se descobriu projecto do que se possa ter pretendido. O que se passava por essa altura lá em baixo no Bairro? Em 1943, o Bairro rebentava pelas costuras. Eram dezasseis casas e noventa e um moradores.[4] Era uma situação anormal: emigração fechada e Guerra Mundial. A situação normal, era diferente: apontava para o declínio no número de casas e de residentes. Como se vê em 1930: doze casas e trinta e quatro moradores.[5]

Na primeira metade da década de cinquenta, nasce um pequeno jardim. Além de adquirir mais algumas casas, ‘Hermano Mota Faria [1950-1955] (…) transformou um silvado existente na parte mais alta, local das antigas tendas de ferreiro, num jardim ‘de recorte artístico e elegante, aprazível à vista e agradável aos sentidos (…).’[6] Foi desenhado ao estilo do jardim cá de cima da Praça do Município, que fora desenhado na década de vinte por Luís da Silva Melo. Como era o dia-a-dia do Bairro na década de cinquenta? A este propósito, vale a pena ler o retrato humano que Ezequiel Moreira da Silva, recuando à sua adolescência nessa década de cinquenta, tira dali de baixo visto lá de cima: ‘os mais velhos, que já não podiam trabalhar, entretinham-se a fazer voltas aos comerciantes do centro e a beber uns calzinhos de aguardente, daquela mais barata que se dizia que inchava os pés. Os outros, adultos, trabalhavam por aqui e por ali e, alguns deles ocupavam-se a ir ao mato buscar lenha para queimar em casa e vender. Eram eles quem a transportava, às costas e por cima da moleixa, ou, então, usando uma pequena carroça de mão. No Verão, as raparigas e os rapazes, já de férias da escola, iam para o mato José do Canto para a apanha do chá. Iam e vinham descalços e a pé! Quanto às mulheres, as novas e ainda solteiras, muitas delas serviam em casas da Ribeira Grande ou de Ponta Delgada e, as outras, já casadas, lavavam roupas, as suas e as de outros, nas margens da ribeira e junto à levada do moinho que ali havia.’[7]

Na segunda metade dessa década, José Tavares Frazão Jr. [1955-1959], mantém a política de aquisição de casas devolutas, porém, dá um passo em frente. Querendo ir além de palpites, pede um ante-projecto de urbanização da Cova de Milho a um arquitecto paisagista. Ainda que tenha conseguido a visita relâmpago desse profissional, cujo nome não nos dizem, dela não resultou projecto algum. Apesar disso, Tavares Frazão aproveitou alguns dos seus conselhos, com os quais, a Câmara concordou.[8] Terão servido à Câmara seguinte de António Augusto? É provável. Na década de sessenta, António Augusto da Mota Moniz [1960-1969] ‘completou a compra de casas e construiu as pequenas represas entre as duas pontes.’[9] No dia 28 do mês de Junho de 1964, o Parque Infantil foi oficialmente inaugurado. Com o povo a espreitar, contou com a presença do Governador Civil (José Jacinto Vasconcelos Raposo) e de muito altas individualidades da Vila, do Concelho e de Ponta Delgada.[10] Em 1965, mereceu rasgados elogios do grande Ministro das Obras Públicas Eduardo Arantes de Oliveira: ‘o Senhor Ministro (…) ficou muito surpreendido e satisfeito com a grande transformação daquele aprazível lugar que percorreu (…).[11] Foi um sucesso imediato. Tal íman atraiu a Ribeira Grande a Ilha e forasteiros. A propósito, surgem postais ilustrados de vistas da Cova do Milho, agora Paraíso Infantil.

De 1964 até (mais ou menos) 1974/75/76, a terra viveu em plena lua-de-mel com o seu Paraíso Infantil. Foi talvez o principal palco das Festas da Ribeira Grande. Em 1965, D. Berta Hintze cai de amores pelo Paraíso. Escolhe o jardim do primeiro patamar (o que fora inaugurado na década de cinquenta) para expor os produtos da sua Fábrica do Chá Gorreana. Lá em baixo, onde antes fora a casa dos Lucianos e dos Buracas, ‘construiu um pavilhão chinês para serviço de chá, rodeando-o de pequenas mesas. Juntou-lhe uma cozinha própria com sua copa.[12] Ainda lá em baixo, um ‘dancing’ (talvez já no quintal do Teatro) e um restaurante.[13] O afamado ‘Restaurante do Balão instalado no Parque, em 50 mesas (…).’ E, ‘durante a noite, a verbena a favor dos Bombeiros Voluntários, foi concorridíssima, tendo a Orquestra de Teófilo Frazão animado o Dancing.[14] O ano de 1966 destacar-se-ia entre todos. Em Junho nasce o Círculo de Amigos da Ribeira Grande. O primeiro da Ilha.[15] Iria ser o Mordomo das Festas a partir de 1967. Nesse mesmo mês, Silva Júnior, ligado à promoção turística, jornalista e futuro ou já membro do Círculo, prova de que não haveria plano para o novo espaço, ou havendo-o, não fora ainda posto em prática na sua totalidade, aconselha um ‘melhor aproveitamento e embelezamento da antiga Cova do Milho.’ Propõe ‘uma esplanada no Largo fronteiriço ao Teatro, transformando o muro da ribeira em varanda para se contemplar o mar e o Paraíso Infantil e uma piscina.[16] Quanto à piscina, logo em Setembro, Miguel Silva, antigo nadador e professor de natação do Clube Naval de Ponta Delgada, lança a ideia de se construir uma piscina fluvial na ribeira do Paraíso.[17] A Câmara adere à ideia.[18]

Em 1967, apoiado pela Câmara, o Círculo dos Amigos já está ao leme das Festas.[19] Tem a brilhante ideia de construir um barco/Dancing/Bar: ‘ancorado’ no meio da ribeira, um vistoso navio estabelece a passagem entre as duas margens.’[20] Na ribeira, entre a ponte da Cova do Milho e a do Paraíso, dois pequenos barcos a remos, um de José Preto, um outro, do irmão António Elias, a troco de uma bagatela, oferecem ‘voltinhas na ribeira.’ O quintal do Teatro, já transformado em espaço das Verbenas, atraía gente de toda a Ilha. A miudagem frequentava aos magotes o parque. Entretanto, um ou dois anos depois, uma cheia arrastou o barco/dancing até ao mar. Os dois barquinhos deixaram de dar fretes na ribeira. E a Câmara desistiu de construir uma piscina fluvial. O interesse pelo Paraíso mantém-se ainda no início da década de setenta. No início dessa década, o outeiro do Açougue passa a escadaria. Dá-se outra cara aos Sanitários Públicos. A margem direita é alvo de intervenções. Os privados (incentivados pela autarquia) vão tirar partido da popularidade do local. Beneficiando da vista do Parque Infantil, em Junho de 1973, Germano da Costa abre portas ao Restaurante O Costa. (Restaurante/Cervejaria/esplanada).[21] De muito bom nível. O melhor que então havia na terra e arredores. Dizem. Em 75 ou em 76, um filho (Manuel Costa) e um genro (Victor Almeida), tomando de renda à Câmara o moinho do Açougue, abrem O Moinho. Um Pub bastante frequentado pela malta nova. Durou pouco tempo.

 Porem, a partir de 74/75/76 e até meados ou finais da década de noventa, a lua-de-mel vai esmorecendo. O Círculo resguarda-se. Em seu lugar, entra o CADAR, um grupo de jovens fãs do Círculo. Eram, porém, mais jovens, nada elitistas e abertos aos ares do tempo: ‘Por iniciativa de um grupo de estudantes desta vila, vão realizar-se, nesta quadra, as Verbenas de São Pedro (…). Em todos os fins-de-semana (ao todo seis) estará aberto, a partir das 21 horas, o ‘retiro académico’, com dancing, abrilhantado pelo conjunto ‘O Átomo.’[22] Depois, as relações na Ilha e na terra azedaram ao ponto de provocarem violência. O CADAR acabou violentamente a 19 de Agosto de 1975. O Paraíso, já quase só refúgio de namorados e morada de dezenas de ‘patos,’ passara de moda. Em 1981, a poucos dias da elevação a cidade, acutilante, Alfredo da Ponte tirava um instantâneo realista dali de baixo: ‘Perto do nosso jardim,/ Um cenário infeliz:/ O parque era para mim/ Cidade Patópolis./ Só lá existiam patos/ Embora já sendo poucos./ Só eles sabiam fatos./ Do que aconteceu aos outros./ O Vale do Paraíso/ Pra quem vai de passagem/ Com um pouco de Juízo/ Daria boa pastagem./ No Vale do Paraíso,/ Que coisa desengraçada!/ Trabalho não foi preciso/ Pois, dava muita maçada.’[23] Entretanto, foram acontecendo ali coisas de qualidade. Mas avulsas. Em 1985, no âmbito do Ano Internacional da Juventude, iniciativa de Luís Torres, surge o Monumento à Paz: ‘uma Bola/Mundo num pedestal para o dia mundial da paz. Fui eu (R. Lalanda) que fiz no José Dâmaso em 1985.’[24] Em 1987, o americano Tom Januz, no âmbito do I Simpósio da Pedra, faz a escultura Mushroom.[25] O Moinho do Açougue foi aberto. Porém, uma cheia destruiu os rodízios.[26]

De meados da década de noventa até meados da primeira década do século XXI, o Paraíso ressurge. Com este propósito, em 1995, a Câmara de António Pedro Rebelo Costa [1993-2005] encomenda ao arquitecto Eduardo Agria uma proposta de ‘Beneficiação do Paraíso Infantil.’[27] Com a obra do Teatro em mente, que seria reinaugurado em Maio do ano anterior.[28] Pretendia-se ligar o Teatro e o Paraíso. Da proposta para o Paraíso, destaca-se um palco, um anfiteatro ao ar livre para 300 pessoas sentadas, uma pista de skate e de patinagem, um salão de chá, oficinas, expositores e ateliers, até um campo de água com repuxo. A obra é lançada em 2001. O Teatro, entretanto, fora reinaugurado com uma programação nunca antes vista nem nunca mais igualada. O ‘Centro de Artes e Ofícios,’ segundo Filomeno Gouveia, vice-Presidente e alma do projecto, era ‘para atrair artesãos e dar vida ao Paraíso. Com oficinas individuais e anfiteatro. No Tabuleiro foi disponibilizado um centro expositivo de artesanato.[29] Aberto em 2003/2004, o anfiteatro foi palco de ‘várias actuações musicais, uma passagem de modelos, celebrações relacionadas com o dia da criança, festa do chá (…).[30] Ainda em fase de construção, os ‘Clã actuaram no espaço. Em 2008, na Presidência de Ricardo Silva [2005-2013], o espaço das oficinas foi adaptado a Ecoteca.[31] Por esta altura, houve um projecto (que ficou incompleto) de consolidação das margens da ribeira e de ligação da ribeira à foz e ao Monte Verde.

A partir daí até hoje, apesar de algum aproveitamento, o Paraíso está desaproveitado.[32] Em 2016, já com Alexandre Gaudêncio [2013-2025], o Parque Infantil sai de onde sempre estivera desde 1964.[33] Em seu lugar, surge o primeiro campo de Padel dos Açores.[34] Ainda para dar vida ali, Filipe Tavares, através da ARTAC (Associação Ambiental), com a colaboração de Filipe Pacheco, promove O Jardim. Um espaço de restauração e de múltiplos eventos.[35] Foi algo fugaz, infelizmente. Em 2017, o Núcleo das Ilhas de S. Miguel e de Santa Maria da Liga dos Combatentes, coloca uma placa de homenagem ‘Aos Mortos nas Guerras do Ultramar.[36] Alda Simas cria o espaço GIPSI (Grupo Informal de Partilha de Saberes).[37] No entanto, reconhecendo o caracter avulso do que ali se fazia, em 2021, Alexandre Gaudêncio desafia o arquitecto Nuno Malato a apresentar ideias. A ideia chave de Malato é simples: a Cidade da Ribeira Grande deveu e deve a sua identidade à ribeira Grande. Para reencontrar a sua identidade mais profunda, fazendo ponte entre o passado e o presente, propõe então, numa linguagem de hoje, requalificar ‘a ribeira que atravessa a cidade, nomeadamente os locais junto à nova frente mar, jardim Paraíso e antiga escola Gaspar Frutuoso.[38] Unindo a ribeira Grande à Praia do Monte Verde, sublinho eu. Às portas do ano Novo de 2026, deixo um voto: dê-se bom uso a essas ideias.

Largo das Freiras, Cidade da Ribeira Grande



[1] Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3; Veio a ser integrado na 3.ª Edição, de A Ribeira Grande, 1984, pp. 137-141; Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3; Veio a ser integrado na 3.ª Edição, de A Ribeira Grande, 1984, pp. 137-141. Ainda segundo ele, era desejo que se perseguia há muito: ‘há mais de cem anos que os gestores municipais’ tentavam ‘dar outra feição ao lugar; mas, ou porque nunca elaboraram um plano, ou por outras razões quaisquer – chegou aos nossos dias com aquele fundo de miséria, que contrastava com a beleza de qualquer ângulo por onde fosse observado.’

[2] Em ambas as Presidências, Faustino Pereira de Lima foi vereador. Era ele quem executava as decisões. Faustino, para muitos, está para aqueles dois Presidentes como o Marquês de Pombal esteve para o Rei D. José.

[3] Conforme: Róis de Confessados, Matriz, 1910; Rol Quaresmal da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1919: Tentando acompanhar o passo à evolução do Bairro, começo pelo rol de 1919. Nesse ano, há vinte e duas casas e cinquenta e nove pessoas. Nove anos antes, havia trintas moradias e noventa e seis moradores. O que sucedeu para haver menos nove casas e trinta e sete moradores? Não foi a cheia de 9 de Agosto de 1919, a quaresma fora três meses da cheia. Aliás, o rol de 1920 diz-nos que a cheia não teve impacto a esse nível. Há menos uma pessoa mas mais uma casa. Terá a gripe espanhola algo a ver com isso? Em 1919, entre um ano de idade e os setenta e oito, das quais, onze são viúvas. Residem aí, três camponeses, dois peixeiros e um pescador. Já por essa altura, o outeiro da Fonte Grande fora substituído por uma escadaria? A Fonte Grande fora eliminada. Ia-se construir o edifício do Teatro.

[4] Rol Quaresmal da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1943. Com a emigração fechada e com o regresso de alguns emigrantes nos Estados Unidos, a população tendeu a aumentar. Residem oito camponeses, cinco agenciadores, dois peixeiros, dois galocheiros, um vendilhão e um caiador. Mudou, em termos de ocupação profissional. Pedro Pascoal, 14 de Dezembro de 2025: ‘O homem do moinho da ponte [moinho da Cova do Milho perto da ponte dos Oito Arcos] cozinhava uns bons petiscos. Irós. O meu bisavô João Carvalho [Oliveira] ia lá petiscar. Lá mesmo no moinho dava consultas ao pessoal da Cova de Milho. Graciosamente.’ Com uma mercearia cá em cima junto à ponte do paraíso, João Botelho Pascoal compra dois moinhos lá em baixo: ‘O da ponte (grande) e o do Paraíso (Açougue). Comprou ambos na década de quarenta, o primeiro, logo no início da guerra, o segundo, comprou-o pouco depois.’ O Moinho (1957), pp. 27-34; Barbosa, Manuel, Enquanto o Galo canta, I – Contos: II – Bibliografia, Ribeira Grande, 1985; Uma fotografia, da década de quarenta ou já de inícios da de cinquenta, mostra em primeiro plano o matagal das traseiras das casas (tendas de ferreiro). Estariam já demolidas? Em segundo plano, a vista parcial do Bairro do Curral. A ruela à direita da ponte: do lado da ribeira, um quintal encostado à ponte, três casas. Com quintais pequenos. Diante desta, duas casas, um quintal, mais uma casa e um quintal. Confronta com a ruela que vai ao moinho da Cova do Milho. Os metrosíderos já cresceram substancialmente. As casas são de telha, caiadas na fachada. Não na empena. Nem todas parecem ter chaminé. Para finais da década de cinquenta, Manuel Barbosa dedica um conto àquele moinho. É ficção: a história conta que o moleiro, viúvo, quarentão, viola a filha mais velha de um cliente e amigo pobre que leva farinha mas não a paga.

[5] Arrisco a datá-la entre 1925 – quando o desenho e as plantações de espécies se iniciaram após a destruição de 1919, e 1932/3, pelo tamanho das araucárias. Há uma fotografia do jornal com a data de 1933, onde se vêm as araucárias um pouco maiores. Virá desta altura, um Postal, sem data, mas datável de ano entre o de 1925 e o de 1933, bilingue, com a legenda ‘S. Miguel – Açores – Ribeira Grande. Jardim Público e Câmara Municipal (Public Garden and Town Hall).’ Nele se pode ver em primeiro plano ainda as casas do outeiro do Açougue (as tendas de ferreiro). Rol Quaresmal da Matriz de Nossa Senhora da Estrela, 1943. Uma fotografia de 1932, em primeiro plano, apanha as traseiras das casas do outeiro do Açougue (tendas). Invadidas por canaviais e por uma enorme cameleira. Em segundo plano, apanha parcialmente o Bairro da Cova do Milho. Casas de telha, caiadas e com chaminé. Por esta altura, ainda sem inauguração oficial, que ocorreria em 1933, o Teatro já estava a funcionar. Passava filmes. Havia espectáculos de teatro. De música. O Orfeão de Coimbra regido por Raposo Marques actuou lá. E os moradores de outras onze casas aparecem riscados. Mudaram de rua. Ou saíram da Ribeira Grande.

[6] Uma fotografia da altura, oferece-nos, em primeiro plano, o jardim. No meio dele, serpenteia a levada do moinho do Açougue. Comparando essa fotografia à que usei antes, não parece ter havido alterações substanciais no bairro.

[7] Silva, Ezequiel Moreira da, Coisas da Ribeira Grande, A Cova do Milho, Correio dos Açores, 5 de Abril de 2009, p. 27: ‘Também lá morava um ‘contrabandista (o Manuel Zazula): ‘De vez em quando ele surgia pelo botequim do Teatro de cesta de vimes aos ombros, oferecendo pasta de dentes Colgate – a única que então aparecia nas lojas era a portuguesa Couto – sabonetes Lifebuoy e Lux, meias de seda, tabaco, um ou outro perfume e garrafas de Whiskey, coisa que era raro ver pelos cafés ou outros estabelecimentos. Tudo eram artigos americanos que lhe chegavam certeiramente às mãos, mesmo sem sair da Ribeira Grande….’ E dá conta de espectáculos pouco dignos: ‘No verão, quem se abeirasse do parapeito que dá da Praça para o Paraíso via todo aquele estendal por cima das pedras da ribeira e nas suas margens e as mulheres, de pernas nuas dentro de água no trabalho da lavagem. Era bonito de se ver, mas, não deixava de ser deprimente!’ Aquilo ali não era sempre pacífico: ‘Aos Domingos, ao fim da manhã, lá de vez em quando a Cova do Milho presenteava os passeantes que andavam cá por cima pela Praça com espectáculos gratuitos. Isto acontecia quando algumas mulheres se zangavam umas com as outras.

[8] Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3. Virá dessa altura, uma fotografia mostrando casas destelhadas. Segundo o rol de 1955, havia quinze casas e trinta e duas pessoas. E uma casa desocupada. A maioria trabalhava no campo: sete camponeses. Um deles era o Manuel dos Santos Buraca. Dois galocheiros. Um peixeiro. O Luciano. O Manuel Silva. Um vendilhão. Um agenciador. 

[9] Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3; Veio a ser integrado na 3.ª Edição, de A Ribeira Grande, 1984, pp. 137-141. A ideia já vinha do tempo de Hermano da Mota Faria: Teve a ideia de ‘criar vários lençóis de água para ambos os lados da ponte do Paraíso (…).’ Vereação de 24 de Junho de 1964, fls. 126 v-127: ‘(fl.126- v-127) Inauguração; Urbanização da Cova do Milho e Parque Infantil (…).’ Havia folga no erário. Pedro Pascoal, 14 de Dezembro de 2025: João Pascoal, entretanto, nos anos sessenta, começou a desgostar-se do negócio. Vendeu os dois moinhos. O primeiro foi o da ponte (Oito Arcos). Uma cheia destruiu-o. Vendeu-o à Câmara. O segundo, o do Paraíso (Açougue) vendeu-o na década de setenta.’ Deu jeito ao proprietário vendê-los e veio ao encontro da Câmara que queria higienizar a Cova do Milho. Que iria fazer com os moinhos? Róis Quaresmais, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Cova de Milho, 1962: Nenhuma referência. Havia de ver-se. Ainda em 1960, restavam treze casas do Bairro da Cova do Milho. Uma, porém, desabitada. E trinta e nove moradores. Em 1962, a acreditar nos róis, já não havia lá moradores. Róis Quaresmais, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Cova de Milho, 1960: De 1064-1177= Catorze agregados. Doze ainda; Róis Quaresmais, Matriz de Nossa Senhora da Estrela, Cova de Milho, 1961: De 1087-1098 = Doze agregados. Resta apenas, um: Manuel dos Santos, Camponês, 72 anos, e Dídia da Conceição, 70 anos. AMRG, Vereação de 11 de Dezembro de 1963, fl. 55. Manuel dos Santos e Dília aguentavam-se para vendê-la por um preço melhor? AMRG, Vereação de 13 de Março de 1963, fls. 160-160 v. Em Março, a Câmara conseguira negociar ‘731 metros quadrados de terreno na Cova do Milho (…) a Armindo de Melo Moreira da Silva (…).’ No entanto, ainda em Dezembro de 1963, faltava adquirir ou permutar a casa da família Buraca. AMRG, Vereação de 13 de Maio de 1964, fls. 11 v.-112: Em Maio, a um mês da inauguração oficial, ‘convinha fazer desaparecer daquele local’ da ‘zona da Cova do Milho, recentemente urbanizada e que inclui um Parque Infantil de diversões (de) algumas pocilgas, currais e estábulos (…).’ O limite do Parque Infantil quando abriu era sensivelmente o limite do campo de Padel de hoje. O que hoje é o anfiteatro e dai até à ponte, ainda fazia parte dos quintais da rua do Saco. E o moinho junto à ponte dos oito arcos ainda não fora adquirido. O problema não se iria logo resolver, foi sendo resolvido até bem dentro da década de setenta.

[10] Vereação de 24 de Junho de 1964, fls. 126 v. – 127.

[11] Ministro das Obras Públicas Chegou ontem a São Miguel, Jornal Açores, Ponta Delgada, 3 de Julho de 1965, p. 1, 3.

[12]‘Tudo fez por conta própria para embelezar e enriquecer a exposição e para auxiliar os bombeiros. O recinto é o mais belo do parque, pois situa-se numa colina, onde o acesso se faz por uma ponte construída propositadamente. Colaboraram com a benemérita muitas senhoras da sociedade citadina e ribeiragrandense. Um grande grupo de meninas das mesmas famílias, com traje típico oriental, serve agradavelmente às mesas a larga clientela.

[13] Correio dos Açores, 29 de Junho de 1965, p.1.

[14] Correio dos Açores, 1 de Julho de 1965, p. 2: ‘Assim terminou o primeiro dia dos festejos em boa hora promovidos pela Câmara Municipal da Ribeira Grande, que pode ufanar-se de pertencer a um dos concelhos mais importantes tanto pelas suas indústrias como pelo seu comércio.’ Correio dos Açores, 1 de Julho de 1965, p. 2. As obras ali em baixo, no entanto, iam prosseguir por muitos mais anos. Ainda em 1965, continua a proceder-se à urbanização da Cova do Milho: a jusante da ponte (qual?).

[15] Correio dos Açores, 22 de Junho de 1966, p. 1; Correio dos Açores, 29 de Junho de 1966.

[16] Silva Júnior, Correio dos Açores, Ponta Delgada, 2 de Julho de 1966.

[17] O antigo nadador do Clube Nacional de Natação e instrutor do Clube Naval de Ponta Delgada Miguel Silva faz interessantes declarações ao nosso jornal, Diário dos Açores, 24de Setembro de 1966, p. 2; Correio dos Açores, 28 de Setembro de 1966, pp. 1-2.

[18] Correio dos Açores, 27 de Setembro de 1966 e Diário dos Açores, 24 de Setembro de 1966.

AMRG, Sessão de 28 de Setembro de 1966, fls. 44 v. 45.

[19] Açores, Ponta Delgada, 16 de Março de 1967; AMRG, Vereação de 12 de Abril 1967, fl. 120.

[20] Correio dos Açores, 22 de Junho de 1967, p. 1. Pereira, Ventura Rodrigues, A Ribeira Grande e a sua gente. Cova do Milho, Diário dos Açores, Ponta Delgada, 7 de Março de 1963, pp. 1, 3. Isso foi possível porque haviam já sido construídas duas pequenas barragens que deram lugar a dois espelhos de água: ‘António Augusto da Mota Moniz [1960-1969] (…) construiu as pequenas represas entre as duas pontes.

[21] Testemunho de Victor Almeida, 15 de Dezembro de 2025: ‘O Restaurante Costa abriu em Junho de 1973. O Moinho, eu e o meu cunhado Manuel, um Pub, abriu ou em 1975 ou em 1976. Já não me lembro muito bem. Esteve aberto pouco mais de um ano.’ O Costa, posteriormente comprado pela Câmara, no tempo do Presidente Ricardo Silva, hoje alberga o GAM (Gabinete de Atendimento aos Munícipes) e outras valências da autarquia. Foi, antes, durante uns tempos o Paradise, estabelecimento de Strip Tease. Testemunho de Laurénio Costa, 22 de Dezembro de 2025: Foi o Casanova que o construiu de 1971 a 1973.

[22] Correio dos Açores, Ponta Delgada, 29 de Junho de 1974. Grupo que tomei a iniciativa de fundar a 10 de Junho. Para isso convidei outros nove.

[23] Cf. Ponte, Alfredo da, Ribeira Grande – Cidade, in Ponte de rimas dos versos da Ponte, 2013, Edição dos amigos da Ribeira Grande, pp. 109-111.

[24] Testemunho de Luís Torres, 22 de Dezembro de 2025: Tive a ideia, pedi apoio à escultora Luís Constantino e a Ricardo Lalanda Gonçalves. Meu pai executou-a. Uma bola de basalto – simbolizando o mundo – e uma pomba em mármore. Hoje a pomba desapareceu; Ricardo Lalanda, 22 de Dezembro de 2025: Fi eu, a Luísa Constantino ainda não estava cá.

[25] Informação de Ricardo Lalanda Gonçalves, 22 de Dezembro de 2025. Organizado por Luísa Constantino. Iria depois para o primeiro jardim do Paraíso.

[26] Minha iniciativa com a supervisão do meu vizinho Sr. Aurino Furtado Tachinha. O rodízo foi feito por um mestre na com oficina na Grota da Ribeira Seca.

[27] Infelizmente, era o ponto de encontro de toxicodependentes. Avistava-se da ponte aquilo lá em baixo. No Natal punha-se lá uns bonecos de Natal. Enfeitavam-se as árvores. E pouco mais. Daí o esforço.

[28] Essa obra englobava o antigo quintal, centro das verbenas. A escadaria que substituíra o outeiro da Fonte Grande, desapareceu. Assim como, a fonte que abastecia o bairro da Cova do Milho.

[29] Testemunho de Filomeno Gouveia, 18 de Dezembro de 2025.

[30] Destelhou-se o moinho de modo a ser visto de cima da ponte dos Oito Arcos. Armindo Vitória foi quem aconselhou a reabertura do Moinho do Açougue. Artesãos ocuparam as lojas ali criadas e expuseram as suas obras no salão debaixo do Tabuleiro (Centro de Artesanato). Em 2004, as instalações sanitárias foram melhoradas. Todo o espaço foi electrificado. Reabriu-se o espaço musealizado do Moinho do Açougue. Deu-se nova interpretação ao moinho junto à ponte dos Oito Arcos. Testemunho de Otília Botelho, 22 de Dezembro de 2025.

[31] Um Projecto de 2006 executado entre 2007- 2008. Costa Empreiteiros. Engenheiro: Pedro Gouveia Sacramento.

[32] O espaço fora de novo apropriado por más companhias. Droga, sobretudo.

[33] Uma parte, passa para um ponto (infeliz) situado na margem direita da ribeira, junto aos sanitários. Outra, para o local onde antes estivera o Pagode Chinês e a casa dos Lucianos e Buracas.

[34] Informação de Alexandre Gaudêncio, 18 de Dezembro de 2025. E confirmado. Campo de Padel. O primeiro dos Açores. Américo Cordeiro. Construções.

[35]Testemunho de Filipe Tavares, 16 de Dezembro de 2025.

[36] Testemunho de Álvaro Feijó, 22 de Dezembro de 2025.

[37] Testemunho de Alda Simas, 20 de Dezembro de 2025: ‘Tive a ideia há uns 12 anos. Estávamos no espaço à entrada (debaixo do Tabuleiro), ao fundo era onde jogavam jogos, deixei isso quando o meu neto Luís nasceu (já fez 9 anos). Agora é a Junta da Matriz que usa o espaço.’

[38] Um projecto do qual eu faço parte como consultor de História. https://www.cm-ribeiragrande.pt/camara-da-ribeira-grande-apresenta-projeto-para-requalificar-a-ribeira 1 de Julho de 2021. O Presidente (recandidato) havia pedido ideias ao arquitecto Nuno Malato (arquitecto residente na Cidade da Ribeira Grande). Que, em Junho, a Região passou para as mãos da Câmara. Cf. Correio dos Açores, 14 de Junho de 2024:

actividades e projectos ligados à educação, ensino e formação profissional, património, cultura e ciência, tempos livres, desporto e saúde (…).
Como contrapartida, “obriga-se a assegurar a disponibilização de um espaço edificado, para utilização, pelos serviços da Administração Pública Regional.
Em parte, é a junção do que as Presidências de António Pedro e de Ricardo Silva pretenderam e mais uma visão moderna e abrangente.


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